Home Busca Avançada Normas de Publicação Assinaturas Fale Conosco
Contact Us
 
 

 

CopyRight
Moreira Jr Editora
Proibida a reprodução sem autorização expressa


 
sêlo de qualidade
Like page on Facebook

Moreira JR Editora

Calvície masculina
Male baldness


Denise Steiner
Médica formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Doutora em Dermatologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Professora adjunta de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Jundiaí - SP.
Recebido para publicação em 07/2004. Aprovado em 08/2004.

Unitermos: doenças do cabelo, calvície.
Unterms: hair disorders, baldness.


Sumary
The male pattern baldness is an genetic problems with hormonal influence. Today is possible the treatment with drugs wich can neutralize the hormonal action with a good improvement in the clinical aparence.

Numeração de páginas na revista impressa: 597 à 599

Resumo


A calvície masculina se relaciona a tendência genética associada à ação hormonal. Hoje, medicamentos neutralizam o efeito hormonal, revertem a miniaturização e melhoram a aparência clínica.

Introdução

A calvície masculina também é chamada de alopecia androgenética porque é influenciada pela genética e também pelos hormônios androgênicos (masculinos). Ainda não se conhece quantos genes e quais deles estão envolvidos no processo, porém é sabido que quanto maior a tendência familiar, maior a chance da calvície ser intensa e precoce. Tanto os genes do lado paterno quanto do lado materno têm importância no desenvolvimento dessa alteração.

Filhos de pais extremamente calvos parecem também desenvolver calvície extensa, enquanto as mulheres têm mais influência da genética feminina familiar.

A calvície é um processo específico em que os cabelos predispostos geneticamente entram num processo de miniaturização (afinamento), transformando-se em fios tipo vellus que perdem a viabilidade de crescimento. Ela atinge quase 80% dos homens na idade adulta, comprometendo principalmente a parte superior da cabeça.

O processo de calvície se inicia logo após a puberdade, quando os hormônios masculinos começam a ser produzidos. Nesse caso, os homens suscetíveis vão afinar os cabelos, com velocidade maior ou menor, dependendo da predisposição genética. O afinamento progride até que o fio se transforme numa penugem, quando então o processo se torna irreversível.

Os cabelos têm um ciclo continuado durante toda a vida, passando por fases de crescimento e repouso através de um mecanismo de morte e vida programada (apoptose). Este ciclo não é sincronizado como em alguns animais, sendo que cada fio de cabelo está numa fase específica, distribuindo-se cerca de 85% na fase de crescimento (anágena) e 15% na fase de repouso (telógena).

A mensagem necessária e suficiente para que o fio passe da fase anágena para a telógena não está totalmente esclarecida. Fatores nutricionais e hormonais cumprem papel relevante. No caso da alopecia androgenética, como o próprio nome diz, os gens são importantes, mas não se conhece ainda o detalhamento da composição e expressão dos mesmos, assim como o peso dos vários fatores envolvidos na etiopatogênese da mesma.

A calvície masculina não é acompanhada de alterações hormonais, porém os andrógenos são necessários para o processo de miniaturização. São conhecidos os estudos que demonstram a importância dos hormônios no desenvolvimento da calvície. Homens castrados antes da puberdade não ficam calvos, mas quando tratados com andrógenos podem desenvolver algum grau de calvície. No entanto apesar destas evidências, os estudos sempre demonstraram que os níveis de testosterona de calvos e não calvos são os mesmos.

Os andrógenos são os principais hormônios na regulação do crescimento do cabelo. Estes hormônios são responsáveis pela mudança da característica os pêlos na época da puberdade. A influência hormonal depende do local do corpo e mesmo no couro cabeludo, os cabelos da região fronto-parietal respondem diferentemente daqueles da região occipital. Os andrógenos também estão envolvidos com doenças como hirsutismo e alopecia androgenética.

Eles são produzidos pelas gônadas e também pela glândula supra-renal sendo que tanto a primeira quanto a segunda são reguladas pelo eixo hipotálamo-hipofisário.

Na seqüência os hormônios masculinos são transportados na circulação pela proteína carreadora de hormônios sexuais, sendo que cerca de 98% estão ligados a ela e somente 2% estão na forma livre. O mecanismo de ação dos andrógenos é intracelular e a testosterona livre tem um papel preponderante nesta regulação.

Dentro da célula a testosterona segue vários caminhos metabólicos, sendo o principal a transformação em diidrotestosterona (DHT) pela ação da enzima 5-alfa-redutase. Após esta transformação a DHT se liga a receptor específico dos andrógenos e, então, age no núcleo celular através do RNA, modificando sua resposta.

Todos os andrógenos podem ligar-se ao receptor intracelular, porém a ligação DHT-receptor é mais eficiente, sendo cerca de 20 vezes mais potente do que a ligação testosterona-receptor. A resposta nuclear a este complexo hormônio-receptor é variável de local para local e de situação para situação. Na região da barba, por exemplo, a ação androgênica favorece o engrossamento do fio, enquanto que nos indivíduos predispostos à calvície o andrógeno favorece a miniaturização dos pêlos na região superior do couro cabeludo.

Os homens não parecem ser tão sensíveis a pequenos aumentos de andrógenos, porém a ausência dos mesmos leva a completa feminilização.

Nas mulheres, outra particularidade é que os andrógenos são metabolizados em estrógenos pela enzima denominada aromatase, sendo este um caminho metabólico importante na fisiopatologia da calvície e hirsutismo.

Outros hormônios como os estrógenos, hormônios tiroidianos e hormônio do crescimento também estão envolvidos com o crescimento e espessura do cabelo, porém a ação fisiológica dos mesmos ainda não está totalmente esclarecida.
Fatores locais também são críticos neste controle, tais como: fatores de crescimento (fator de crescimento epidérmico, fator de crescimento insulina simile, fator de crescimento do fibroblasto), papila dérmica e células do bulge (stem cells).

A influência de todas estas estruturas e fatores ainda não está totalmente determinada, havendo muita controvérsia e estudos em andamento.

No entanto, a partir dos anos 70, conhecendo-se um pouco mais sobre homens com deficiência da 5-alfa-redutase, começou-se a desvendar o mistério da ação hormonal. Hoje se sabe, por exemplo, que a testotesterona quando penetra na célula específica tem um caminho metabólico importante, sendo transformada em deidrotestosterona que, por sua vez, faz uma ligação forte com o receptor específico. Este hormônio mais receptor entra no núcleo celular do cabelo e promove a miniaturização do fio.

Este mecanismo explica em grande parte a etiopatogênese da calvície masculina. Uma das maneiras de tratar a alopecia androgenética masculina é utilizando-se a finasterida, que é um inibidor específico da 5-alfa-redutase-2, provocando a diminuição do DHT e, conseqüentemente, ausência do receptor mais hormônio que provoca a miniaturização.

A finasterida nos estudos de fase III demonstrou ser segura e eficaz para o tratamento da calvície. Ela não interfere na função hepática e não provoca alterações nos lipídios. Sua ação não reduz o nível de testosterona circulante, mas sim o DHT intracelular.
Nestes mesmos estudos de fase III, 1,8% dos homens se queixou de baixa da libido, contra 1,3% dos que utilizou placebo. Este efeito parece diminuir com a continuidade do tratamento e logicamente desaparece após sua interrupção.

Considero fundamental a consulta médica com o especialista, para iniciar o tratamento com esta medicação. O paciente traz geralmente muitas dúvidas, fantasias e ansiedades antes de iniciar o mesmo e o entendimento do mecanismo de ação da droga, seus efeitos colaterais e resultado esperado é crítico.

É importante para o resultado final, explicar como a finasterida age, anulando o efeito da 5-alfa-redutase e desta forma impedindo a ligação do DHT com o receptor e, portanto, evitando a miniaturização do fio.

Sendo assim, a finasterida irá impedir a continuidade do processo de calvície, além de reverter o afinamento de alguns fios. O cabelo não irá nascer do nada, porém poderá engrossar e aumentar a densidade.

Tirar fotografias antes do tratamento ajuda tanto o médico como o paciente no acompanhamento do caso. O primeiro se olha todos os dias e perde a referência da melhora, enquanto o médico não o vê por quatro a cinco meses e pode também esquecer o quadro inicial. Muitos pacientes, ao verem sua fotografia antes do início do tratamento estranham o quanto "eram" calvos. Explicações sobre lavagem diária ou não, uso de produtos como géis e mousses, além do corte de cabelo, entre outros, são importantes para desmistificar certas idéias e reduzir a ansiedade do paciente. Poucos fatores externos influenciam o processo da calvície.

Dados sobre os efeitos colaterais, especialmente porque estes são ligados à sexualidade, reduz a chance da suspensão do tratamento caso esse venha a ocorrer.

A finasterida é uma droga segura. Não há hepatotoxicidade ou outro efeito sistêmico. Não há necessidade de exames de controle. A droga também não está associada ao câncer de próstata, mas ao contrário, até pode ajudar a mesma. No caso de hiperplasia prostática benigna, não são necessários exames laboratoriais para acompanhar o paciente em uso de finasterida. Na situação de homens por volta de 50 anos que iniciam o tratamento é interessante ter um exame de PSA como referência, antes de começar o tratamento.

Em geral, o paciente em uso de finasterida começa a melhorar após quatro meses de tratamento. A queda de cabelo é a primeira a ceder e, em seguida, ocorre aumento da densidade capilar.

Por volta de um ano de tratamento, o paciente atinge o máximo de densidade e em seguida ocorre a manutenção.
Cerca de 1% dos pacientes, especialmente aqueles acima de 40 anos, queixa-se de diminuição da libido. O efeito no grupo de pacientes com placebo no estudo de fase três também ocorreu, não havendo significado estatístico nessa comparação.

Os efeitos colaterais diminuem com a continuidade do tratamento. Não está claro se ocorre um efeito "emocional" ou se há maior sensibilidade em certos indivíduos. A grande maioria dos pacientes, na minha experiência, não tem efeitos colaterais e se sente gratificado com o resultado do tratamento.

Considero a finasterida um dos avanços substanciais na área da calvície, pois as doenças genéticas são de difícil tratamento e controle.

Há também medicações de uso tópico para tratamento da calvície, como minoxidil e 5-alfa-estradiol.

O primeiro tem uma ação de estimular o crescimento do cabelo. O segundo age na enzima chamada 5-alfa-redutase e aromatase, levando a diminuição do DHT que é o hormônio responsável pelo afinamento do cabelo.

O 5-alfa-estradiol, que é uma nova possibilidade, chega ao mercado e está sendo objeto de uma pesquisa multicêntrica tanto em homens como mulheres.

Trata-se de uma substância denominada 17-alfa-estradiol, que age na enzima específica (5-alfa-redutase) também diminuindo a ação local do DHT. Parece ter uma ação positiva da aromatase, a diferença é que sua ação é localizada não havendo efeitos hormonais sistêmicos, podendo ser usado também nas mulheres.

O 17-alfa-estradiol não provoca efeitos colaterais, sendo recomendado uma vez por dia por longos períodos. Os resultados começam ser vistos com oito semanas de uso.

O minoxidil a 5% para a calvície masculina deve ser usado duas vezes ao dia e promoverá melhora somente após o quarto mês de tratamento. A droga provoca poucos efeitos colaterais, havendo referência de dermatite de contato em alguns casos. O minoxidil na dose correta não é cardiotóxica e pode ser usado por longos períodos. Sua associação com finasterida sistêmica é interessante.

O estudo em questão está sendo feito em homens e mulheres com biópsias prévias para confirmar o diagnóstico e biópsias pós para observar a ação do remédio no espessamento do fio.

Novas opções terapêuticas são interessantes, principalmente no caso de uma alteração tão freqüente e que provoca grande impacto psicossocial.
Finalizando, o mais importante é a relação de confiança entre médico e paciente, pois somente desta forma as drogas terão sucesso esperado.



Bibliografia
1. Fitzpatrick, T.B. Dermatology in General Medicine, vol I, pag 293. Mc-Graw Hill, Inc. Fourth Edition, 1993.
2. Sampaio, S.A.P.; Rivitti, E. Dermatologia, pag. 15 a 17. Editora Artes Médicas,1998.
3. Dawber, R. Diseases of the hair and scalp, pag.23 a 33. Blackwell Science.Third Edition, 1997.
4. Olsen, E. A. Disorders of Hair Growth. Diagnosis and Treatment, pag.1 a 36. Mc-Graw Hill, 1994.
5. Robbins, C. R. Chemical and Physical Behavior of Human Hair. Chap. Spinger-Verlag.- Third Edition, 1994.
6. Whiting, D.A.: Update Hair Disorders. In Dermatologic Clinics. W.B. Saunders, 1994.