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Tópicos em... terapêutica
Polimixinas:a antibioticoterapia retornando às suas origens
Hélio Vasconcellos Lopes
Chefe do Serviço de Infectologia do Complexo Hospitalar Heliópolis e professor titular de
Moléstias Infecciosas da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC.

Duas publicações chamaram nossa atenção para justificar o título deste artigo: um trabalho de autores brasileiros, publicado na conceituada revista Clinical Infectious Diseases*, por Levin, A.S. e cols., do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo; a outra, uma publicação interna do Complexo Hospitalar Heliópolis, pelo Serviço de Controle de Infecção Hospitalar.
O que estas duas publicações têm em comum? A existência de surtos hospitalares de infecção por bacilos gram-negativos [enterobactérias (com destaque para o Acinetobacter baumanii) e Pseudomonas aeruginosa] resistentes a todos os antibióticos disponíveis em nosso país.

Mas estas duas situações, embora atuais, não são novas: o primeiro trabalho inclui pacientes atendidos no Hospital das Clínicas de São Paulo no período entre janeiro de 93 e dezembro de 94, enquanto o do Hospital Heliópolis se arrasta há alguns meses.

* CID 28:1008,1999.

Tem sido muito destacado pelas publicações na área de antibióticos a perspectiva de resistência por parte de cocos gram-positivos: do enterococo à vancomicina (e a todos os outros antibióticos) e do risco de o mesmo ocorrer com os estafilococos.

No entanto, com relação aos bacilos gram-negativos a divulgação vem sendo menor. Mas, vejam, estas multirresistências têm, em comum, o seguinte:

1) Nenhum dos antibióticos disponíveis, no Brasil, atua contra tais germes;

2) A indústria farmacêutica não proporcionou, nos últimos anos, nenhum progresso neste sentido, não introduziu nenhum antibiótico novo que possa desempenhar tal papel;

3) O paciente infectado com uma destas bactérias tem um prognóstico muito ruim, quando não fechado;

4) Estas bactérias trazem, consigo, o risco de se propagarem, dentro do hospital, causando surtos localizados ou generalizados; e, por fim,

5) Os antibióticos que podem trazer algum benefício são antibióticos antigos, muitos deles com sua comercialização suspensa e outros que tiveram suas fases de investigação desativadas e, agora, retornam.

Este "rejuvenescimento de antibióticos desatualizados" traduz, claramente, a tentativa da ciência recuperar-se de uma competição que vem sendo perdida: o confronto dos antibióticos contra as bactérias.

O ressurgimento das polimixinas

Os médicos mais novos (não tão novos) questionam, por desconhecimento, o que são as polimixinas (polimixina B e polimixina E), das quais nunca ouviram falar. Os mais velhos já têm uma lembrança, embora distante, desta classe de antibióticos. Mas, afinal, estas tais polimixinas são boas? Por que seu uso foi interrompido?

As polimixinas são disponíveis em muitos países, mas, pelos inconvenientes a seguir relatados, foram sendo, gradativamente, postas de lado:

- São significativamente nefrotóxicas;

- São neurotóxicas;

- Podem causar bloqueio muscular;

- Não são usadas por via oral;

- Sua administração parenteral, por via intramuscular, é extrema e prolongadamente dolorida.

No entanto, estas polimixinas são, no momento, os únicos antibióticos dotados de atividade contra enterobactérias e Pseudomonas aeruginosa multirresistentes, isto é, resistentes a todos os antibióticos disponíveis, no Brasil e no mundo.

O que fazer? Algumas idéias:

1) Importar estas drogas: aqui, abrimos um baú de dificuldades: nossas estruturas públicas não permitem ou não dispõem de verbas para a importação, ou a alfândega não libera a entrada do produto (até que ele perca a validade) ou exige concorrência (que duram meses, em média), enquanto os pacientes morrem...

2) Outra possibilidade é fazermos uma campanha de esclarecimento junto aos médicos, aos gerenciadores de hospitais, aos secretários e ministros da saúde no sentido de se oferecer algum estímulo aos laboratórios produtores para, rapidamente, possibilitar a sua disponibilidade, seja por importação do pó, seja por sua produção industrial em nosso país, a fim de que, um, dois, dez, cem, mil ou mais brasileiros deixem de morrer por infecções intratáveis, de hoje para a frente.