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Ponto de Vista
Genéricos
Roseane M. Maia Santos, M. Sc.
Profa. assistente de Farmacologia - Uni-Rio

O jornal O Globo, na sua edição de domingo, dia 17 de janeiro último, dedicou mais de uma página ao tema "Remédios iguais, preços diferentes", estampando inclusive a foto da caixa dos referidos medicamentos. Muito embora cite a necessidade de "novos testes" para concluir da similaridade entre os medicamentos tradicionais e os genéticos, o jornal recomenda a substituição de alguns medicamentos testados (por encomenda do próprio jornal) com base apenas na igualdade de teor do princípio ativo.
É preciso ter muita cautela quando se trata de medicamentos, pois o termo similaridade, que para o leigo consiste na igualdade de princípios ativos, não corresponde a verdade. Pela nova lei, aprovada na Câmara e no Senado, as indústrias detentoras ou não da patente dos princípios ativos deverão redesenhar suas embalagens de modo a conter em letras grandes o nome da substância ativa presente no remédio, acompanhada ou não de seu nome de fantasia. Deste modo, um medicamento como a Aspirina cuja marca pertence à Bayer deverá apresentar também em letras grandes ácido acetilsalicílico, que é o princípio ativo deste medicamento. Isto permitirá ao leigo comparar produtos com nomes de fantasia diferentes através da identificação dos seus princípios ativos e permitirá, também, a troca por produtos ditos genéricos. Os genéricos são aqueles medicamentos cuja fórmula se assemelha aos tradicionais (que detém a patente e tem nome de fantasia) e que, se fabricados de maneira correta e séria, tornam-se grandes concorrentes dos tradicionais por poderem apresentar custos reduzidos e preços mais competitivos.

Nossa experiência como farmacêutico com mais de 20 anos desde a formatura, com mestrado em Farmácia Hospitalar e tese na área de Farmacologia Clínica, mais especificamente em Farmacocinética Clínica, e como docente da Universidade do Rio de Janeiro, na Disciplina de Farmacologia, sentimo-nos no dever de alertar os colegas farmacêuticos, assim como médicos, enfermeiros, biólogos, nutricionistas e outros profissionais da área de saúde, da importância de um pleno entendimento do que seja a produção de medicamentos genéricos, que, se feita de modo correto e com a devida e constante fiscalização, será da maior valia para nossos pacientes. Haja vista o barateamento dos custos de produção que excluem os gastos em pesquisa, embutidos no preço dos produtos com nome de fantasia, pioneiros na descoberta daquelas moléculas.

Em nosso entendimento, a falha daquele jornal foi tornar público resultados parciais (apenas o teor do princípio ativo foi medido) e, portanto, não conclusivos quanto à bioequivalência destes produtos e incitar ao público leigo ao uso destes medicamentos, que, segundo o Jornal, é preciso "pesquisar o preço antes de comprar". Ora, medicamento é um assunto muito sério e não pode nem deve ser tratado à semelhança de produtos outros, como os alimentos, cujas marcas também variam em preço para um mesmo produto; muito embora, por vezes a qualidade não seja a mesma, não incorre em prejuízo na sua substituição.

A diferença reside no fato de que enquanto dois produtos quaisquer possam ser trocados ou substituídos se comparados quanto ao teor, um medicamento, mesmo quando o teor químico for o mesmo, não significa que produzirá o mesmo efeito se administrado sob a mesma forma, isto porque, os componentes ditos "inertes" presentes na fórmula, sabe-se bem hoje, podem interferir na oferta do princípio ativo para o organismo, podendo até não produzir nenhum efeito, como é o caso de comprimidos muito duros e que não se desintegram ao longo do tubo digestivo.

Os "novos testes", que só agora começarão a ser exigidos aqui - testes de biodisponibilidade e bioequivalência, são rotina e uma realidade nas indústrias farmacêuticas e empresas que manipulam genéricos no exterior há mais de 20 anos. Cabe aqui talvez um breve histórico de como surgiu esta preocupação com a formulação de medicamentos similares. Foi exatamente na década de 70, na Inglaterra, onde ocorreram simultaneamente vários casos de intoxicação com digoxina, fármaco utilizado no controle da insuficiência cardíaca através do aumento da força de contração do músculo cardíaco. O fato surpreendeu porque os pacientes intoxicados já vinham tomando a medicação há muito tempo e não haviam sequer mudado de marca ou de posologia, não havendo aparentemente nenhuma razão para tal acontecido.

Uma investigação mais profunda de cada caso levou a suspeita do medicamento utilizado, foram então levantados os lotes utilizados e a análise revelou que aqueles lotes pertenciam à fabricação de uma nova formulação em que um dos componentes da fórmula, sem atividade farmacológica, havia sido substituído por falta do similar no mercado. O estudo comparado entre o comprimido fabricado anteriormente e a nova formulação demonstrou que o novo componente permitia uma liberação mais rápida do princípio ativo no organismo, concorrendo então para o fornecimento de maior quantidade de medicamento em menor espaço de tempo. E, por tratar-se de um fármaco, em que pequenas variações nas concentrações plasmáticas, pode promover reações tóxicas devido à sua estreita faixa terapêutica. A nova formulação portanto, se administrada da mesma forma que a antiga, promoveria efeitos tóxicos por sair da faixa terapêutica.

É necessário, portanto, que cada profissional da área de saúde que utiliza medicamentos na sua prática diária, tenha conhecimento do assunto de modo que, quando solicitado, possa emitir uma opinião abalizada e esclarecer o público em geral sobre a complexidade do tema.

Não é nosso objetivo esgotar o tema aqui, mas colocar nosso "Ponto de Vista" sobre esta matéria tão importante.