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Alterações de pele na terceira idade
Skin disorders in the elderly


Célia Sampaio Costa Accursio
Cirurgiã plástica, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, diretora científica da Sociedade Brasileira de Medicina Estética, membro fundadora e atual 2ª tesoureira da Sociedade Brasileira de Laser em Medicina e Cirurgia e professora do Curso de Pós-graduação da Fundação Técnico Educacional Souza Marques - Rio de Janeiro.
Endereço para correspondência:
Rua Tomás Carvalhal, 619 - Paraíso
CEP 04006-001 - São Paulo - SP.

Unitermos: dermatoses pele senil, envelhecimento cutâneo, fotoenvelhecimento.
Unterms: geriatric dermatology, aging skin, photoaging skin.


Sumário
O processo de envelhecimento, diferentemente de outras doenças, afeta todos os indivíduos e, por ser um processo contínuo, apresenta um espectro grande e variável de manifestações.

Rugas e flacidez da pele estão entre os sinais mais comuns do envelhecimento, mas muitas características podem ser vistas na pele e também correlacionadas às alterações histológicas que ocorrem com esse processo.

As alterações mais comuns da pele do idoso são discutidas aqui, bem como seu tratamento, de uma maneira muito simples e rápida.

Sumary
The aging process, unlike the specific diseases, inevitably affects all persons, and as it is a continuons process, it has a variable spectrum of manifestations.

Wrikled and sagging skin are among the hallmarks of aging, but a lot of features can be seen in the skin, and also be correlated with the histologic changes.

The most common disorders in elderly skin are discussed here as well as their treatment, in a very simple and rapid way.

Numeração de páginas na revista impressa 646 à 658

As alterações visíveis na pele dos indivíduos na terceira idade são alterações provenientes do próprio processo de envelhecimento cutâneo, bem como conseqüência da constituição genética, fatores ambientais, repercussão cutânea do envelhecimento de outros órgãos ou, ainda, efeitos de doenças da própria pele ou sistêmicas. Distinguem-se, no entanto, dois fenômenos: o envelhecimento cutâneo propriamente dito e o envelhecimento de pele devido à radiação ultravioleta, conhecido como fotoenvelhecimento.

De uma maneira geral, as alterações principais incluem: secura, aspereza, rugas, flacidez, uma variedade de lesões benignas e, por fim, as neoplasias malignas.

Para entendermos as alterações visíveis a olho nu, reportamo-nos um pouco aos achados histológicos e às funções da pele que se encontram diminuídas nesta faixa etária.

Os achados dos Quadros 1 e 2 traduzem uma menor adesão entre as camadas derme e epiderme, o que explica a pobre resistência da pele do idoso a pequenos traumas, até mesmo como a retirada de curativos, e pequenas abrasões, o que leva à formação de bolhas. Essa alteração também confere uma menor transferência de nutrientes de uma camada a outra da pele e uma modificação na absorção de substâncias pela pele do idoso, assim sendo, sabe-se que ocorre uma diminuição de absorção de substâncias hidrofílicas pela pele do idoso, como hidrocortisona e ácido benzóico, mas nenhuma alteração no que diz respeito à absorção de substâncias hidrofóbicas como a testosterona e o estradiol.

A diminuição na taxa de renovação celular (30% a 50% entre a terceira e oitava década de vida) e reparação de pele elevam o tempo de cicatrização das feridas que pode chegar a duas ou três vezes mais do que o de uma pessoa jovem.

Devemos lembrar que a barreira de proteção contra a radiação ultravioleta (UV) está extremamente prejudicada, uma vez que há uma diminuição no número de melanócitos enzimaticamente ativos.

Há diminuição de colágeno, elastina, substância fundamental da derme, proteínas e açúcares, em especial do ácido hialurônico, que influenciam no turgor da pele; estes também apresentam alterações bioquímicas, fazendo com que haja uma perda de elasticidade e compressibilidade da pele.

Assim sendo, a derme envelhecida se torna um tecido rígido, inelástico e irresponsível à tensão, com menor capacidade de resposta a estresse ou trauma.

Com relação aos pêlos, de início ocorre a canície (pela perda de melanócitos no bulbo piloso) e posteriormente a diminuição do número dos folículos pilosos, sendo os pêlos remanescentes menores no diâmetro e mais lentos no crescimento. A calvície resultante é primariamente de caráter androgenético.

As glândulas sudoríparas écrinas diminuem em média 15% e o suor espontâneo, em resposta ao calor seco, acaba por diminuir em média 70% no idoso, ocorrendo também uma discreta diminuição das glândulas sudoríparas apócrinas.

As glândulas sebáceas apresentam uma diminuição na sua produção de secreção em até 60%, ao longo da vida.

Há uma diminuição no número e no volume dos corpúsculos de Meissner e Pacini ao longo da vida, bem como alterações estruturais histoquímicas; porém há pequenas alterações nos corpúsculos de Merkel e nas terminações nervosas livres.

Há uma diminuição de percepção sensorial, porém o limiar de dor cutânea aumenta, segundo várias pesquisas em 20%, com o avançar da idade.

QUADRO 1
Achados histológicos


Epiderme
· Achatamento da junção dermoepidérmica
· Espessura variável
· Células de tamanho e forma variáveis
· Atipia nuclear ocasional
· Melanócitos diminuídos
· Células de Langerhans diminuídas
Derme
· Atrofia com perda de volume
· Diminuição dos fibroblastos
· Diminuição dos mastócitos
· Diminuição dos vasos sangüíneos
· Alças capilares encurtadas
· Terminações nervosas anormais
Apêndices
· Cabelos despigmentados
· Perda de pêlos
· Conversão de pelos terminais em "vellus"
· Lâmina ungueal anormal
· Diminuição de glândulas
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QUADRO 2
Funções da pele que diminuem
com a idade


· Renovação celular
· Reposta a trauma
· Função barreira
· "Clearance" químico
· Percepção sensorial
· Proteção mecânica
· Responsividade imune
· Responsividade vascular
· Termorregulação
· Produção de suor
· Produção de sebo
· Produção de vitamina D
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As dermatoses mais comumente encontradas em pele envelhecida são:

Acrocordon
Trata-se de um papiloma fibroepitelial (envolve derme, queratinócitos e melanócitos) que não tem significação clínica a não ser estética, ou quando sua localização o predispõe a traumas constantes. Histopatologicamente se trata de um feixe fibroso vascular recoberto por uma epiderme normal.

Tratamento: exérese cirúrgica (vários métodos: shaving, eletrocirurgia com bisturi comum ou de alta freqüência, bisturi de lâmina e sutura).


Figura 1 - Acrocordon.


Figura 2 - Acrocordon.


Figura 3 - Angioma rubi ou nevus rubi.


Figura 4 - Queratose seborréica.


Figura 5 - Dermatose papulosa nigra.


Figura 6 - Dermatose papulosa nigra.


Figura 7 - Melanose solar.

Angioma rubi
Também chamado de "nevus rubi". Pequenas pápulas esféricas de 1 a 5 mm de diâmetro de cor vermelho-brilhante a escura (vinhosa), que se assemelham a pequenos rubis. É uma lesão composta por capilares neoformados e dilatados, que tendem a aumentar em tamanho e em número com o tempo. Não possui qualquer significação sistêmica, sendo o único fato desagradável o sangramento acidental.

Tratamento: coagulação com bisturi elétrico, bisturi de alta freqüência, bisturi bipolar ou, mais modernamente, com laser vascular (este último não deixa qualquer cicatriz).

Queratose seborréica

De etiologia desconhecida, são lesões verrugosas, de coloração variável, desde rósea até marrom-escuro, que podem aparecer em qualquer parte do corpo, exceto nas mucosas. São lesões benignas e não sofrem transformações, sendo a sua retirada de cunho totalmente estético.

Tratamento: curetagem, eletrocirurgia, nitrogênio líquido e, mais modernamente, vaporização com laser de CO2 ou ablação com Coblationâ.

Dermatose papulosa nigra

É a forma clínica de queratose seborréica comum em negros. O tratamento é o mesmo.

Melanose solar
Também chamada impropriamente de "Lentigo Senil" ou "Mancha Senil", é causada pela ação de UV em que ocorre um aumento do número e de atividade dos melanócitos, portanto, trata-se de uma fotodermatose por irritação primária progressiva. Visualmente são manchas de cor castanho-clara a escura e que surgem nas áreas do corpo expostas ao sol.

Tratamento: cremes com despigmentantes, nitrogênio líquido, ácidos, laser. O importante é frisar ao paciente que qualquer que seja o tratamento este nunca terá resultado definitivo, pois outras lesões surgirão com o passar do tempo.

Hiperplasia sebácea (senil)

Consiste em pápulas de 2 a 4 mm de tamanho, de cor amarelada, umbilicadas, aparecendo na face, principalmente na fronte e região maxilar. Ocorre em adultos, a partir da terceira e quarta décadas, origina-se da hiperplasia de glândulas sebáceas da face.

Tratamento: exérese cirúrgica, eletrocirurgia, laser, Coblationâ.

Rinofima

Consiste na hiperplasia de glândulas sebáceas do nariz, onde ocorre um intumescimento desfigurante do mesmo. É comum a presença de telangiectasias e, ainda, a associação à blefarite e à conjuntivite, que em casos mais sérios pode chegar a ceratite com ulcerações e irites.

Tratamento clínico: tetraciclina 500 mg 12/12 horas. Por no mínimo dois meses ou, ainda, metronidazol (500 mg/dia) por 30 a 40 dias e programação de cirurgia pelos métodos disponíveis: dermoabrasão, laser e Coblation®.


Figura 8 - Hiperplasia sebácea.


Figura 9 - Rinofima.


Figura 10 - Púrpura hipostática.


Figura 11 - Rosácea.

Rosácea
Trata-se de uma afecção crônica, acnéica de porção central da face, mais freqüente em mulheres, ocorrendo após os 30 anos e de causa desconhecida, em que a excessiva labilidade vasomotora da face pode ser o fator predisponente. De início, ocorrem surtos de eritema na porção média da face, que se vão tornando mais freqüentes e persistentes e, com o passar do tempo, o eritema se estende atingindo outras áreas, como a fronte e o mento ao mesmo tempo que surgem pápulas, pústulas e telangiectasias. Comum estar associado à dermatite seborréica da face e couro cabeludo e, ainda, hiperplasia progressiva das glândulas sebáceas do nariz.

Tratamento: somente clínico. Sistêmico: uso de tetraciclina por tempo indeterminado (mínimo de dois meses) ou ainda metronidazol (30 a 40 dias) na fase mais aguda.

Local: loções com antibióticos (eritromicina ou clindamicina) e substâncias antiinflamatórias, como alfa-bisabolol, ácido glicirrízico ou mesmo, se necessário, corticóides como a hidrocortisona ou desonida. O uso do laser vascular diminui a telangilctasia e tem se mostrado benéfico, diminuindo os surtos de eritema.

Pele seca (xerodermia) associada ao prurido asteatósico

Consiste no prurido ocasionado pela diminuição do manto lipídico cutâneo, podendo-se apresentar de intensidade variável, continuamente ou por surtos. O paciente apresenta uma descamação e sequidão difusa de pele, por vezes áreas eritematosas, preferencialmente as faces de extensão do corpo. Nas formas crônicas observamos, ao exame clínico, marcas de escoriações, lesões liquenificadas, linfadenopatia (mesmo na ausência de infecção) e melanodermia (escurecimento da área), provavelmente pós-inflamatória. Quando ocorre no inverno, é chamado de prurido hiemal em pacientes com xerodermia ou mesmo pele normal, mas que nessa época do ano fazem uso excessivo de sabonetes e água quente, piorando o quadro de pele seca.

Tratamento: orientação para o banho: usar óleo em todo o corpo antes de expô-lo à água do chuveiro ou banheira, água não muito quente; usar sabonetes hidratantes ou suaves somente nas regiões atrás da orelha, nas axilas, no períneo e planta dos pés, e o uso de loções ou cremes hidratantes em todo o corpo após o banho. Em muitos casos, no início do tratamento é necessário o uso de loções ou cremes que contenham corticosteróides para alívio do prurido durante alguns dias.

Púrpura senil
Trata-se de um conjunto de petéquias e equimoses, ou mesmo hematomas, que ocorre principalmente no dorso das mãos, punhos e antibraços, por diminuição do suporte conjuntivo pericapilar, decorrente do envelhecimento da pele. Não há tratamento para tal, o que se faz é minimizar os sinais através do uso de cremes à base de vitaminas K1 e K3 que reduzem mais rapidamente as manchas que, em geral, incomodam estética e emocionalmente os pacientes.

Púrpura hipostática
Carateriza-se por petéquias e equimoses que surgem nas pernas e tornozelos, são confluentes, deixando áreas de pigmentação acastanhada hemossiderótica, conhecida como dermatite ocre. É observada em pacientes idosos que permanecem de pé por muito tempo ou, ainda, nas condições que causam estase: varizes, obesidade, atrofias musculares, artrites etc. O quadro é devido ao aumento de pressão hidrostática intracapilar e fraqueza do suporte conjuntivo pericapilar.

Tratamento: deve-se corrigir a causa, quando possível, impedindo, desta forma, sua progressão. São úteis elevação dos membros inferiores, uso de meias elásticas e repouso. A pele pode ser tratada com cremes à base de alfa-hidroxiácidos (que vão diminuir a camada córnea e a adesividade entre as células, permitindo a penetração de outras substâncias), despigmentantes (hidroquinona, ácido kójico etc.), venotrópicos (benzopirona etc.), quelantes de ferro (desferroxamina), vitamina K1 e K3 e hidratantes, associados a antiinflamatórios tópicos.

Devemos estar atentos para as lesões relacionadas também ao fotoenvelhecimento.


Figura 12 - Elastose solar.


Figura 13 - Leucodermia punctata.



Figuras 14 e 15 - Poiquilodermia solar.


Figura 16 - Carcinoma basocelular.


Figura 17 - Carcinoma basocelular.

Elastose solar

Trata-se de um espessamento de consistência coriácea e superfície sulcada como casca de laranja, sendo causada pela degeneração de fibras elásticas e colágenas da pele pela ação da radiação ultravioleta.

Queratose actínica ou solar

É uma lesão extremamente freqüente que ocorre em áreas expostas à luz, caracterizada por ser maculopapulosa recoberta por escamas secas, duras, de superfície áspera de cor amarela a castanho-escura, de tamanho variável, podendo confluir formando placas. As escamas são aderentes e, quando destacadas, podem ocorrer pequenos sangramentos. Quando há uma produção exagerada de camada córnea, é chamado de corno cutâneo.

Tratamento: remoção seja com aplicação de nitrogênio líquido, ou neve carbônica ou eletrocirurgia ou laser ou Coblationâ e, ainda, recentemente, o uso de imunomodulador tópico, em creme (imiquimod a 5% - Aldara®), na posologia de três vezes/semana até o total desaparecimento da lesão. O uso de 5-fluorouracil a 2% ou 5% em creme (Efurixâ) também é bastante eficiente em alguns casos, porém causa erosão do local.

Leucodermia solar ou leucodermia punctata

Trata-se de lesão hipocrômica, em geral circular, que ocorre de forma múltipla nas áreas expostas à luz solar. É causada pela destruição do melanócito naquela região pela radiação UV.

Tratamento: em geral responde bem ao uso de nitrogênio líquido local, ponto a ponto.

Poiquilodermia solar
Caracteriza-se pelo aumento de telangiectasias de forma retienlada nas faces laterais do pescoço e região infra-hióidea, poupando a região triangular supra-hióidea, por ação da radiação UV.

Tratamento: utilização de laser vascular para coagulação de toda telangiectasia.

Carcinoma basocelular

Também chamado de epitelioma basocelular, é o mais benigno dos tumores malignos, sendo constituído por células que se assemelham às células basais da epiderme. Pode ser considerado como incapaz de originar metástases, entretanto possui malignidade local, invadindo e destruindo tecidos adjacentes, inclusive o osso. É a neoplasia epitelial mais freqüente, 65% do total, sendo fatores predisponentes a exposição à luz solar e pele clara, tendo como outras causas desencadeantes a radioterapia e absorção de compostos de arsênico. Tem como localização preferencial os dois terços superiores da face (acima de uma linha imaginária que passe pelo lobo das orelhas e comissuras labiais), menos comum em outras áreas, não ocorrendo nem em mucosas, tampouco palma das mãos ou planta dos pés.

Clinicamente se caracteriza por uma pápula rósea, de borda perlácea, brilhante, podendo, na maioria das vezes, apresentar finas telangilctasias confluentes para o centro e, em alguns casos, o centro elevado ou ulcerado. Cresce progressivamente, podendo haver extensão em superfície ou mesmo em profundidade ou, ainda, vegetante. Pode ainda apresentar uma variante clínica escleratrófica, caracterizada por uma placa branco-amarelada, dura, lisa, translúcida, com algumas telangiectasias, lembrando esclerodermia; porém a grande maioria apresenta bordas lisas e perláceas.

Tratamento: a opção da grande maioria é a exérese cirúrgica da lesão com averiguação de margens através de exame anatomopatológico, embora trabalhos recentes multicêntricos (EUA, Canadá, Alemanha) mostrem excelentes resultados com o uso tópico de Aldaraâ, um imunomodulador em creme (imiquimod a 5%). Alguns dermatologistas preferem a cirurgia pelo método de Mohs (método pelo qual vai fatiando-se o tumor pouco a pouco e simultaneamente, fazendo-se a avaliação microscópica, até que se atinja tecido são) e outros, simplesmente a curetagem cirúrgica seguida de eletrocoagulação ou crioterapia.

Carcinoma espinocelular

Ainda chamado de carcinoma epidermóide ou epitelioma espinocelular, é um tumor maligno, constituído por proliferação atópica de células da camada espinhosa, de caráter extremamente invasivo, podendo causar metástase. Ocupa cerca de 15% dos tumores epiteliais malignos, tendo origem freqüentemente na queratose solar ou actínica, leucoplasia, radiodermite crônica, queratose arsenical, queratose actínica, xeroderma pigmentoso, úlceras crônicas e cicatrizes decorrentes de queimaduras ou de cicatrização por segunda intenção. Localizações mais comuns são um terço inferior da face, orelhas, lábio inferior, dorso das mãos, mucosa bucal e genitália externa, podendo, no entanto, ocorrer em qualquer outro lugar do corpo. As metástases podem ocorrer após meses ou anos, sendo mais freqüentes e precoces nos carcinomas das mucosas, dorso das mãos e cicatrizes de queimaduras.

Tratamento: a exérese cirúrgica e avaliação anatomopatológica de margens faz-se mister para se obter grau de profundidade e de invasão. A ressecção deve ser feita com o intuito de se obter margens livres em toda direção, pois, desta forma, a prognose é boa, principalmente para os casos recentes e adequadamente tratados.

Queilite actínica

Ocorre principalmente no lábio inferior e é caracterizada por descamação epidérmica e fissuração, resultante da luz solar (radiação UV). Em sua evolução acaba em uma leucoplasia e, por fim, num carcinoma epidermóide.

Tratamento: é sempre exérese cirúrgica da área afetada com atuação para as margens visualizadas através do exame anatomopatológico e o uso de bloqueadores solares labiais no pós-operatório.

Alterações das unhas

Há uma diminuição na taxa de crescimento de unha que chega a ser de 0,5% por ano de idade, de 15 a 90 anos. Nos indivíduos de meia-idade começam a surgir sulcos longitudinais, distrofia lamelar, que são traduzidos por unhas fracas e quebradiças e com a borda final dividida em camadas, queixa muito freqüente entre as mulheres, embora tenha a mesma prevalência em ambos os sexos a partir dos 60 anos de idade. Surgem também mudanças na pigmentação, com a idade, que podem ser confundidas com sinais secundários de outras doenças sistêmicas. Há uma grande incidência de unhas esbranquiçadas e opacas (unhas de Terry). Nos indivíduos de raça negra ocorre pigmentação longitudinal nas unhas em cerca de 96% das pessoas acima de 50 anos. A onicodistrofia é freqüente (mais nos dedos dos pés), podendo ser confundida com onicomicose. Em geral as unhas das pessoas mais idosas são mais convexas e com a lâmina ungueal mais espessa, podendo haver uma hiperqueratose subungueal. Nos dedos dos pés encontramos com bastante freqüência a exostose subungueal, geralmente após um trauma, a onicocriptose (popularmente conhecida como "unha encravada") ou, ainda, uma unha hipertrofiada secundariamente a um trauma ou pressão crônica, podendo a mesma estar grossa, opaca e com alterações de coloração. É comum encontrarmos onicólise, que é a separação de lâmina ungueal do leito na metade distal, podendo refletir uma circulação periférica prejudicada; ainda a onicogrifose, onde a lâmina ungueal está espessada, alongada e encurvada, recebendo a denominação de unha em garra e por fim a onicofose ou hiperqueratose subungueal que pode ser focal ou difusa e, geralmente, resultante de trauma local.

É interessante salientarmos a freqüência do aparecimento de dermatites eczematosas, principalmente em pacientes acima de 70 anos, bem como uma exagerada sensibilidade dos raios UV e algumas vezes à luz visível, apresentando então estes pacientes, placas eritematosas por vezes liquenificadas, e que ocorrem principalmente na fronte e região posterior do pescoço. Com o tempo essa erupção se torna mais profunda e intensamente vermelha, podendo surgir áreas irregulares de hiperpigmentação. Pode haver progressão gradual a eritrodermia e o desenvolvimento de uma "fácies leonina", associado a um prurido intenso e linfadenopatia.

Sinais cutâneos de reações adversas a drogas nos idosos podem estar exacerbados, embora sejam reversíveis quando da descontinuação do uso de medicação. Muitos podem causar fotossensibilidade.

Com relação às membranas mucosas, é comum a inflamação e fissura dos cantos de boca, devido ao somatório dos fatores: aumento de salivação, muitas vezes falta de dentes com reabsorção óssea e aumento de flacidez facial, queda da bochecha por atrofia das bolas de Bichat e por perda de elasticidade da pele, criando-se então uma dobra que origina uma zona intertriginosa, o que predispõe à retenção de saliva e maceração dos cantos da boca. É comum a superposição de uma candidíase, que responde prontamente ao tratamento antifúngico.


Figura 18 - Reação alérgica a hipoglicemiante oral.


Figura 19 - Celulite - causa desconhecida provável arranhadura ou coçadura.

Infecções mais comuns

1. Por dermatófitos

1a. Bicho geográfico - geralmente nos pés, freqüentemente acompanhado por onicomicose. Em geral não surge em indivíduos de idade muito avançada. Quando surge no pé, persiste por muito tempo, especialmente em homens, freqüentemente é confundido com pele seca.

1b. Tinea pedis - chega a atingir cerca de 80% dos homens acima de 64 anos. Maceração e hiperqueratose branca surgem de coabitação do dermatófito e bactéria, freqüentemente envolvendo organismos gram-negativos.

1c. Tinea incógnito - é o dermatófito que surge causando infecção em locais de uso de corticóide tópico persistente de maneira inapropriada pelos pacientes em áreas de inflamação crônica. O diagnóstico geralmente é tardio.

1d. Tinea cruris - pode ser diagnosticada erroneamente em homens idosos em que o quadro é de dermatite seborréica.

1e. Tinea capitis - é muito comum no idoso, assim como a dermatite seborréica, sendo o diagnóstico diferencial fundamental, exigindo uma terapia tópica rigorosa.

2. Candidíase

Candida albicans pode aparecer nos locais de dobras de pele redundantes ou zonas intertriginosas. Em áreas como o períneo, que podem ainda ficar úmidas com a urina, podem surgir pústulas ocorrendo uma infecção bacteriana associada. Fatores predisponentes ou exacerbantes incluem: diabetes mellitus, medicações sistêmicas, fatores nutricionais e função salivar diminuída.

3. Celulite

A celulite no idoso pode não ter alguns de seus sinais clássicos e freqüentemente ficar sem diagnóstico. Às vezes o edema é o único sinal, ao invés de toda a manifestação clínica esperada como calor local, vermelhidão, febre, associado à leucocitose em um leucograma. Como fatores predisponentes estão o edema crônico, circulação arterial e venosa deficiente, diabetes mellitus, traumas não percebidos (picadura de inseto, pancada local) ou, ainda, infecções que tiveram como porta de entrada uma tinea pedis ou mesmo xerose com eritema craquelato.

A celulite pode ainda estar relacionada a outra infecção sistêmica decorrente de, por exemplo, colecistite, abscesso do músculo psoas, hérnias encarceradas etc.

As celulites que têm como porta de entrada tinea pedis, geralmente, apresentam como agente infectante um estreptococo do grupo A.

A erisipela, variante especial de celulite, é geralmente caudada por um estreptococo beta-hemolítico e deve ser encarada como uma emergência, pois, se não tratada, pode evoluir para uma septicemia e morte. As lesões surgem em qualquer lugar, podendo ser sua porta de entrada uma pequena arranhadura, picadura de inseto, úlcera de estase, pequena fissura etc.; se recorrências aparecerem, faz-se-á necessário o uso de antibiótico profilático. São comuns as seqüelas quando a infecção se dá na face como edema persistente de região maxilar ou periorbitária ou, ainda, que pode ocasionar macroqueilia.

4. Pioderma

A piodermite nessa idade pode ser sutil e disfarçada, havendo discreta vermelhidão, certo amolecimento da pele do local do toque, calor local sem resposta de febre, mesmo em infecções severas como nos carbrínculos. O furúnculo pode simular um abscesso frio. A falta de sinais clínicos iniciais evidentes de infecção levam a um retardo no diagnóstico e conseqüente tratamento.

5. Herpes Zoster

A ocorrência de herpes Zoster no idoso é freqüente, com quadro mais florido e mais sério, principalmente por causa da nevralgia pós-herpética que tem alta incidência e é severa nestes casos, sendo o risco de 20% em pacientes acima dos 60 anos de idade. Estudos recentes mostraram que pacientes acima de 60 anos podem chegar a uma incidência de 50% de nevralgia pós-herpética, sendo 60% com duração de um mês após a manifestação do rash cutâneo, 24% com duração de três meses de dor e 13% com dor durante seis meses. A prevalência é maior quando o nervo atingido é o ramo oftálmico. Estudos recentes revelaram diminuição da dor com o emprego de aciclovir 10 mg/kg, EV, a cada oito horas durante cinco dias, ministrados dentro dos quatro dias do início da dor ou, ainda, dentro de 48 horas do início do rash cutâneo. Para tal tratamento se faz necessário avaliação da função renal do paciente. Em alguns casos se associa corticosteróide com o início da erupção, numa tentativa de também evitar-se a dor. Sugere-se a dosagem de 60 mg de prednisona por dia, reduzindo-se até a retirada, porém mantendo-se a terapia por um período de quatro semanas, o que parece ter evitado a nevralgia pós-herpética na maioria dos pacientes submetidos ao tratamento. A causa da maior incidência da infecção herpética e nevralgia continua ainda desconhecida.

Infestações

A mais comum é a escabiose que, embora de fácil tratamento, pode ter seu diagnóstico retardado devido ao xeroderma e prurido asteatótico do idoso. Casos obscuros podem apresentar prurido com lesões mínimas; ainda casos que são mascarados pelo uso de corticóides tópicos, levando a um diagnóstico tardio, mascarando sinais e sintomas e que podem ser dramaticamente alterados em sua extensão e distribuição. Subseqüente superinfestação pode confundir sua apresentação, assim nódulos contendo os ácaros podem persistir após o tratamento com medicamentos antiescabiose. A aparência histológica pode assemelhar-se a neoplasmas linfóides. Pode ocorrer grande infestação em pacientes imunodeprimidos que têm sensação cutânea diminuída, podendo haver associações de linfadenopatia e eosinofilia. Situações epidêmicas são comuns em casos de repouso.

Tratamento: benzoato de benzila a 25%.

Desta forma, observamos que na chamada terceira idade os comemorativos que ocorrem na pele formam um compêndio dermatológico que deve ser de conhecimento de todo médico clínico.



Bibliografia
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