Home Busca Avançada Normas de Publicação Assinaturas Fale Conosco
Contact Us
 
 

 

CopyRight
Moreira Jr Editora
Proibida a reprodução sem autorização expressa


 
sêlo de qualidade
Like page on Facebook



Editorial
Prof. Dr. Oswaldo Luiz Ramos
"O grande líder"
Prof. Dr. Clementino Fraga Filho
Professor Titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
Membro do Conselho da Academia Nacional de Medicina.

No dia 30 de maio do corrente ano faleceu o professor Oswaldo Luiz Ramos, patrono da Sociedade Brasileira de Clínica Médica e Professor Titular do Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina. O prof. Oswaldo, dotado de inteligência brilhante, grande capacidade de trabalho e muito amor pela Escola Paulista de Medicina, foi um líder no ensino, na assistência e na pesquisa.
Médico competente, professor brilhante, pesquisador notável, imbuído de formação ética rigorosa, legou à medicina brasileira modelo de conduta que certamente continuará proliferando por muitas gerações.

O mestre deixou grande número de discípulos em todo o território nacional. Sua dedicação e filosofia de vida tornaram-no merecedor da admiração daqueles que tiveram a oportunidade de viver ao seu lado. Seu exemplo deverá ser seguido por todos que exercem a medicina e se dedicam ao seu ensino.

Ao prestarmos nossa última homenagem a este extraordinário vulto da medicina brasileira o faremos por meio da publicação do discurso proferido pelo prof. Clementino Fraga Filho por ocasião da posse do ilustre professor na Academia Nacional de Medicina, em 30 de agosto de 1994, posse da qual tivemos a honra de assistir e participar da mesa diretiva.

Prof. Dr. Antonio Carlos Lopes
Professor Titular de Clínica Médica.
Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina.
Editor.

Saudação feita por Clementino Fraga Filho a Oswaldo Luiz Ramos, por ocasião de sua posse na Academia Nacional de Medicina, em 30/08/94.

Ao acolher o professor Oswaldo Ramos, como Membro Titular, a Academia Nacional de Medicina não terá apenas premiado um expoente da profissão médica no Brasil, senão também, mais uma vez revelado o propósito de homenagear a medicina de São Paulo, sempre qualitativamente bem representada nesta casa. A presença de elementos expressivos da ciência médica, militantes em outros Estados, reafirma o caráter nacional da instituição, além de difundir seu prestígio e de ampliar sua área de influência. Falo com coerência, porque no mesmo sentido me manifestei, ao tomar posse, há 35 anos.

Não se pode falar de Oswaldo Ramos sem lembrar Jairo Ramos, seu pai, figura notável da medicina brasileira. Um dos fundadores da Escola Paulista de Medicina, professor de clínica propedêutica, organizador do Departamento de Medicina, era em sua faculdade líder e formador de opinião.

Clínico dos mais solicitados, seu espírito público o levou a atuar nas associações de classe. Presidiu por muitos anos a Associação Paulista de Medicina, tirando-a da fase embrionária, transformando-a em órgão poderoso. Para ele, o magistério, o exercício da clínica, a participação na vida associativa eram atividades inseparáveis. Preocupava-se com a humanização da medicina e o compromisso social da profissão: "O médico precisa humanizar-se e integrar-se na sociedade com a vontade e a energia usadas no aprimoramento de sua cultura".

Confirmei, pessoalmente, o conceito que tinha do mestre, em dois encontros prolongados - como membros de comissão examinadora de concurso na Faculdade de Medicina da USP e como participantes da Conferência Nacional sobre o ensino da Clínica Médica, na Bahia -: Homem reto, austero, mas comunicativo e simples; combativo, às vezes, veemente na defessa de seus pontos de vista, com argumentação amparada em vasta cultura médica.

Oswaldo Ramos, assim o recorda: "Com a espontaneidade dos puros, contundente e bom, compreensivo e disciplinado, sonhador e objetivo; incansável lutador, a perseguir as metas que tinha como válidas". À força de admirar seu exemplo, reproduziu, em muitos aspectos, a carreira paterna. Ambos especialistas consagrados, de sólido preparo clínico geral; professores e chefes de Departamento de Medicina, dedicados à Escola Paulista, onde suas vozes sempre foram ouvidas e acatadas; ambos atentos aos interesses das comunidades docente e científica. Em ambos, idênticas qualidades de caráter, inteligência, vocação de servir. Até mesmo a semelhança de temperamentos, confessadamente, no caso do filho, "nem sempre sereno"; entretanto invariavelmente justos e leais.

A formação dos professores de medicina deve ser preocupação constante e central em educação médica. Deles nunca se deixou de esperar excelência na prática e atributos didáticos, embora não se exigisse preparação pedagógica. Esta passou a ser recomendada a contar da década de 60, com a aproximação de professores de medicina e de educação, nos Estados Unidos. Quanto à aptidão para pesquisa, era própria dos docentes de ciências básicas e eventual naqueles da área clínica. Com a explosão de conhecimentos das ciências biológicas e o apoio de recursos financeiros, a pesquisa foi incluída como meta obrigatória.

No Brasil, a legislação da reforma universitária considerou indissociáveis as duas atividades. O estímulo à pós-graduação Stricto sensu, desde o início dos anos 70, e a valorização dos trabalhos de investigação nos currículos acadêmicos são decorrência desse conceito. Os resultados não corresponderam inteiramente à expectativa: os recursos para financiamento, oriundos de agências oficiais e das próprias universidades, sempre foram limitados; os cursos de pós-graduação, muitas vezes, não obedecem a exigências rigorosas, criando facilidades excessivas para a produção de mestres e doutores; o despreparo em metodologia científica sacrifica muitas dissertações e teses. O ensino de graduação tem sido prejudicado pelo desvio de docentes para a pós-graduação, que assegura melhor recompensa, de natureza vária. A sobrecarga do trabalho didático, o volume de serviços assistenciais nos hospitais universitários, a remuneração insuficiente aos professores limitam, ainda mais, a disponibilidade para a pesquisa.

Não se discute a necessidade de integração ensino-serviço-pesquisa na formação do professor de medicina. É função do departamento cumprir esse tríplice objetivo, contemplando os três setores em nível elevado, mediante várias combinações entre seus componentes e de acordo com as aptidões destes. É difícil encontrar um "Homem da Renascença" capaz de excelência nas três áreas.

Oswaldo Ramos é um desses homens de exceção em nosso meio: Clínico experiente; professor preocupado com os problemas do ensino médico; pesquisador e chefe de escola, experimentado em encargos de coordenação e administração.

Seu espírito inquieto e seu dinamismo, mesmo nas entrepausas da saúde, dá-nos a impressão de que está sempre em busca de novas realizações, talvez, na linha do poema de Cassiano Ricardo:

"Alguma coisa a quem o ideal persegue
um simples nada, que não há no mundo
nem mesmo quando tudo se consegue"

A vocação para a pesquisa começou cedo. Ao regressar do Canadá, de onde trouxe o título de "Master of Science", instalou na Escola Paulista, com Magid Yunes, um laboratório, "com poucos metros quadrados, vinte tubos de ensaio e igual número de pipetas, a pomposa seção de Metabolismo e Nutrição". Com recursos tão parcos, a experiência durou pouco, provavelmente o tempo para que se quebrassem os vidros. Com o apoio da Fundação Rockfeller, obteve estágio de Departamento de Medicina da Columbia University, onde se familiarizou com novas técnicas de investigação.

Em 1961, conquistou a Docência Livre em Clínica Médica. Criada alguns anos depois a Disciplina de Nefrologia, foi nomeado seu chefe, a seguir chegou a professor titular por Concurso de Títulos e Provas. Reuniu grupo de competentes colaboradores, reconhecendo que "o sucesso da disciplina é obra de muitos, trabalhando muito". A produção científica cresceu com o auxílio do CNPq: publicou 172 trabalhos, dos quais 93 em periódicos de circulação internacional, a maioria versando temas de patologia renal e hipertensão arterial. Isso lhe valeu o convite para membro do fechado Conselho Internacional de Pesquisas sobre Hipertensão, da American Heart Association.

Na memória apresentada a esta academia relata a experiência de muitos anos de sua equipe, quanto aos efeitos do aumento da pressão arterial sobre o rim, em paciente com hipertensão essencial e naqueles em que se associam ao diabetes. São trabalhos originais, que trazem valiosa contribuição à fisiopatologia e à terapêutica da hipertensão. Demonstrou, ainda, a importância desta como problema de saúde pública. Em inquérito baseado na observação de 5.500 indivíduos, entre 15 e 65, 18,5% dos homens e 6,5% das mulheres eram hipertensos. E, o que é grave: a maioria dos hipertensos não se trata adequadamente, por descaso, falta de recursos ou desinformação quanto às sérias consequências sobre a morbidade e a mortalidade que podem advir da doença não tratada.

A Disciplina de Nefrologia da Escola Paulista, pioneira em métodos de diálise e nos transplantes, tornou-se o maior centro nacional especializado nesse setor, recebendo Jean Hamburger na academia francesa, o sábio Jean Bernard justificou a preferência do colega ilustre pelo rim. "O rim não é o que as pessoas comuns pensam. Não tem somente a função de excreção; não é uma usina de fabricar detritos. O rim garante o comando da economia orgânica. É o guardião final do meio interior." Tal como Hamburger, Oswaldo Ramos e sua equipe têm fascínio pelo rim.

Se papel foi decisivo no processo de criação e desenvolvimento dos cursos de pós-graduação. O curso de nefrologia sempre manteve o conceito "A" da coordenação do aperfeiçoamento de pessoal de ensino (Capes) e formou, até hoje, 68 mestres e 65 doutores. O renome do professor levou-o à coordenação da área médica nesse órgão e a seu Conselho Técnico Científico. Com a franqueza habitual, proclamou a necessidade de aperfeiçoar o sistema de avaliação, que, sem desprezar os aspectos quantitativos, ainda carece de uma análise de qualidade. A crítica é oportuna, porque o sistema adotado representa, inegavelmente, uma experiência positiva, mas necessita de constante aprimoramento.

Entre suas propostas inovadoras está a implantação do programa de epidemiologia clínica, que dirigiu por mais de dez anos, abrindo novas perspectivas e abordagens para o estudo das doenças.

Tive a oportunidade de testemunhar sua intervenção esclarecedora e combativa durante as crises repetidas dos hospitais universitários, nos entendimentos com a previdência social e nos pleitos para a obtenção de recursos junto aos Ministérios da Fazenda, do Planejamento e da Educação. Como as coisas no Brasil se resolvem, quase sempre, por influências pessoais, sem dúvida a autoridade de seu nome muito concorreu para atenuar os problemas encontrados.

Como professor não se limitou ao âmbito de sua escola; sendo convocado para integrar vários organismos federais e estaduais de coordenação, consultoria e financiamento à pesquisa: Conselho Nacional de Pesquisas, Comissão Nacional de Ensino Médico, Comissão de Residência Médica, Fundação Getúlio Vargas, Sistema Integrado de Procedimentos de Alta Complexidade (Sipac), Fundo de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Em Oswaldo Ramos, pensamento e ação se conciliam com grande potencial afetivo. No intuito de que estas palavras lograssem corresponder melhor ao seu sentimento, perguntei-lhe quais os aspectos de sua vida que considerava mais significativos. A resposta veio de imediato: "O mais importante foi ter casado com a Vera". A frase concisa dispensa acréscimos ou adjetivos. Poderia repetir o poeta:

"Foste nobre companheira de viagem ...
juntemos nossos destinos
para todos os caminhos futuros
que havemos de percorrer"

O novo acadêmico é um homem de compromissos. Por mais de 40 anos vem dedicando-se à Escola Paulista de Medicina. No que faz e no que diz, ressalta a devoção à casa de sua formação profissional. Exemplo raro, em época em que os próprios interesses, muitas vezes, são colocados em primeiro plano. Certamente, é daqueles que cuidam mais do que podem fazer pela instituição do que esta por eles; que honram os cargos, mas, por igual, sentem-se obrigados às responsabilidades inerentes. Não será outro seu comportamento em relação à Academia Nacional de Medicina, à qual servirá com inteligência e capacidade.

Ao termo do memorial apresentado a esta academia, escreveu: "Literalmente no fim de uma vida útil, a revisão é, no mínimo, nostálgica. Não posso, entretanto, deixar de confessar, desprezando a modéstia, que me sinto orgulhoso do que foi realizado". Para a nostalgia, não há remédio: é companheira obrigatória do tempo passado. A modéstia, de fato, soaria falsa. Quanto ao orgulho, sem arrogância nem presunção, é expressão de altivez e saudável autoconfiança.

A vida de Oswaldo Ramos reflete a bela imagem que se contém no livro dos provérbios:

"A vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai
brilhando mais e mais até ser dia perfeito".