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Transplantes
Transplante de fígado: qualidade de vida após 10 anos
Liver transplant: quality of life after 10 years


Karla Bezerra Ribeiro
Enfermeira na Unidade de Transplante de Fígado - UTF/ PE, Pós Graduanda em Cardiologia e Hemodinâmica. kbribeiro24@yahoo.com.br
Olival Cirilo Lucena da Fonseca Neto
Cirurgião do Serviço de Cirurgião Abdominal e da Unidade de Transplante de Fígado - UTF/ PE. olivalneto@globo.com
Norma Arteiro Filgueira
Professora adjunta da Universidade Federal de Pernambuco e Coordenadora da Residência Médica do Hospital das Clínicas da UFPE. Hepatologista da Unidade de Transplante de Fígado - UTF/PE
Penelopes de Albuquerque Silva
Enfermeira, Pós Graduanda em Emergência
Rodrigo César Abreu de Aquino
Especialista em Urgência e Emergência, e em Saúde Coletiva. Mestre em Saúde da comunicação
Cláudio Moura Lacerda
Professor titular de Cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco - UPE, Chefe da Unidade de Transplante de Fígado - UTF/PE
Endereço para correspondência:
Olival Cirilo Lucena da Fonseca Neto
R. Jacobina, nº 45- Graças /
Recife, Pernambuco, Brasil.
CEP: 52011-180 Recife - PE.
E-mail: olivalneto@globo.com

RBM Transplantes
Dez 16 V 73 N Especial L2
págs.: 2-6

Unitermos: Transplante de fígado, qualidade de vida, Doença hepática terminal, sobrevida
Unterms: Liver transplantation, quality of life, End-stage liver disease, survival

Resumo

O transplante de fígado é a melhor opção terapêutica para os pacientes com doença hepática terminal tendo como propósito aumentar a sobrevida, porém tendo repercussões ao nível biológico, psicológico e social. O objetivo do estudo foi avaliar a qualidade de vida dos pacientes transplantados da Unidade de Transplante de Fígado (UTF) há mais de 10 anos. A pesquisa foi realizada no ambulatório da UTF do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (HUOC). Foi utilizado como instrumento para coleta de dados o questionário internacional adaptado de qualidade de vida, o SF 36, além de avaliação do funcionamento físico, cognitivo e emocional, não incluindo a dimensão espiritual. Foram entrevistados 17 pacientes maiores de 18 anos, sendo 59% (10) do sexo masculino, 35% foram transplantados com o diagnóstico de hepatite C. De acordo com o questionário 70% dos pacientes não apresentaram queixas de limitação nas atividades diárias e no geral eles se percebem com bom estado de saúde. Conclui-se que o transplante proporciona ao paciente a ampliação do tempo de vida com qualidade. A identificação de fatores que interferem negativamente na qualidade de vida poderá contribuir para o planejamento de intervenções de cuidados que possam favorecer a melhoria de saúde e da qualidade de vida desses indivíduos.

Introdução

As doenças hepáticas avançadas são responsáveis por alterações em diversos sistemas orgânicos, incluindo complicações metabólicas, desnutrição, perda da massa e da função muscular, alterações respiratórias, encefalopatia e demais sintomas relacionados com a hepatopatia, interferindo negativamente nas atividades de vida diária e na qualidade de vida desses indivíduos.1 As transformações e limitações impostas pela condição crônica e pela necessidade de realização do transplante trazem para os pacientes a necessidade de adaptação a uma nova realidade, tendo que se ajustarem as mudanças nos vários campos da sua vida. Após o transplante, tem de enfrentar uma difícil rotina que envolve acompanhamento médico frequente, realização de exames, riscos do procedimento cirúrgico, complicações pós-transplante, necessidade de terapia imunossupressora contínua e a mudança de hábitos. (2)

A qualidade de vida está relacionada á autoestima e ao bem-estar pessoal, abrangendo os aspectos de interação social, o autocuidado, valores culturais e religiosos, bem como o estado de saúde e a satisfação nas atividades diárias.3-5 O transplante de fígado não apenas prolonga a vida, mas melhora significativamente a qualidade de vida (QV). (6)

Além do implante de um novo órgão, o transplante traz em si outros benefícios para o indivíduo. Dentre eles, pode-se elencar a reintegração na vida social e familiar, a criação de nova rotina de autocuidado, a realização de atividades que antes eram inviáveis em face do adoecimento. Sendo assim, observa-se a promoção da QV dos transplantados.

Até o momento existem poucos trabalhos que avaliem a qualidade de vida na população de pacientes submetidos ao transplante de fígado e o impacto das condições associadas pós-procedimento. Esse estudo se fez necessário, visto que o conceito de qualidade de vida está sujeito a variações, impostas pela cultura e costumes.

Conhecer os fatores que influenciam na qualidade de vida dessas pessoas é passo essencial na busca por uma assistência que vise atender as necessidades dos seres humanos numa abordagem holística e oferecer uma melhor qualidade do cuidado. Nesse sentido, estudos sobre qualidade de vida tornam-se necessários, pois permitem o conhecimento do impacto da doença sobre as atividades diárias, a avaliação de tratamentos e adesão, obtenção de informações que permitam a comparação entre diferentes tipos de tratamentos e análise de custos.

Dessa forma, justifica-se a utilização de instrumentos para a avaliação da qualidade de vida, funcionando como parâmetro para analisar o impacto da doença e do tratamento no cotidiano das pessoas. Para tal, considerando o funcionamento físico, aspectos sociais, estado emocional e mental, a repercussão de sintomas e a percepção individual de bem-estar, servindo, ainda, como critério na avaliação da efetividade do transplante. O presente estudo tem por finalidade contribuir com o conhecimento da qualidade de vida após o transplante hepático, através de uma avaliação, a longo prazo, dos pacientes tratados pela Unidade de Transplante de Fígado do Hospital Universitário Oswaldo Cruz.

Materiais e métodos

Foi utilizada uma metodologia exploratória, descritiva e quantitativa. O estudo constou de uma entrevista com a aplicação do questionário SF-36 (versão em português do Medical Outcomes Study 36- Item Short For Health Survey), traduzido e validado por Ciconeli7 como instrumento de coleta de dados. O questionário empregado no estudo é composto por 36 perguntas objetivas, que analisaram oito dimensões: capacidade funcional, limitação por aspectos físicos, auto avaliação da dor, estado geral, vitalidade, aspectos sociais, aspectos emocionais e saúde mental.

A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em pesquisa do Hospital Universitário Oswaldo Cruz- HUOC/PROCAPE, sendo aprovado no dia 18 de julho de 2013, e ao Comitê de Ética em pesquisa da Fundação de Ensino Superior de Olinda- FUNESO, sendo aprovado no dia 17 de julho de 2013 com CAAE: 12567613.9.0000.5194.

Resultados

Foi realizado o levantamento dos pacientes transplantados pela equipe da UTF entre os anos de 1999 e 2003. Nesse período foram transplantados 58 pacientes. Do total, 27 pacientes foram a óbito (causa não informada), 17 pacientes responderam ao instrumento de coleta de dados, 7 pacientes não realizam acompanhamento no HUOC, 4 pacientes são menores de 18 anos, 1 paciente não foi localizado, 1 paciente foi retransplantado e 1 paciente recusou- -se participar da entrevista (Figura 1).

Dos entrevistados (n = 17), 59% (10) são do sexo masculino, 47% (8) apresentam idade superior a 60 anos, 35% (6) foram transplantados com diagnóstico de hepatite C, 12% (2) por cirrose biliar, 12% (2) por cirrose alcoólica e 12% (2) devido a hepatite autoimune (Figura 1).

Os resultados fornecidos após a aplicação do SF- 36 mostraram a percepção dos pacientes em relação a seu padrão de vida, sendo obtidos resultados relativamente bons nos escore apresentados na tabela 1. Dos 17 entrevistados, 13 (76%) apresentaram capacidade funcional sem limitações, 9 (53%) relataram não ter limitações por aspectos físicos conseguindo exercer atividades físicas tais como caminhadas e natação, 13 (76%) relataram em sua auto-avaliação não apresentarem dor, 11 (64%) avaliaram estarem em boas condições saúde exercendo suas atividades rotineiras sem restrições rigorosas, 15 (88%) relataram boa vitalidade tratando-se da capacidade de desenvolver-se e da força vital, 14 (82%) relataram melhora em seus aspectos sociais, 12 (70%) não relataram limitações por aspectos emocionais estando em plena harmonia e autonomia, 15 (88%) apresentaram equilíbrio em saúde mental.





Discussão

O trabalho evidenciou que 35% dos pacientes foram transplantados por hepatite por vírus C. Dentre as causas de indicação ao transplante de fígado, estudos internacionais destacaram como principais doenças em adultos: cirrose causada pelo vírus da hepatite C, cirrose causada pelo álcool e cirrose criptogênica. (8)

Diante das informações obtidas, observamos que 70% dos transplantados não apresentaram queixas de limitação em suas atividades rotineiras, mantendo assim seu padrão de vida normal e em plena atividade social.

A maioria dos entrevistados não relatou dor alguma em sua autoavaliação. Percebemos então que, em longo prazo, a dor pode estar presente por outras patologias não relacionadas ao transplante. Persson F observou que o bem-estar está na ausência de fadiga, dores articulares e musculares, problemas de sono, problemas de humor, e preocupações sociais, bem como na ausência de impedimentos sobre o funcionamento cognitivo e ações básicas da vida diária. (9)

Nesse estudo não foram incluídas dimensões espirituais, porém o funcionamento físico e cognitivo, bem-estar emocional que determinam QV, foram cobertos. Segundo Gregório6, durante os primeiros seis meses após o transplante, a maioria dos componentes físicos e mentais relacionados com a QV melhora, mas esses aumentos não são sustentados no longo prazo. Persson F9 relatou que fatores que determinam a QV são emocionais, bem como o funcionamento físico e cognitivo. Assim sendo, as dimensões espirituais e socioeconômicas podem afetar todo o conceito de qualidade de vida.

Nove pacientes (53%) atingiram a pontuação máxima respondendo ter sua vivência social sem alteração, as atividades sociais não sofreram interferência por problemas físicos ou emocionais. O critério de resultado é o bem-estar por meio da QV relacionada à saúde, envolvendo componentes fisiológicos, emocionais, sociais e comportamentais. (10)

Observamos neste estudo que os pacientes apresentam o escore satisfatório, já que 88% chegaram a uma pontuação superior a 50 em relação à saúde mental comparada a outros estudos. Eles sentem-se felizes, realizados e agradecidos pela oportunidade de estares vivos. Andreas B11 relata em seu estudo que os receptores de transplante podem enfrentar grandes problemas relacionados à saúde mental em geral, referindo ser um fator de alto risco para a QV.

Um estudo realizado no ambulatório do Serviço de Transplante e Cirurgia de Fígado no Hospital das Clínicas em São Paulo entre agosto de 2005 e janeiro de 2006, com 126 pacientes atendidos regularmente, comparou a QV entre os indivíduos antes e depois do transplante e evidenciou uma melhora na QV no grupo de transplantados através da avaliação com SF-36. (12)

Conclusão

O transplante proporciona uma boa qualidade de vida ao receptor, como sugerido pelos escores alcançados pelos pacientes no questionário aplicado. Esta pesquisa nos mostra que o paciente continua com uma boa evolução referente à sua saúde a longo prazo, com manutenção de bom escore de QV após 10 anos.




Bibliografia
1. Barcelos S, Dias AS, Forgiarini Jr LA, Monteiro MB. [Liver transplantation: effects in pulmonary capacity, functional condition and quality of life]. Arquivos de gastroenterologia. 2008;45(3):186-91.
2. Aguiar MIF. Qualidade de vida pós-transplante de fígado em um Centro de Referência no Nordeste do Brasil [Tese]. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2014.
3. Bowling A, Gabriel Z, Dykes J, Dowding LM, Evans O, Fleissig A, et al. Let’s ask them: a national survey of definitions of quality of life and its enhancement among people aged 65 and over. International journal of aging & human development. 2003;56(4):269-306.
4. Santos SR, Santos IBC, Fernandes MGM, Henriques MERM. Elderly quality of life in the community: application of the Flanagan’s Scale. Rev Latino Am Enfermagem 2002; 10(6): 757-64.
5. Velarde JE, Avila FC. Methods for quality of life assessment. Salud Pública Méx 2002; 44(4): 349-61.
6. Gregorio MPS, Rodriguez AM, Bernal JP, Maldonado MD. Quality of life in spanish patients with liver transplant.ClinPractEpidemiolMent Health. 2010; 6: 79-85.
7. Ciconelli RM, Ferraz MB, Santos W, Meinão I, Quaresma MR. Tradução para a língua portuguesa e validação do questionário genérico de avaliação de qualidade de vida SF-36 (Brasil SF-36). RevBrasReumatol 1999; 39: 143-150.
8. Ruppert K, Kuo S, DiMartini A, Balan V. In a 12-year study, sustainability of quality of life benefits after liver transplantation varies with pretransplantation diagnosis. Gastroenterology. 2010 Nov;139(5):1619-29
9. Forsberg A,Persson L, Nilsson M, Lennerling A. The Organ Transplant Symptom and Well-Being Instrument - Psychometric Evaluation. Open Nurs J. 2012; 6: 30-40 2012.
10. Cruz L, Fleck M, Oliveira M, Camey S, Hoffmann J, Bagattini A, et al. Health-related quality of life in Brazil: normative data for the SF-36 in a general population sample in the south of the country. Ciência & Saúde Coletiva. 2013;18(7):1911-21.
11. Baranyi A, Krauseneck T, Rothenhausler HB; Overall mental distress and health-related quality of life after solid-organ transplantation: results from a retrospective follow-up study. Health Qual Life Outcomes. 2013; 8;11:15. doi: 10.1186/1477- 7525-11-15.
12. Gotardo D. Qualidade de vida e transplante hepático: avaliação em diferentes fases pré e pós cirurgia [Tese]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2007.