Síndrome hipercinética: sintomas e diagnóstico
Genário Alves Barbosa
Doutor em Psiquiatria Infantil pela Universidade de Sevilla - Espanha.
Coordenador do Mestrado em Desenvolvimento Humano da UFPB.
Professor de Psiquiatria Infantil da UFPB. Pesquisador 2B do CNPq.
Adriana de Andrade Gaião e Barbosa
Mestra em Desenvolvimento Humano pela Faculdade de Medicina - UFPB.
Psicóloga infanto-juvenil. Pesquisadora do Núcleo de
Transtornos do Desenvolvimento HU/UFPB - João Pessoa - PB.

Introdução
A síndrome hipercinética é caracterizada por início precoce e por uma combinação de comportamento hiperativo e pobremente modulado com desatenção marcante, falta de envolvimento persistente nas tarefas, conduta invasiva nas situações e persistência, no tempo, dessas características de comportamento.
Segundo Golfeto (1997a), é importante buscar explicações na Psicopatologia do Desenvolvimento, pois somente assim vamos encontrar, já em idades precoces, sintomatologia que vai explicar e justificar, em cada etapa evolutiva, probabilidades da criança ser hipercinética.
No primeiro ano de vida os bebês podem apresentar baixo peso, serem adotivos e irritáveis; ficam em estado de hiperalerta, dirigem o olhar a qualquer estímulo, dormem pouco, têm sono agitado, movimentam muito os membros superiores e inferiores, mostrando, assim, os primeiros sinais de hipercinesia, traduzidos por hiperatividade. Este será, portanto, o primeiro sintoma-alvo dessa síndrome e evidencia que a atividade motora está exacerbada. Nesta etapa evolutiva, os distúrbios da atenção e concentração não são os sintomas primários da síndrome hipercinética.
É interessante observar que Golfeto (1997a) destaca, em seus estudos, a adoção como sendo uma das prováveis causas desta síndrome e corrobora com investigadores europeus, tais como Taylor (1986), Pino e Mojarro Praxedes (1993). Destaca, ainda, a hipercinesia como sintoma inicial, ocasionando como consequência a futura síndrome hipercinética. Entre nós, Barbosa e cols. (1996) também têm chamado a atenção para a importância da nomenclatura desta síndrome, onde hipercinesia é mais adequada que hiperatividade e a explicação está evidenciada através da Psicopatologia do Desenvolvimento.
No primeiro ano de vida, no que diz respeito à sintomatologia, o déficit da atenção, que é um dos sintomas-chave desta síndrome, é de difícil observação. Para Golfeto (1997b), são os bebês que sentem cólicas abdominais intensas, regurgitam o leite com frequência, sugam o leite com força, com características de voracidade, não gostam de colo e estão sempre insatisfeitos. Quando começam a andar podemos observar que a hiperatividade se intensifica e vamos ver que estas crianças caem mais do que andam, não permanecendo sentadas e não ficam quietas, nem nas cadeiras ou mesmo no chão. Por outro lado, já apresentam atividades perigosas, colocando-se em situação ou em locais de perigo, mostrando, assim, também, os primeiros sinais de impulsividade (Gaião e Barbosa, 1998).
Dos dois anos em diante estas crianças ficam mais agitadas, destruindo seus brinquedos, perdem o interesse pelos mesmos e, como observa Conners (1969), mudam de atividade com facilidade. Aqui já se percebem os primeiros sinais de desatenção. A fala se apresenta mais lenta, com alterações fonoarticulatórias manifestadas através de omissões e distorções fonéticas, resultando em "taquilalia estafante", segundo Golfeto (1997a). Por outro lado, algumas destas crianças podem apresentar retardo de linguagem, emitindo as primeiras palavras a partir dos três ou quatro anos de idade.
A hiperatividade, traduzida nesta época pela não coordenação motora, vai caracterizar-se por um andar desajeitado, com tombos frequentes. Outro sintoma importante nesta idade diz respeito às normas. Já nesta fase se iniciam vestígios de indisciplina e a presença das birras.
Dos quatro aos sete anos, na idade pré-escolar, a sintomatologia clássica da síndrome hipercinética já está bem desenvolvida e presente. Nesta fase, a desobediência como sinal de indisciplina é mais evidente. Podemos, assim, verificar o acerto de Still, em 1902, quando denominou pela primeira vez estas crianças como sendo portadoras de uma síndrome "defeito de conduta moral", principalmente por apresentarem sintomas ditos condutuais, oriundos da indisciplina (Gaião e Barbosa, 1998).
A síndrome hipercinética tem sua origem, sempre, nos primeiros cinco anos de vida, sendo suas principais características a falta de persistência em atividades que requeiram envolvimento cognitivo e a tendência a mudar de uma atividade para outra sem concluir nenhuma, bem como atividade excessiva, desorganizada e malcontrolada. Essas características persistem através dos anos escolares e até mesmo na vida adulta. Ávila de Encío e Polaino (1988) citam estudos de vários autores, que preconizam que estas crianças com SH apresentam, quando na idade adulta, baixo rendimento laboral, mudam com maior frequência de trabalho, sofrem acidentes de trânsito e alguns deles têm sido penalizados pela prática de atos delitosos.
Várias outras anormalidades podem estar associadas a essa síndrome, tendo em vista que crianças hipercinéticas são assiduamente imprudentes e impulsivas, propensas a acidentes e incorrem em problemas disciplinares, por infrações não premeditadas. Seu relacionamento com adultos é, com frequência, socialmente desinibido, com falta da precaução e reserva normais; são impopulares com outras crianças e podem tornar-se isoladas (Barbosa e cols., 1997). São comuns o comprometimento cognitivo e atrasos específicos do desenvolvimento motor e da linguagem, além de complicações secundárias, incluindo comportamento anti-social e baixa auto-estima, sendo comum a essa síndrome a dificuldade de leitura, associada ou não a outros problemas escolares. A atenção comprometida é manifestada por interromper tarefas prematuramente e por deixar atividades inacabadas, em decorrência da constante mudança de uma atividade para outra, parecendo perder o interesse em uma tarefa, porque as crianças se distraem com outras. No processo diagnóstico, é importante estar atento a esses déficits na atenção, devendo a mesma ser compatível com a idade e desenvolvimento da criança.
Do ponto de vista sintomatológico, estes períodos evolutivos têm uma importância vital como meios preventivos desta síndrome. Ocorre que tais sinais e sintomas deveriam ser avaliados e observados pelos pediatras, que já nesta fase evolutiva deveriam intervir preventivamente. Na maioria das vezes estes sintomas vão passar despercebidos ou, quando não, diz-se que logo desaparecerão (Barbosa e cols. 1997).
Quando a criança vai à escola pela primeira vez (seja maternal ou jardim), a professora é quem vai observar as alterações comportamentais, condutuais e de desenvolvimento, gerando, a partir desta observação, a indicação pela procura de um profissional para intervir nesta criança.
A sintomatologia descrita por Golfeto (1997b) traz grande contribuição à Psicopatologia do Desenvolvimento. Pela clareza de sua descrição, fica fácil para o profissional experiente tomar as primeiras medidas preventivas e de intervenção. É importante ter cuidado com estes sintomas, nestes primeiros anos de vida, pois como a criança está vivendo um período de desenvolvimento e de maturidade cerebral e psíquica, alguns podem não ter importância clínica em dado momento ou mesmo em caráter isolado. Barbosa e cols. (1996) chamam a atenção para estes cuidados, já que os critérios nosográficos atuais só admitem o diagnóstico da síndrome hipercinética a partir dos sete anos de idade. Questionam aqueles investigadores: existe ou não a síndrome hipercinética antes dos sete anos de idade? Sem sombra de dúvida, é uma resposta que requer, inicialmente, um profundo conhecimento da Psicopatologia do Desenvolvimento e estão certos todos os que defendem que não é possível fazer este diagnóstico nesta etapa evolutiva. É necessário esperar que a criança entre no período de operações concretas, segundo as teorias de Piaget, quando estes sintomas podem ser explicados como realmente sindrômicos.
Streker, em 1924, encontrou sintomas que apareciam depois de um quadro encefalítico: instabilidade emocional, irritabilidade, obstinação, tendência a mentir e a roubar, déficit de atenção e da memória, além de desajustes e descoordenações, apresentando tiques nervosos, depressão, mau controle motor e hiperatividade. Pode-se verificar que, entre os sintomas citados, alguns atualmente não fazem parte dos transtornos hipercinéticos, enquanto outros continuam sendo relevantes, como a mentira e o roubo, além da própria hiperatividade (Barbosa, 1995).
Em 1957, Eisenberg descreve a hipercinesia como um sintoma, alteração do comportamento que se caracteriza por atividade motora exagerada e dispersão da atenção. Ela engloba as alterações específicas da aprendizagem escolar e posteriormente foi descrita como uma síndrome própria.
Porém, foi Bax (1972) quem fez a distinção entre hipercinesia e hiperatividade. A primeira estaria constituída por um exagero motor, causada por vários fatores que dificultam a criança à adaptação em seu meio sociocultural, ao tipo de disciplina recebida em casa e na escola, associadas a um estado depressivo.
Decorrente deste problema, isto é, a falta de terminologia adequada entre as duas classificações aceitas atualmente, a denominação de Transtorno do Déficit de Atenção (DSM-IV) compreende uma série de problemas em crianças, que antes eram diagnosticadas como hiperativas, hipercinéticas, lesão cerebral mínima ou disfunção cerebral mínima. O termo hiperatividade tem induzido a erros, pois tem sido utilizado como sinônimo de "Incapacidade de aprendizagem", e muitas crianças com esta síndrome estariam impossibilitadas de aprender; por outro lado, outras crianças com dificuldades de aprendizagem não são hiperativas (Hernández, 1989).

Sumário
A hiperatividade é um tipo de conduta em que a criança está em constante estado de inquietude, de alerta, de impulsividade e sem controle. Os profissionais que lidam com estas crianças devem estar atentos, pois se trata de uma conduta de difícil avaliação. É uma conduta complexa.

Diagnóstico
A maior limitação encontrada nos esquemas diagnósticos atuais é a falta de critérios operacionais que sejam aceitos universalmente. Apesar dos critérios incluírem sintomas comportamentais específicos, ainda há necessidade de um julgamento clínico subjetivo, no sentido de decidir se tal comportamento pode ser qualificado como um sintoma ou sinal diagnóstico, ou se o conjunto de comportamentos aberrantes encontrado é suficientemente importante, em nível funcional, para ser considerado como uma entidade nosológica (Gherpelli e Reed, 1997).
Para Barbosa e Gaião (1996), não é fácil abordar a problemática das causas que provocam um determinado transtorno, quando não há suficiente consenso da própria nomenclatura para designá-lo, como ocorre com os transtornos hipercinéticos (THs), segundo a CID-10 ou transtorno do déficit de atenção-hiperatividade, de acordo com o DSM-IV. Se, por um lado, abordar os THs constitui uma certa dificuldade nosográfica, muito mais difícil é analisar de per se um dos seus sintomas. Estamos diante do mais comum dos transtornos mentais infanto-juvenis, motivo pelo qual tem despertado nos investigadores pesquisas constantes em todos os aspectos metodológicos, mesmo que sejam contestadas ou polêmicas (Richters e Arnold, 1995).
Hagin (1997) destaca a importância que o diagnóstico dos THs tem para a prática médica e alerta para a necessidade de evidências clínicas, sociais, acadêmicas e parentais. Destacamos que estas evidências devem estar presentes antes dos sete anos de idade. Este fator idade antes dos sete anos é imprescindível quando da realização do diagnóstico. Por outro lado, a hiperatividade, quer entendida como sintoma ou mesmo como um transtorno, apresenta comorbidade com os transtornos de ansiedade, depressão, transtorno de conduta e abuso de substâncias psicoativas.
De acordo com os critérios da CID-10, são três os sintomas principais destes transtornos: a hiperatividade, o déficit de atenção e a impulsividade. Já na classificação do DSM-IV há uma dissonância entre a hiperatividade e a impulsividade e uma independência em relação ao déficit da atenção e estes transtornos se subdividem em:
1. Distúrbio do déficit da atenção - hiperatividade (DDAH) do tipo combinado, quando ambos os critérios para o déficit da atenção e hiperatividade-impulsividade estiverem presentes;
2. DDAH predominantemente do tipo déficit da atenção, quando os critérios para este estiverem presentes, entretanto, aqueles para hiperatividade-impulsividade não;
3. DDAH predominantemente do tipo hiperativo-impulsivo, quando os critérios para a hiperatividade-impulsividade estiverem presentes, entretanto, aqueles do déficit da atenção não;
4. DDAH não especificado, se existem sintomas de déficit da atenção ou hiperatividade-impulsividade que não preenchem os critérios da doença.
Para as quatro classificações acima, estes sintomas devem estar presentes nos últimos seis meses.
As crianças com DDAH geralmente apresentam sintomas associados, que não são essenciais para o diagnóstico. Podem fazer parte destes sintomas anormalidades no desenvolvimento motor, distúrbios da coordenação motora, tiques, distúrbios do aprendizado, atrasos no desenvolvimento da linguagem ou fala, distúrbios do sono, enurese, encoprese, imaturidade emocional, desorganização, dificuldades na interação social, negativismo, distúrbios emocionais e comportamentos anti-sociais (Gherpelli e Reed, 1997).
Tredgold, em 1914, realizava o diagnóstico diferencial entre transtorno hipercinético e crianças portadoras de deficiência mental (DM). Para ele, os deficientes mentais que apresentavam hipercinesia de maneira diferente, associada a anormalidades do paladar, a vários sinais neurológicos menores, à diminuição motora, à desatenção e distraibilidade e à desobediência, porém com déficit de quociente de inteligência (QI) não poderiam ser diagnosticadas como transtornos hipercinéticos (Taylor, 1991).
Quando, através de sua conduta, a criança demonstra para seus pais que em alguma coisa difere das demais, a trajetória destes é, primeiramente, o consultório do pediatra. Partindo dessa procura aos profissionais, é de suma importância que estes utilizem instrumentos objetivos, cujas medidas sejam válidas e precisas, de maneira que permitam estabelecer critérios claros para o diagnóstico da hiperatividade infantil, pois, partindo da utilização de um instrumento deste tipo, o pediatra poderá decidir sobre a necessidade de procurar, ou não, um especialista da área. A evolução diagnóstica é obtida através da história clínica relatada pelos pais, familiares mais próximos e professores, exames neurológicos, provas psicológicas, exame físico e EEG. Um dos dados principais da evolução da criança é a informação, dada pelos professores, sobre os problemas acadêmicos e o comportamento na escola. Através da anamnese, a mãe relata que a criança é muito viva, ativa e exigente, apresentando intensas respostas emocionais e problemas com a alimentação e o sono, nos primeiros meses de vida, com dificuldades para manter-se quieta na cama e estabelecer seu ritmo de atividades diurnas.
Convém salientar que na escola estas crianças apresentam problemas na organização acadêmica, na escrita ou leitura, dificuldades nos exercícios escolares e a própria dificuldade de manter uma relação de amizade com as demais crianças de sua idade. Essas queixas são as mais relevantes, apontadas tanto pelas professoras quanto pelos pais.
Para Goldstein e Goldstein (1998), a atenção é um processo complexo que envolve diferentes habilidades. Para funcionar efetivamente na sala de aula, a criança deve dominar um certo número de aptidões/habilidades relativas à atenção-orientação. No caso das crianças hiperativas, sabemos que as mesmas têm dificuldade em manter a atenção. Por outro lado, é muito importante, também, destacar que, em sala de aula, nem todas as crianças que apresentam dificuldades de manutenção da atenção podem ser consideradas hipercinéticas, pois vários outros transtornos da psicopatologia infantil cursam com déficit de atenção, entre eles, o transtorno de aprendizagem. Sem sombra de dúvida, a atenção é uma função difícil de ser quantificada, motivo pelo qual existem poucos ou raros instrumentos dedicados à sua medida.
Vários mecanismos poderiam explicar a falta de atenção e o aspecto ansioso da criança, o que poderia ser causado diretamente por algum transtorno específico da aprendizagem; poderia ser devido à frustração e ao fracasso que comportam um problema de aprendizagem; ou, ainda, poderia ser um fator ou causa comum. A conduta anti-social poderia levar a criança a fracassar na aprendizagem, porque sua conduta seria consequência da inferioridade e o ressentimento suscitado pelo fracasso educacional (Taylor, 1991).
No tocante às atividades escolares, as crianças portadoras de THs apresentam como sintoma central a dificuldade na manutenção da atenção, implicando a realização de várias tarefas ao mesmo tempo, sem terminar nenhuma delas (Gaião e Barbosa, 1998). Em classe, não respondem às perguntas feitas pela professora e se recusam a participar das atividades didáticas. No recreio, não sabem obedecer às normas dos jogos, nem perder. Falam todas ao mesmo tempo, não conseguem esperar sua vez, são bastante prepotentes e mandonas, acarretando-lhes um limite muito baixo de frustração.
É importante destacar que as crianças que apresentam conduta hiperativa na escola primária a apresentaram, também, no jardim de infância. Para Gagnon e cols. (1995), os problemas de desatenção podem ser um fator de risco para a hiperatividade, mas não para a agressividade. A nosso ver, a agressividade está mais direcionada para os transtornos de conduta, sendo a hiperatividade o cataclisma para a persistência dos problemas condutuais. A agressão não é preditora da hiperatividade, porém a recíproca é verdadeira. Os resultados deste estudo sugerem a existência de uma relação entre a hiperatividade precoce e a agressividade, mas não há nenhuma relação precoce entre a agressão e a conduta hiperativa.
Durante anos, com a constante modificação terminológica sofrida por essa patologia, os transtornos hipercinéticos tiveram, como principal impasse, a elaboração de instrumentos para sua avaliação. A nova terminologia contemplada pela CID-10, de Transtornos Hipercinéticos (F90), subdivididos em Transtornos Deficitários da Atenção (F90.0) e Transtornos Hipercinéticos (F90.1), permite fazer um diagnóstico mais preciso deste distúrbio condutual, desde que seja distinguida a sintomatologia. Por exemplo, nos transtornos hipercinéticos propriamente ditos (F90.1) se deve atentar para a presença de hipercinesia, de hiperatividade e, como frisa Taylor (1991), da sobreatividade.
Devido ao uso, muitas das vezes, indevido do termo hiperatividade, Taylor, em 1986, faz uma distinção de extrema importância clínica nesta terminologia. Para ele, é preciso diferenciar a sobreatividade, a hiperatividade e a hipercinesia.
A sobreatividade deve ser compreendida como uma quantidade excessiva de movimentos. Trata-se de um conceito simples e clinicamente não relevante, pois não é psicopatológico. Descreve um grupo heterogêneo de crianças, que não tem limites lógicos e não é necessariamente um problema. Assim, a sobreatividade nem sempre implica enfermidade, pois a criança pode ter uma concentração normal e ser sobreativa.
A hiperatividade é um tipo de conduta desnecessária, desorganizada e caótica, caracterizada pela combinação de inquietude e falta de atenção em um nível impróprio para a idade da criança. Dentro da sintomatologia dos transtornos hipercinéticos, é a primeira a ser observada. É uma atividade excessiva e sua atividade motora forma a tríade clínica necessária para se fazer o diagnóstico.
Já a impulsividade é um sintoma ambíguo por referir-se mais a distúrbios de conduta anti-social, enquanto a hipercinesia deve ser entendida num grau maior entre estes três sintomas, pois ela é estruturada e sindrômica, sendo caracterizada por alterações condutuais motoras da criança, provocando dificuldades em seu desenvolvimento psicoevolutivo. A impulsividade é um comportamento que leva a criança a agir sem previsão das consequências; ela apresenta inconsciência do perigo e da relação entre causa e efeito, mostrando uma disposição a enfrentar riscos que outras crianças evitariam.
Em 1982, Thiffault descreve clinicamente a hiperatividade, para diferenciá-la de uma forma constitucional das alterações motoras. Assim, a hiperatividade é definida pela associação de hipercinesia (ou seja, hiperatividade motora no sentido clássico), de distratibilidade e impulsividade. Por outro lado, a hipercinesia é mais esteriotipada, enquanto a distratibilidade é mais regular e menos profunda. Já a impulsividade é mais distinta (Micouin e Boucris, 1988).
O termo hipercinesia surge em 1930, aplicado especificamente à criança, descrita por Lereder e Ederer (citado por Micouin e Boucris, 1988) - (névrose d'hypermobilité de l'enfance) baseado em evidências neurológicas. A hipercinesia se manifesta a partir dos três anos, indo até a adolescência, idade na qual ela tende a desaparecer, dando lugar a outros transtornos. Todavia, sua terminologia não está definida, apesar dos critérios nosográficos existentes na atualidade não serem precisos como critérios diagnósticos.
Desta forma, conclui-se que a hiperatividade é distinta da hipercinesia. Aquela é um modo de classificar as condutas, enquanto esta é uma classificação de casos individuais e que se superpõe à hiperatividade (Barbosa, 1995).
Para o diagnóstico preciso dos transtornos hipercinéticos é necessário que o pesquisador ou clínico se informe detalhadamente sobre a conduta da criança, isto é, sugere-se o uso de instrumentos que permitam quantificá-la, levá-la a critérios operacionais. Estas condutas, entretanto, não podem ser situacionais, resultado de um determinado ambiente, sob pena de enviesar o diagnóstico; elas devem ser, necessariamente, massivas.
Entre os instrumentos mais utilizados para rastrear a sintomatologia dos transtornos hipercinéticos, destacamos o Questionário Abreviado de Conners para Pais e Professores. Este foi construído e validado na Austrália, em 1969, por Conners, e logo adaptado para outros países, com ampla difusão. No Brasil, o questionário foi validado em 1997 por Barbosa, Dias e Gaião.
O questionário é composto por quatro fatores, que se caracterizam pelo perfil resultante de crianças hiperativas que tomam um tempo apropriado para a realização de determinada tarefa, mas que não o utilizam de forma adequada com a finalidade de obterem um bom resultado. A miúdo, essas crianças com problemas de conduta parecem estar preocupadas com intensas buscas de gratificações imediatas e sua atenção é comprometida por interromper tarefas prematuramente e por deixar atividades inacabadas. Este questionário, por ser uma entrevista semi-estruturada, não serve para o diagnóstico dos transtornos hipercinéticos. Sua função é detectar os prováveis casos positivos e que, conjuntamente com a avaliação clínica e o uso de outros instrumentos, como o Parental Account Children's Symptoms - PACS (Taylor, 1986), o Physical and Neurological Examination for Soft Signs - Paness (Adams e cols., 1974) e outras provas, virão a confirmar o diagnóstico definitivo de síndrome hipercinética, segundo estudos realizados por Barbosa e Gaião (1997, 1996). Desta forma, é necessário contar com instrumentos que permitam avaliar o nível de hiperatividade da criança, evitando futuros problemas na sua educação e convivência em sociedade.
Assim, gostaríamos de, mais uma vez, salientar a importância de intervirmos o quanto antes sobre as crianças hiperativas, pois só assim estaremos deixando nossa contribuição, no sentido de alertar os profissionais que lidam com essas crianças e para que possam ter subsídios para melhor realizarem suas atividades clínicas, psicopedagógicas e acadêmicas. Com isso, consequentemente, a criança e seus familiares estarão sendo os mais beneficiados. Destacamos, também, quão importantes são as medidas preventivas e necessária informação a respeito da nosografia, etiologia e prevenção destes transtornos que acometem as crianças, dificultando sua aprendizagem e sua relação psicoafetiva.
Para Goldstein e Goldstein (1998), é essencial compreender o comportamento da criança hiperativa, ver o mundo através dos olhos dessa criança e fazer a distinção entre comportamento que resulta de falta de capacidade e comportamento que resulta de desobediência deliberada. Como sabemos, há muitas décadas existe uma polêmica em relação a sua nomenclatura. Muitas vezes, observamos apenas as brigas das escolas européia e americana, em que se muda o rótulo e nada é feito em relação ao problema.
Os profissionais que lidam com as crianças hiperativas, mais conhecidas como "danadinhas", podem constatar seu sofrimento, e também o sofrimento das pessoas que lidam com estas crianças, sejam elas os pais, professores ou colegas. Só quem convive com estas crianças é que sabe quão difícil é lidar com elas, pois não cooperam, não param quietas, estão sempre em movimento, manipulando objetos ou parecendo sonhar com um mundo diferente daquele em que ora vivem.
O educador desempenha, a nosso ver, um papel primordial, pois de suas informações dependerá um melhor rastreamento da sintomatologia apresentada em classe e na própria escola. É ele quem vê, conhece e observa as crianças. Os demais profissionais somente intervêm sobre a criança. Poderíamos, aqui, destacar alguns fatores que observamos nestas crianças, partindo das informações das professoras. Entre eles, temos: isolamento familiar, ausência dos pais por trabalharem, a pobreza e a dificuldade de identificação com o mesmo sexo (pai ou mãe), choro, desorganização nas tarefas, agressividade.
Chamamos a atenção, também, para os erros educativos que, sobremaneira, podem estimular ou desenvolver na criança uma conduta hiperativa. A educação muito imperativa e autoritária, a educação discordante, impulsiva e a carência educativa, adicionando-se aos maus exemplos dos professores e dos próprios pais são, sem sombra de dúvidas, fatores de risco que implicam em um mau rendimento escolar. Goldstein e Goldstein (1998) salientam que, no nosso modelo de escola, as crianças que permanecem, calmamente, sentadas, prestam atenção, planejam e conseguem alcançar seus objetivos são bem recompensadas e consideradas pelos professores como criança exemplar. Por outro lado, as crianças hiperativas, que são incapazes de satisfazer tais exigências, são candidatas imediatas a uma série de transtornos psicopedagógicos, sociais e familiares.



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