Home Busca Avançada Normas de Publicação Assinaturas Fale Conosco
Contact Us
 
 

 

CopyRight
Moreira Jr Editora
Proibida a reprodução sem autorização expressa


 
sêlo de qualidade
Like page on Facebook

Moreira JR Editora

O papel do zinco na infância e adolescência
The role of zinc in childhood and adolescence


Natacha Toral
Nutricionista, especialista em Adolescência para Equipe Multidisciplinar pelo Centro de Atendimento e Apoio ao Adolescente (CAAA) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Mestranda da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), área de concentração: Nutrição.
Samantha O. Rhein
Nutricionista, especialista em Adolescência para Equipe Multidisciplinar pelo CAAA/Unifesp. Mestranda em Ciências Aplicadas à Pediatria da Unifesp e coordenadora do Ambulatório de Adolescência Geral do CAAA/Unifesp.
Isa P. Cintra
Nutricionista. Professora adjunta do CAAA/ Unifesp.
Mauro Fisberg
Pediatra. Professor adjunto, chefe do CAAA da Disciplina de Especialidades Pediátricas do Departamento de Pediatria da Unifesp. Diretor do Núcleo de Qualidade de Vida da Universidade São Marcos. Diretor da Nutrociência - Assessoria em Nutrologia.
Trabalho realizado no Centro de Atendimento e Apoio ao Adolescente (CAAA) - Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - Rua Botucatu, 715 - Vila Clementino - São Paulo - SP. CEP 04023-062 - Telefax: (11) 5576-4360.
Endereço para correspondência: Natacha Toral - Rua Borges Lagoa, 512 - apto. 162C - Vila Clementino - São Paulo - SP - CEP 04038-900 - Tels.: (11) 5575-2995 e 8237-5079 - E-mail: natytb@usp.br

Unitermos: zinco, infância, adolescência.
Unterms: zinc, childhood, adolescence.


Sumário
Objetivo: Baseado na literatura científica, este estudo apresenta a função do zinco no crescimento, consumo alimentar e estado nutricional de crianças e adolescentes. Metodologia: Foi realizada uma revisão bibliográfica em bases de dados (MedLine, Lilacs e Scielo) com palavras-chave relacionadas ao tema. Resultados: O zinco desempenha funções cruciais na infância. Sua deficiência é freqüente em países em desenvolvimento, com graves conseqüências: atraso no crescimento e comprometimento cognitivo e imunológico. Em adolescentes, afetaria o crescimento, a mineralização óssea e a maturação sexual. A deficiência de zinco está associada a anorexia e mudanças no paladar e olfato. Em obesos, esta deficiência pode ser decorrente da redução da taxa metabólica basal pelas modificações do metabolismo de hormônios tireoidianos, que exigem zinco para sua atuação. Conclusão: Considerando o padrão inadequado de consumo alimentar observado ultimamente entre crianças e adolescentes, é indispensável a implementação de ações de prevenção e combate à deficiência de zinco.

Sumary
Objective: This study shows zinc functions on growth, dietary intake and nutritional state of children and adolescents, based on scientific literature. Methodology: A research on data bases (Medline, Lilacs and Scielo) was done, with keywords related to the subject. Results: Zinc carries out crucial functions in infancy. Zinc deficiency is a common problem in developing countries, with serious consequences: retarded growth, impairment of cognitive and immune function. During adolescence, it may affect growth, bone mineralization and sexual maturation. Zinc deficiency is associated with anorexia and decreased taste acuity and sense of smell. This problem among obese people suggests the participation of zinc in this pathology, through the reduction of the basal metabolic rate, as a consequence of an impaired thyroid hormone action, that needs this nutrient. Conclusion: Considering the unhealthy eating habits observed among children and adolescents, it is essential to take actions in order to eliminate zinc deficiency.

Numeração de páginas na revista impressa: 158 à 168

Resumo


Objetivo: Baseado na literatura científica, este estudo apresenta a função do zinco no crescimento, consumo alimentar e estado nutricional de crianças e adolescentes. Metodologia: Foi realizada uma revisão bibliográfica em bases de dados (MedLine, Lilacs e Scielo) com palavras-chave relacionadas ao tema. Resultados: O zinco desempenha funções cruciais na infância. Sua deficiência é freqüente em países em desenvolvimento, com graves conseqüências: atraso no crescimento e comprometimento cognitivo e imunológico. Em adolescentes, afetaria o crescimento, a mineralização óssea e a maturação sexual. A deficiência de zinco está associada a anorexia e mudanças no paladar e olfato. Em obesos, esta deficiência pode ser decorrente da redução da taxa metabólica basal pelas modificações do metabolismo de hormônios tireoidianos, que exigem zinco para sua atuação. Conclusão: Considerando o padrão inadequado de consumo alimentar observado ultimamente entre crianças e adolescentes, é indispensável a implementação de ações de prevenção e combate à deficiência de zinco.

Introdução

Depois do ferro, o zinco é o micromineral com distribuição mais abundante no corpo humano, correspondendo de 1,5 a 2,5 g do peso ponderal(1,2). Este metal se encontra em grandes quantidades em todos os tecidos, especialmente na musculatura esquelética (57%), ossos (29%), pele (6%) e fígado (5%), além de estar presente também em secreções e fluidos corporais. O zinco é primariamente um íon intracelular (cerca de 80% se encontra no citosol e o restante no núcleo) que, ao contrário do ferro e do cobre, não sofre alteração na sua valência e, portanto, não está envolvido nas reações de óxido-redução, o que permite que este seja transportado e utilizado de forma mais rápida, além de não submeter o organismo a ações oxidativas prejudiciais(1,3).

As inúmeras funções deste elemento e as graves conseqüências da deficiência de zinco na infância e adolescência exigem um estudo aprofundado sobre este nutriente, o que constitui o objetivo deste artigo. Foi realizada uma seleção de estudos encontrados por meio de revisão bibliográfica em bases de dados de saúde (MedLine, Lilacs e Scielo) com palavras-chave relacionadas ao tema. Com base na literatura científica será apresentada a função do zinco no crescimento, consumo alimentar e estado nutricional de crianças e adolescentes. Para tanto, é importante conhecer inicialmente o metabolismo e outras informações básicas sobre o zinco.

Histórico

A atuação nutricional do zinco foi comprovada pela primeira vez, em 1869, por Raulin, um discípulo de Pasteur, que mostrou o papel essencial deste elemento para o crescimento do cogumelo Aspergilus niger(4). Nas décadas de 30 e 40, diversos estudos evidenciaram a importância do zinco no estado clínico-nutricional de animais. A maioria das pesquisas mostrou que ratos, camundongos e porcos com deficiência de zinco apresentavam retardo no crescimento, alopecia, anorexia e lesões de pele. Porém, somente a partir de 1960 começou a ser descrita a ocorrência de síndromes relacionadas ao zinco em humanos. O estudo realizado por Prasad et al. (1969) verificou que o atraso no crescimento e o hipogonadismo de adolescentes iranianos e egípcios eram revertidos após suplementação com zinco(4). A partir dessa observação, diversos estudos passaram a verificar melhora na recuperação do crescimento em crianças desnutridas suplementadas com zinco(5).

Funções

O zinco desempenha funções cruciais em diversos processos biológicos do organismo, incluindo a síntese protéica, o metabolismo de DNA e RNA, metabolismo de carboidratos e lipídios, metabolismo energético, entre outras(6). Uma das principais funções do zinco é sua atuação enzimática, seja na estrutura da enzima ou em sua ação regulatória ou catalítica no organismo(7). Em 1940, foi descoberta a primeira metaloenzima que requer zinco para sua atuação, a anidrase carbônica, que desempenha importante função na homeostase ácido-básica e, desde então, já foram identificadas mais de 300 metaloenzimas que necessitam de zinco para sua atividade, como a álcool-desidrogenase (atua na oxidação do etanol), malato-desidrogenase (envolvida na produção de energia), carboxipeptidades A e B (participam da digestão protéica) e superóxido dismutase (tem ação anti-radicais livres)(1).

O zinco também é necessário para a atividade de nucleoproteínas envolvidas na expressão gênica, como as RNA-polimerases e da timulina. Esta se refere a um hormônio envolvido na maturação dos linfócitos T, o qual está relacionado com o indiscutível papel do zinco na imunidade(1,8).

Sugere-se que o zinco desempenhe importante função na manutenção da estrutura da membrana celular, determinando também a forma e a disposição espacial de enzimas e proteínas, além de proporcionar estabilidade a certas proteínas ligadas ao DNA(1,6). Esta seria uma possível explicação para as diversas interações que ocorrem entre o metal e outros componentes nutricionais, fisiológicos e ambientais(6).

O zinco também desempenha função regulatória no organismo. Ele é captado ativamente pelas vesículas sinápticas, atuando na atividade neuronal e na memória(1). A atuação do zinco como fator de crescimento é aceita por diversos pesquisadores, ainda que os mecanismos envolvidos nesse processo não estejam completamente descritos.

Metabolismo e biodisponibilidade

O zinco é absorvido por todo o intestino delgado, principalmente no jejuno e íleo, por difusão passiva simples ou através de transporte mediado por carreadores localizados na borda "em escova" dos enterócitos, considerando que sua absorção aumenta rapidamente quando o teor de zinco dietético é baixo(1,6,9). Da mesma forma, quando há um aumento na ingestão dietética de zinco, a porcentagem que é absorvida diminui. Logo, a quantidade de zinco absorvida é variável, dependendo da demanda do organismo.

Acredita-se que apenas 20% a 40% do zinco da dieta seja absorvível(12). A absorção do zinco é alterada pela presença de diversos fatores dietéticos, principalmente pelos fitatos. Este é um problema de grande importância nos países da América Latina e outros em desenvolvimento, tendo em vista que suas dietas típicas costumam ser à base de alimentos de origem vegetal, com alto conteúdo de fitatos. É comum o consumo elevado de leguminosas (feijões) e cereais, principalmente milho e trigo, enquanto que o consumo de alimentos de origem animal, os quais tem alto conteúdo de zinco, é mais difícil devido ao seu elevado custo.

O cálcio em pH alcalino também reduz a absorção do zinco, formando complexos insolúveis com o mesmo, assim como ocorre com os fitatos, que são eliminados nas fezes. Isto também ocorre com a presença de cobre e cádmio em grandes quantidades na alimentação, tendo em vista que estes competem pela mesma proteína carreadora(2,12). Possivelmente o ácido fólico possa reduzir a absorção do zinco, assim como as fibras (hemiceluloses, gomas, ligninas), ainda que a interação desta com o mineral dentro do lúmen ainda não tenha sido totalmente esclarecida(2,11). Um estudo realizado no Reino Unido avaliou os efeitos do aumento moderado do consumo de carboidratos complexos no metabolismo do zinco e do ferro e não foram observados efeitos deletérios no estado nutricional, com relação a esses minerais no organismo(11).

Entre os fatores que favorecem a absorção do zinco se encontram a glicose, a lactose, a proteína de soja e o vinho tinto. A presença de carnes na comida também facilita a absorção de zinco, por meio da liberação de aminoácidos e peptídios contendo cisteína durante a digestão, formando complexos solúveis com o zinco(14).

O zinco é eliminado principalmente pelas fezes, cerca de 1 mg/dia, enquanto que na urina são perdidos apenas 400 a 600 mg de zinco/dia. Também ocorrem perdas através de sudorese excessiva e hemorragias(1).



Recomendação dietética e fontes alimentares

De acordo com o Food and Nutrition Board, foram estipuladas as DRIs (Dietary Reference Intakes) para a ingestão de zinco de acordo com o estágio de vida, o sexo do indivíduo e a vigência de gestação e lactação (Quadro 1)(15). Alimentos como a carne bovina e de frango, que apresentam a forma mais rapidamente disponível de zinco dietético, além de peixe e laticínios, fornecem 80% do total de zinco dietético. Também são fontes de zinco camarão, ostras, fígado, grãos integrais, castanhas, cereais, legumes e tubérculos.

É importante considerar que as mudanças nos hábitos alimentares observadas nas últimas décadas podem interferir na biodisponibilidade do zinco na dieta. Pesquisadores na Nova Zelândia encontraram baixos indicadores bioquímicos deste micronutriente entre mulheres no período da pré-menopausa, fato que foi associado à redução do consumo de carnes, principalmente de carne vermelha, e ao aumento no consumo de grãos em comparação com dados anteriormente obtidos em amostras semelhantes no mesmo país(14). Dessa forma, sugere-se que a mudança das principais fontes alimentares de zinco tem resultado na redução da biodisponibilidade do mineral, prejudicando seu estado nutricional no organismo.

Deficiência

A deficiência de zinco ocorre pela ingestão ou biodisponibilidade inadequada deste nutriente e/ou do aumento da necessidade do mesmo. É freqüentemente observada em dietas vegetarianas limitadas e na desnutrição energético-protéica(11), sendo que esta última, provavelmente, é a causa mais comum de deficiência do mineral(12). Também pode ser decorrente de outros estados hipercatabólicos, além de doenças intestinais, alcoolismo, insuficiência renal crônica e uso de agentes quelantes. Períodos em que há um crescimento rápido, como no terceiro trimestre de gravidez, infância e adolescência, são particularmente mais vulneráveis à carência de zinco dietético.

Entre os efeitos da deficiência de zinco se destaca a redução da função imune. Esta situação é proveniente de uma redução do número total de leucócitos, principalmente linfócitos, tornando os indivíduos que padecem da deficiência de zinco mais sujeitos à ação de diversos patógenos, além de ter um período de recuperação mais longo. A deficiência de zinco está relacionada à atrofia de órgãos linfóides, com depleção progressiva dos linfócitos-T, atividade reduzida da timulina sérica e da ação citolítica das células T e NK (natural-killer), além de menor produção de interferon-g (IFN-g), de fator de necrose tumoral a (TNF-a) e de interleucina-2 (IL-2)(8,16).

Outro efeito indiscutível da deficiência de zinco é seu prejuízo para o crescimento durante a infância e adolescência. Esta informação é comprovada por vários estudos do tipo caso-controle, os quais mostram recuperação de peso e altura por meio da suplementação com zinco, tema que será visto posteriormente.

A deficiência de zinco pode manifestar-se em graus progressivos, com sintomatologia leve, moderada ou intensa. Na deficiência leve há anorexia, alterações neurossensoriais, retardo da velocidade de crescimento e hipodesenvolvimento, com diminuição do peso corporal e da massa muscular e pode ocorrer diminuição dos níveis séricos de testosterona, com oligospermia(1,17).

A deficiência moderada de zinco é agravada pelo desenvolvimento de letargia mental, diminuição mais acentuada do apetite, pele áspera e espessa, com dificuldade de cicatrização decorrente da disfunção da imunidade mediada por células, além do retardo da velocidade de crescimento e da maturação sexual, eventualmente com hipogonadismo masculino na adolescência. Também pode ser observada adaptação anormal à visão no escuro e alteração de paladar(17).

A deficiência grave se manifesta como acrodermatite enteropática, na qual ocorre uma deficiência na absorção do zinco pelo intestino, de causa genética. Trata-se de uma rara doença autossômica recessiva, caracterizada pela presença de diarréia crônica e dermatite periorificial e nas extremidades, além de outros sintomas, como alopecia, alterações do humor, hipodesenvolvimento e fotofobia(17).

Apesar da forma grave da deficiência de zinco ser pouco freqüente, é provável que as formas mais leves sejam relativamente comuns na população em geral. A prevalência mundial da deficiência é desconhecida, principalmente pela inexistência de indicadores simples, que estabeleçam o estado nutricional deste nutriente no organismo, bem como pela falta de consenso para determinar quais seriam os indicadores mais adequados, entre os já existentes(5,18). Ainda assim, Prasad (1998) afirma que possivelmente a deficiência de zinco no Mundo seja tão prevalente quanto a deficiência de ferro(8). Levantamentos sobre a ingestão dietética de zinco, realizados em diversos países, mostram um risco elevado de deficiência deste nutriente, principalmente entre crianças(19).

A maioria dos estudos realizados nos Estados Unidos da América do Norte e Reino Unido revela uma ingestão média de zinco entre 8 e 14 mg/dia(18). No Brasil, poucos estudos foram feitos sobre o tema. Lethi (1989) realizou uma pesquisa com mulheres grávidas e lactantes de baixo nível socioeconômico da Amazônia(20). Verificou que a maioria apresentava ingestão deficiente de zinco, na faixa de 0 a 10 mg/dia, considerando-se a RDA (1980), cuja recomendação é de 20 mg de zinco para gestantes e de 25 mg para lactantes. Contudo, não foi observada correlação entre a ingestão de zinco e os níveis séricos desse micronutriente, o que aparentemente evidencia a existência do mecanismo de regulação descrito anteriormente(20).

Toxicidade

A ocorrência de intoxicação aguda por zinco é pouco freqüente, já que há uma considerável margem de segurança entre a dose terapêutica e a tóxica. Esta é caracterizada pela presença de náuseas, vômitos, dor epigástrica, diarréia e tonturas(1). A intoxicação crônica inclui os seguintes sintomas: vômitos, diarréia, mal-estar, cansaço, ulcerações gástricas, anemia por deficiência no metabolismo do cobre, aumento do LDL-colesterol, diminuição do HDL-colesterol, lesão renal, além de efeitos adversos sobre o sistema imunológico do organismo(1,21). Intoxicações graves poderiam resultar em insuficiência tanto renal como hepática e óbito. Deve-se considerar também que a suplementação com doses superiores a dez vezes a recomendada pode levar à deficiência de cobre, devido à interação entre estes micronutrientes(17).

Avaliação nutricional do zinco corporal

Como mencionado anteriormente, o diagnóstico da deficiência de zinco é dificultado pela falta de indicadores bioquímicos simples, específicos e sensíveis para avaliar o estado nutricional com relação a sua concentração no organismo(5,7,18,21). Exames clínicos de rotina não são confiáveis para a identificação da deficiência de zinco e por isso várias análises diferentes já foram propostas, mas muitas delas apresentaram problemas que dificultavam seu uso e interpretação(22,23). Atualmente, o método mais confiável para o diagnóstico da deficiência leve de zinco é uma resposta positiva à suplementação deste nutriente. Contudo, esse método exige grandes investimentos de tempo e recursos, tanto financeiros como humanos, considerando o acompanhamento constante e a dedicação necessária para sua realização. Esse fato restringe seu uso em estudos populacionais de larga escala; logo, opta-se pela utilização de uma combinação entre indicadores bioquímicos e de funções fisiológicas do organismo, para avaliar o estado nutricional do zinco(22).

A análise mais utilizada para a avaliação do estado do zinco no corpo é sua dosagem sérica ou plasmática. Nos indivíduos com deficiência grave de zinco, a concentração sérica deste mineral é geralmente baixa, porém é possível que na deficiência leve, os valores estejam dentro da normalidade(22). Isso porque tal valor apenas se encontra reduzido quando as concentrações séricas são tão baixas que não permitem o restabelecimento da homeostase deste mineral no organismo(21).

Diversos fatores podem afetar o resultado da dosagem sérica ou plasmática do zinco, tornando-o pouco confiável. Entre eles estão as variações durante o dia, já que a concentração deste mineral no plasma obedece a um modelo circadiano(12), a presença de inflamação ou infecção(20,23) e outras patologias. O estado catabólico encontrado nos casos de desnutrição energético-protéica também pode mascarar a presença de uma verdadeira deficiência de zinco, considerando que há uma liberação do mineral a partir dos tecidos para o plasma(23).

Muitos testes para avaliar o estado nutricional em relação ao zinco têm sido estudados atualmente, mas muitos deles apresentam grandes dificuldades para sua realização e/ou para o controle dos inúmeros fatores que podem afetar o resultado obtido, como é o caso da análise do zinco presente nos eritrócitos(21), nos leucócitos e neutrófilos(22,23), na urina(22) e no cabelo(21). Outras análises têm demonstrado resultados pouco conclusivos em relação à sua validade como indicadores do estado nutricional do zinco no organismo. É o caso da avaliação da atividade de algumas metaloenzimas das quais o zinco participa, da utilização de testes de tolerância oral de zinco e de acuidade do paladar(22).

Desta forma, recomenda-se cautela na interpretação das análises do zinco corporal, devendo sempre ser avaliadas as condições clínicas do indivíduo naquele momento(12). Além dos testes bioquímicos e informações clínicas, é necessário incluir dados antropométricos e uma avaliação do consumo alimentar para análise do estado nutricional do indivíduo em relação ao zinco.

Suplementação

Evidências mostram que a suplementação de zinco pode prevenir e reduzir a gravidade de doenças comuns, como diarréias, além de pneumonia e malária, entre outras infecções(7,24). Acredita-se que os benefícios da suplementação de zinco para a prevenção de diarréias tenham uma magnitude semelhante à alcançada com o tratamento da água e com a melhora das condições sanitárias(24).

Efeitos benéficos da suplementação de zinco na melhora da imunocompetência em crianças desnutridas já foram comprovados por diversos autores(10,23). Também foi demonstrado aumento na taxa de maturação sexual em crianças suplementadas com zinco(4). Contudo, os efeitos mais importantes relacionam a suplementação de zinco com incrementos de peso e estatura em crianças, principalmente naquelas que apresentam graus intensos de desnutrição energético-protéica.

Em uma metanálise realizada por Brown et al. (2002) foram avaliados 33 estudos a respeito do impacto da suplementação deste mineral em crianças(5). Verificou-se que a suplementação com zinco resulta em um aumento significativo na estatura, mas a magnitude desse efeito é dependente da média inicial de estatura/idade. Nos trabalhos que incluem crianças com quadros mais graves de desnutrição (média de estatura/idade com Z-score<-2,0), o aumento foi aproximadamente o dobro daquele observado entre os que não consideram tais casos independente da dosagem e da duração da suplementação. Os autores da metanálise também afirmam que as crianças suplementadas com zinco apresentam aumentos significativos de peso e das concentrações séricas deste mineral, apesar de não ter sido observada melhora nos índices de peso/estatura.
Castillo-Duran et al. (1987) sugerem que o ganho de peso observado após a suplementação de crianças marasmáticas em recuperação pode ser atribuído a um aumento na utilização de macronutrientes ou a uma conseqüência da queda da morbidade por infecções(10). Outro estudo, porém, atribui o crescimento de fato ao uso de suplemento de zinco, já que não foi observada queda na prevalência de infecções(23).

É importante ressaltar que o zinco não apresenta efeitos farmacológicos no crescimento e, portanto, os benefícios obtidos são resultado da correção de uma deficiência preexistente(7). A maioria dos estudos utiliza entre 5 e 20 mg Zn/dia para suplementação(13). É fundamental considerar as diversas formas de zinco que podem ser usadas na suplementação, tendo em vista que estas apresentam-se diferentemente em solubilidade, biodisponibilidade, sabor, efeitos colaterais, custo e freqüência de dosagens(13).

Importância do zinco na infância e adolescência

A deficiência leve de zinco é um problema nutricional comum, especialmente entre crianças de países em desenvolvimento, nos quais a dieta apresenta menor disponibilidade de zinco, por ser rica em cereais e pelo uso freqüente de fórmulas infantis no lugar do leite materno(7). Esta deficiência pode ter graves conseqüências para a saúde nessa fase da vida, como retardo no crescimento, aumento na incidência de doenças infecciosas e prejuízo na função cognitiva.

As implicações da carência de zinco na adolescência ainda não foram bem estabelecidas, mas acredita-se que a deficiência deste nutriente nessa fase da vida possa afetar o crescimento, maturação e mineralização ósseas, além de poder provocar atraso ou alterações na maturação sexual(25).

Níveis adequados de zinco são indispensáveis para o crescimento e desenvolvimento sexual normais, maturação esquelética e mineralização, gestação e parto, além do desenvolvimento da função cognitiva e imune. No caso das mulheres em período fértil, o zinco é essencial para completar os estoques deste mineral que foram depletados durante o pico de crescimento da adolescência, assim como na gestação(14).

As alterações no padrão de consumo alimentar observadas nas últimas décadas, especialmente entre adolescentes, sugerem que a ingestão dietética de zinco seja deficiente nessa faixa etária. Um estudo norte-americano recente, realizado com 933 adolescentes, identificou ingestão de zinco abaixo da RDA em 81% das meninas e em 75% dos meninos, sendo que 56% das meninas e 46% dos meninos apresentaram ingestão inferior a 77% do valor sugerido pela RDA(26).

Efeitos da deficiência de zinco no crescimento
Os efeitos mais relevantes do zinco no organismo estão relacionados com uma taxa de crescimento saudável. A importância de se garantir o crescimento adequado deve-se ao fato de que existe associação entre uma taxa de crescimento reduzida com o aumento da mortalidade, baixo rendimento escolar, além de efeitos negativos a longo prazo na capacidade de esforço físico e na função reprodutiva(7). O retardo no crescimento pode ocorrer em associação com deficiências leves de vários micronutrientes, o que minimiza os benefícios obtidos através da suplementação com um único nutriente. Obviamente, nesses casos, recomenda-se a suplementação com diversos nutrientes; porém, sabe-se que o zinco e o ferro, em especial, são indispensáveis para alcançar as altas taxas de crescimento que ocorrem na infância e adolescência, apesar de ainda não terem sido totalmente esclarecidos os papéis desses micronutrientes nessa função(7).

Um estudo realizado por Golub et al. (1996) sugere que o zinco dietético pode ser um fator limitante do crescimento durante a adolescência(25). Além disso, os autores indicam que o retardo no crescimento ocorre mesmo sem diminuição do consumo alimentar e que a velocidade de crescimento começa a diminuir antes de ser observada redução da concentração de zinco plasmático.

Foram realizados poucos estudos sobre os efeitos da suplementação de zinco em adolescentes pré-púberes. Os estudos feitos com esse grupo sugerem que baixos níveis de zinco podem limitar o crescimento esquelético em alguns casos, ainda que os mecanismos envolvidos no metabolismo ósseo, em decorrência da deficiência de zinco no organismo, não estejam totalmente esclarecidos(27).

Sabe-se que o zinco interage com importantes hormônios relacionados ao crescimento ósseo, sendo muito importante durante períodos de rápido crescimento e desenvolvimento. O zinco atua no crescimento em várias frentes: na regulação do olfato, sabor e apetite, influenciando no consumo alimentar; na síntese de DNA e RNA, interferindo na replicação, diferenciação, transcrição e síntese de diversas células e componentes do metabolismo ósseo; na mediação hormonal, regulando a síntese, secreção e atuação do hormônio de crescimento (GH) e de outros hormônios, como a somatomedina, testosterona, hormônios tireoidianos, insulina e vitamina D(7).

É possível que, além de promover a formação óssea, o zinco também desempenhe papel importante na inibição da perda óssea, diminuindo sua reabsorção. Considerando o fato de que a osteoporose é um grave problema de saúde pública da atualidade, é essencial garantir que o pico de massa óssea seja atingido adequadamente durante a adolescência através de hábitos alimentares saudáveis e da prática de atividade física regular. Deve-se garantir o consumo adequado de alimentos ricos em zinco, além da ingestão de outros nutrientes envolvidos na prevenção da osteoporose, como cálcio, vitamina D, proteínas, magnésio e flúor(27).

Efeitos da deficiência de zinco no consumo alimentar
A redução do consumo alimentar é uma das primeiras manifestações da deficiência de zinco, associada a um apetite reduzido e uma dificuldade de aproveitamento dos alimentos de forma rápida(6). O zinco pode alterar o controle do apetite atuando diretamente no sistema nervoso central, modificando o grau da resposta de receptores a neurotransmissores(7). A deficiência de zinco também é acompanhada de alterações no olfato e sabor, além de anorexia e perda de peso.

Uma hipótese para o desenvolvimento de anorexia seria uma alteração do metabolismo de aminoácidos, o que levaria a uma disfunção cerebral. A partir de uma alteração dos níveis de tirosina e de triptofano no plasma, com a deficiência de zinco, tais aminoácidos, ao entrar na síntese de serotonina e de catecolaminas, levariam a uma alteração dos padrões de apetite e ingestão de proteínas e carboidratos(9). A alteração do paladar pode ser decorrente também de uma mudança de função, estabilidade e fluidez das membranas plasmáticas dos neurônios.

Efeitos da deficiência de zinco na obesidade
Estudos realizados com indivíduos obesos têm mostrado alta prevalência de deficiência de zinco, entre outros minerais. Sugere-se que esse fato esteja relacionado a alterações metabólicas dos hormônios tireoidianos: a falta de zinco compromete a conversão de tiroxina (T4) em triiodotironina (T3), contribuindo para uma redução da taxa metabólica basal(28). Além disso, a deficiência de zinco também afeta negativamente a secreção pancreática, a ação periférica da insulina e a ação do hormônio de crescimento (GH), o que prejudica o metabolismo energético nos indivíduos obesos.

Conclusão

Considerando o importante papel do zinco no crescimento adequado e tendo em vista que a prevalência de deficiências deste mineral nos países em desenvolvimento tende a ser significativa, é indispensável que sejam implementadas ações visando a prevenção e o combate à deficiência desse nutriente. É necessária a adoção de programas envolvendo três frentes: a suplementação, a fortificação de alimentos e a educação alimentar da população.

Indica-se o uso de suplementos de zinco nas populações nos quais o nível desse mineral tem de ser recuperado em curto período e quando as necessidades não podem ser supridas através da alimentação(7). Sugere-se que este elemento seja adicionado aos suplementos de ferro já existentes no mercado, os quais são habitualmente indicados para crianças; essa medida teria um custo mínimo para os laboratórios, considerando os grandes investimentos necessários para a fabricação e distribuição de suplementos exclusivamente de zinco(13).

A fortificação de alimentos é recomendada no caso da deficiência ser endêmica ou quando se destina a populações de alto risco. Nos Estados Unidos, por exemplo, alimentos básicos, como farinhas, cereais, macarrão e alimentos destinados ao consumo infantil são enriquecidos com zinco. Na América Latina, a utilização de alimentos fortificados é promissora, considerando as diversas experiências com alimentos industrializados, que estão sendo avaliados no que se refere à relação custo-benefício(29).

Finalmente, atividades compreendendo a educação nutricional, abordando temas como a seleção, preparo e utilização adequada dos alimentos, devem ser implementadas, levando sempre em consideração o nível socioeconômico e a disponibilidade de compra de alimentos com boa disponibilidade de zinco.



Bibliografia
1. Dutra-de-Oliveira JE, Marchini JS. Ciências Nutricionais. São Paulo: Sarvier; 1998.
2. Mahan K, Escott-Stump S. Krause - alimentos, nutrição & dietoterapia. 10a ed. São Paulo: Roca; 2002.
3. Hambidge KM. Zinc and diarrhea. Acta Pædiatr Suppl 1992; 381:82-6.
4. Prasad AS. A century of research on the metabolic role of zinc. Am J Clin Nutr 1969; 22(9): 1215-1221.
5. Brown KH, Peerson JM, Rivera J, Allen LH. Effect of supplemental zinc on the growth and serum zinc concentrations of prepubertal children: a meta-analysis of randomized controlled trials. Am J Clin Nutr 2002; 75:1062-71.
6. Miller WJ. Zinc in animal and human health. In: Rose J, editor. Trace elements in health - a review of current issues. London: Butterworths; 1983. p. 182-189.
7. Salgueiro MJ, Zubillaga MB, Lysionek AE, Caro RA, Weill R, Boccio JR. The role of zinc in the growth and development of children. Nutrition 2002; 18:510-519.
8. Prasad AS. Zinc and immunity. Mol Cell Biochem 1998; 188:63-69.
9. Fisberg M, Fernandes RL, Mittermeyer O, Rhein SO. Deficiência de zinco em Pediatria. Rev Nutrição em Pauta 2001; 48:50-56.
10. Castillo-Duran C, Heresi G, Fisberg M, Uauy R. Controlled trial of zinc supplementation during recovery from malnutrition: effects on growth and immune function. Am J Clin Nutr 1987; 45:602-608.
11. Mason PM, Judd PA, Fairweather-Tait SJ, Eagles J, Minski MJ. The effect of moderately increased intakes of complex carbohydrates (cereal, vegetables and fruit) for 12 weeks on iron and zinc metabolism. Br J Nutr 1990; 63: 597-611.
12. Fisberg M, Braga JAP. Oligoelementos. In: Nóbrega FJ. Distúrbios da Nutrição. Rio de Janeiro: Revinter; 1998. p. 353-7.
13. Allen LH. Zinc and micronutrient supplements for children. Am J Clin Nutr 1998; 68 (Suppl):495S-498S.
14. Gibson RS, Heath AM, Limbaga MLS, Prosser N, Skeaff CM. Are changes in food consumption patterns associated with lower biochemical zinc status among women from Dunedin, New Zealand? Br J Nutr 2001; 86:71-80.
15. National Academy Press. Dietary Reference Intakes for Vitamin A, Vitamin K, Arsenic, Boron, Chromium, Copper, Iodine, Iron, Manganese, Molybdenum, Nickel, Silicon, Vanadium, and Zinc: a report of the Panel on Micronutrients. Food and Nutrition Board, Institute of Medicine, 2002.
16. Salgueiro MJ, Zubillaga M, Lysionek A, Cremaschi G, Goldman CG, Caro R et al. Zinc Status and Immune System Relationship: A Review. Biological Trace Element Research 2000; 76:193-204.
17. Cardoso ACA, Pommer VM. Patologia dos oligoelementos. In: Marcondes E, editor. Pediatria Básica. 8a. ed. v.1. São Paulo: Sarvier; 1991. p. 670-671.
18. Caulfield LE, Zavaleta N, Shankar AH, Merialdi M. Potential contribution of maternal zinc supplementation during pregnancy to maternal and child survival. Am J Clin Nutr 1998; 6S (Suppl):499S-508S.
19. Gibson RS, Ferguson EL. Assessment of dietary zinc in a population. Am J Clin Nutr 1998; 68 (Suppl):430S-434S.
20. Lehti KK. Iron, folic acid and zinc intakes and status of low socio-economic pregnant and lactating Amazonian women. Eur J Clin Nutr 1989; 43:505-513.
21. King JC, Keen CL. Zinco. In: Shils ME, Olson JA, Shike M, Ross AC. Tratado de Nutrição Moderna na Saúde e na Doença. 1ª ed. São Paulo: Manole; 2003. v.1. p. 239-256.
22. Gibson RS. Principles of Nutritional Assessment. New York: Oxford University Press; 1990.
23. Schlesinger L, Arevalo M, Arredondo S, Diaz M, Lönnerdal B, Stekel A. Effect of a zinc-fortified formula on immunocompetence and growth of malnourished infants. Am J Clin Nutr 1992; 56:491-498.
24. Hambidge M. Human Zinc Deficiency. In: Zinc and Health: Current Status and Future Directions. J Nutr 2000; 130 (Suppl):1344S-1349S.
25. Golub MS, Keen CL, Gershwin ME, Styne DM, Takeuchi PT, Ontell F et al. Adolescent growth and maturation in zinc-deprived Rhesus monkeys. Am J Clin Nutr 1996; 64:274-82.
26. Johnson RK, Johnson DG, Wang MQ, Smiciklas-Wright H, Guthrie HA. Characterizing nutrient intakes of adolescents by sociodemographic factors. J Adolesc Health 1994; 15:149-154.
27. King JC. Does poor zinc nutriture retard skeletal growth and mineralization in adolescents? [Editorial]. Am J Clin Nutr 1996; 64:375-6.
28. Marreiro DN, Fisberg M, Cozzolino SMF. Considerações sobre o estado nutricional relativo ao zinco na obesidade. Cadernos de Nutrição: Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição 1998; 16:31-40.
29. Martorell R. Benefits of zinc supplementation for child growth. [Editorial]. Am J Clin Nutr 2002; 75:957-8.