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Comentário
O controle de infecção hospitalar no Brasil
Considerações sobre o 2º Fórum de CCIH
Hélio Vasconcellos Lopes
Chefe do Serviço de Infectologia do Complexo Hospitalar Heliópolis.
Professor titular da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC.

Assisti recentemente (maio/99) em São Paulo, ao Segundo Fórum de Comissões de Controle de Infecção Hospitalar. Surpreendeu-me a grandiosidade do evento: médicos e enfermeiros, responsáveis pelas CCIHs, vieram de todo o Brasil para debater temas inerentes à área e que envolveram muita polêmica.
Após a apresentação dos trabalhos ficou surpreendentemente reforçada, para mim, a idéia de como nosso país é heterogêneo, desigual, de grandes contrastes; ficou claro que tudo - até as CCIHs - pode funcionar em nosso país, mas é preciso que haja recurso para tanto e, infelizmente, temos apenas arremedo de recursos, nem sempre bem utilizados.

Ouvi, nesse Fórum, representantes de CCIH de diversos Estados brasileiros e a conclusão é um tanto deprimente: a lei existe para as CCIHs e, consequentemente, as CCIHs também, para cumprirem a lei (relação simples de causa e efeito). Mas lei e CCIHs, como estão caminhando?

Aprendi (já que sou um infectologista clínico e não exerço atividades de CCIH), pelas exposições feitas, que - com relação às CCIHs - existem, genericamente, três tipos de hospitais no Brasil: os que funcionam bem, muito bem ou quase bem, os que funcionam mal, ou muito mal, e os que - simplesmente - não funcionam. Vejamos, alguns exemplos: CCIHs de hospitais como o Albert Einstein, o Sírio Libanês e de vários outros, em São Paulo, têm infra-estrutura e funcionam muito bem; esses hospitais proporcionam condições a indivíduos capazes e pagos adequadamente para desempenharem com qualidade as funções inerentes a uma CCIH, quais sejam, entre tantas, avaliação e racionalização do uso de antimicrobianos, medidas de controle de infecção hospitalar, consultoria permamente para o corpo clínico, cursos de atualização relativos ao uso de antimicrobianos, orientação relacionada à aquisição dos antimicrobianos (comissão de padronização de medicamentos) e, fundamental, a determinação do perfil de sensibilidade dos microrganismos isolados (dos pacientes, infectados ou colonizados, e de áreas do próprio hospital) para orientação de terapêutica empírica ou de terapia com agente identificado, particularmente em situações de surto, como é o caso, no momento, das multirresistentes Pseudomonas aeruginosa e Acinetobacter baumanii em diversos hospitais da cidade de São Paulo.

O segundo grupo de hospitais, os que funcionam mal, ou muito mal, têm, com frequência, um responsável, provavelmente competente (mas menos bem pago e com menos tempo disponível), coordenando uma CCIH dotada de pouca ou de nenhuma estrutura e, consequentemente, impedindo-o de desempenhar adequada ou minimamente as tarefas acima referidas.

Quanto ao terceiro grupo, grupo ao qual pode pertencer aquele hospital público ou privado, situado em uma cidadezinha do interior ou em uma periferia qualquer, ou mesmo no centro de uma cidade de um dos 25 Estados brasileiros; para hospitais desse grupo, podemos colocar anúncios no jornal procurando os gerenciadores das suas CCIHs e, se os acharmos, tentar descobrir o que estão fazendo.

Foi esta a primeira imagem que eu tive das apresentações deste Fórum, feitas por profissionais muito bem-intencionados mas queixando-se profundamente da falta de recursos para desenvolverem um trabalho honesto e sério.

Contudo, tivemos o lado bom, com mesas-redondas que mostraram a excelência do profissional brasileiro, acima das nossas (brasileiras) dificuldades. Foram discutidos a lei das CCIH e sua aplicação; a hierarquização (o relacionamento) entre municípios, Estados e Federação; a lei dos genéricos e sua implantação; o uso de antimicrobianos na comunidade e seu impacto na resistência bacteriana. Nesta mesa-redonda, dos antimicrobianos, foi destacado o emprego de antimicrobianos em animais, como ração: sim, é isso mesmo, como ração, para engordar mais (mais peso) e mais depressa (em menos tempo) e para reduzir a morbidade (reduzindo as taxas de mortalidade) de galinhas e de outros animais afins, industrializados para alimentação humana. Ora, se aos domingos ricos e pobres comem galinha (apesar daquela frase de Adoniram Barbosa, falando que "pobre só come galinha quando está doente, ele ou a galinha"), todos estamos ingerindo microdoses de antibióticos que são inoportunamente apresentados às bactérias colonizadas em nosso organismo, mostrando seus pontos vulneráveis e possibilitando a essas bactérias desenvolverem meios de defesa, ou seja, mecanismos de resistência. E, aos que desconhecem, saibam que os antibióticos usados para as penosas são os mesmos ou são parentes próximos dos antibióticos prescritos para nós, humanos. Isto significa que, quando nós precisarmos desses antibióticos, eles serão menos efetivos, sendo exigidas concentrações maiores, muitas vezes de uso improvável, para poderem atuar.

Isto e muito mais foi apresentado e discutido nesse Fórum. É preciso que este tipo de atividade seja universal, contínua e permanente em nosso país, e que conte, cada vez mais, com elementos representativos da ciência médica e da ciência política, nesta onde nem todos são politicamente corretos.

Concluindo, cabe destacar que este Fórum contou com 80 representantes de CCIHs de todo o Brasil, foi praticado em um hotel de primeiro mundo e que teve, entre os palestrantes, profissionais renomados da área, representantes da indústria farmacêutica e até políticos, como o senador (e médico) cearense Lúcio Alcântara.

Cumprimentos ao laboratório Janssen, responsável por esta iniciativa, ética e de primeiro mundo. Que ele e outros laboratórios farmacêuticos repitam a dose.