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Transplantes
Protocolo eletrônico para gestão de custos dos procedimentos de transplante hepático
Electronic protocol for cost management of liver transplant procedures


Clarice Fátima Miotto
Mestre em Clínica Cirúrgica pela Universidade Federal do Paraná, Enfermeira do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná - UFPR. Rua: General Carneiro, 181. Curitiba PR. Brasil. 80.060-900. clafamiotto@gmail.com
Sérgio Bernardo Tenório
Doutor em Medicina (Cirurgia Cardiovascular) pela Universidade Federal de São Paulo, Brasil. Professor adjunto da Universidade Federal do Paraná, Brasil. sbtenorio@gmail.com
Os autores participaram da concepção, delineamento, análise e interpretação dos dados, bem como da redação e revisão do artigo.

RBM Jul 16 N Especial L1
págs.: 2-10

Unitermos: Gestão em Saúde; Base de Dados; Análise de Custo em Saúde; Transplante
Unterms: Health Management; Database; Costs and Cost Analysis; Transplantation

Resumo

Objetivo: desenvolver um Protocolo Eletrônico para Gestão de Custos dos Procedimentos de Transplante Hepático, das etapas pré, trans e pós-operatório. Método: Trata-se de um estudo descritivo, retrospectivo e documental. Foram selecionados, no período de 1º de janeiro de 2009 a 30 de julho de 2010, 30 prontuários de pacientes submetidos a transplante hepático para a criação de uma base de dados por meio do Sistema Integrado de Protocolos Eletrônicos (SINPE©), contendo todas as fases do transplante hepático. Foram utilizados 17 prontuários para o cálculo dos custos. Resultados: A análise da base de dados mostrou que a média das idades dos pacientes da pesquisa variou de 22 a 67 anos e, a média do tempo de internação mais expressiva ocorreu no pós-operatório na Unidade de Transplante Hepático, constituindo também, a etapa mais onerosa. A utilização de hemocomponentes e hemoderivados ocupou o segundo lugar dos gastos com o transplante hepático. A estimativa do custo médio do transplante hepático foi de R$ 38.226, 34. Conclusão: A utilização do banco de dados permitiu calcular o custo do transplante hepático de cada paciente da coleta, por meio do protocolo específico, o qual facilita a padronização e a otimização do tempo da equipe assistencial, reduzindo os custos em geral.

Introdução

A informatização de dados nos serviços de saúde tem servido como suporte às práticas médicas de um modo geral, atualmente sendo utilizada no controle de custos dos procedimentos, como fonte de dados para pesquisas científicas, na assistência prestada ao paciente, auxiliando no gerenciamento da instituição e orientando protocolos médicos e de enfermagem1. Tradicionalmente feitos no papel, os registros dos pacientes e o armazenamento de informações são processos obrigatórios nas instituições hospitalares e estes, com o avanço da tecnologia, estão sendo realizados por meio de sistemas de informação. A implantação dos sistemas de informação nos serviços de saúde permitiu o uso das informações no planejamento e na pesquisa de inovações tecnológicas, possibilitando o armazenamento, análise de imagens, monitoramentos de dados, entre outros. Todavia, no Brasil, devido às dimensões continentais, há um variável grau de desenvolvimento em suas regiões, ou seja, existem instituições nas quais a Tecnologia da Informação está em estágio tão avançado quanto nos países desenvolvidos e, em outras, existem dificuldades na definição de um padrão mínimo (2).

Foram desenvolvidos protocolos informatizados para coleta de dados, dentro da linha de pesquisa denominada Informática Médica Aplicada à Área Cirúrgica implantada pelo programa de Pós-Graduação em Clínica Cirúrgica do Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná. Para gerenciar esses protocolos eletrônicos foi utilizado o Sistema Integrado de Protocolos Eletrônicos (SINPE©), que é um programa de computador capaz de armazenar e manipular os dados de uma base teórica, criado pelo Dr. Osvaldo Malafaia e registrado no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) sob o nº 00051543. Foi implementado no Laboratório de Informática e Multimídia do Programa de Pós-Graduação em Clínica Cirúrgica do Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná (UFPR) (3).

O SINPE© oferece maior acessibilidade, pois quando implantado, pode coletar todos os dados da prática hospitalar, visando levantamento de informações para trabalhos acadêmicos, bem como para demais finalidades4. Devido ao dinamismo da economia, a gestão de custos passou a desempenhar um papel importante no controle de gastos hospitalares, contudo, a utilização de informações neste âmbito ainda é insuficiente. É válido salientar que tais informações auxiliam diretamente na tomada de decisão, pois permitem a utilização racional dos recursos disponíveis (5).

O controle de materiais abrange desde a introdução de um novo processo de trabalho com seus insumos correspondentes, até a assistência prestada ao paciente, resultando na eficiência do serviço e do tempo disponibilizado6,7. A gestão utiliza a contabilidade de custos, buscando agilidade e confiabilidade das informações. Entretanto, com a utilização dos métodos tradicionais, a atualização, controle e investimentos médico-hospitalares e orientação de pesquisas são prejudicados.

A composição do sistema de custos deve ser de fácil entendimento, refletindo a relevância dos itens de cada procedimento. Os custos são classificados em diretos e indiretos, fixos e variáveis. Custo direto é o produto utilizado diretamente no referente procedimento, possibilitando controle preciso de variáveis como materiais médico-cirúrgicos e medicamentos utilizados, material de limpeza, salários e encargos de pessoal, entre outros. O custo indireto não permite medida objetiva e seu controle é feito por meio de rateio ou estimativas8. Corresponde a todos os itens que indiretamente contribuíram para a realização de determinado procedimento, como água, energia elétrica, serviço de higiene hospitalar, manutenção, entre outros (9).

Os custos fixos são os básicos e existem independentes do serviço prestado, como exemplo custos administrativos (manutenção, água, energia elétrica etc.). Já os custos variáveis acompanham a proporção da atividade, a quantidade de atendimentos, e o total aumenta à medida que ocorre aumento no número de pacientes atendidos (10).

A gestão de custos nos hospitais públicos representa uma racionalização da prestação de serviço, com economia dos recursos públicos, considerados escassos11. No estabelecimento hospitalar, a apuração dos custos deve contemplar não apenas cada tipo de serviço prestado, mas também a singularidade do paciente12. Desta forma, os gerentes dispõem de melhor embasamento, buscando aperfeiçoar a gestão dos custos por meio de informações precisas e confiáveis, com o uso de uma ferramenta de gestão financeira eficiente (11).

O atendimento do Hospital Universitário (HU) compreende a assistência à saúde da população, a formação de graduandos, pós-graduandos, residentes e o desenvolvimento de pesquisas, devendo ser constante a atualização da instituição frente ao uso de tecologias (13).

Segundo a Associação Brasileira de Hospitais Universitários e Entidades de Ensino (ABRAHUE), dos 125 hospitais reconhecidos como de ensino, 31 são hospitais universitários ligados a Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), e foram responsáveis em 2001 por cerca de 70% dos transplantes realizados no país14. Os HU são integrados ao Sistema Único de Saúde (SUS), o qual proporciona boa parte dos seus financiamentos. O SUS reembolsa os hospitais com base em tabela de preços para cada procedimento, não admitindo possível ineficiência, exigindo eficácia e eficiência na gestão dos recursos escassos (5).

O crescimento da demanda por serviços de saúde e o aumento dos custos são alguns fatores que contribuem para o aumento do interesse no monitoramento da qualidade e dos custos dos serviços de saúde15. No Setor Público há a tendência a atribuir os problemas de abastecimento dos serviços de saúde à insuficiência de recursos orçamentários e financeiros. No entanto, os desperdícios, a má utilização de insumos e prestação de serviços e a desatenção à logística são também causadores do desabastecimento nas organizações públicas de saúde (16).

Para que haja um gerenciamento eficaz da instituição, é fundamental quantificar produção e gastos, com a utilização de protocolos de procedimentos com objetivo de minimizar abusos, contabilizar gastos, nortear reposição de estoques e padronizar serviços. Desta forma, o setor hospitalar não difere de alguns setores da economia brasileira; sendo que, entre seus principais problemas, destacam-se a redução de investimentos na área e o mau gerenciamento dos recursos investidos (17).

Historicamente, a gestão de custos nos hospitais pretendia minimizar os custos a fim de aumentar a receita. Nesse contexto de reembolso efetivo do gasto do paciente, quanto mais o paciente gastava durante sua estada, mais o hospital recebia18. Hoje, a gestão de custos tem enfoque no planejamento, controle e auxílio na tomada de decisão (19).

Os transplantes constituem 85% dos procedimentos de alta complexidade realizados pelos SUS, resultando em um considerável custo20. A Lei 8.489, de 19/11/92, regulamentou os transplantes no Brasil e em 1997, foi publicada a Lei 9.434, regulamentada pelo Decreto Federal 2.268/97, que dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante e tratamento, revogando a lei 8.489/92 (21-23).

As Secretarias Estaduais de Saúde submeteram-se a um processo de reestruturação para viabilizar o maior número possível de doadores. Essa infraestrutura demanda custo, que é repassado para a Organização de Procura de Órgãos (OPO), por meio do SUS24. Para tal, o uso dos recursos da informática, referente a armazenamento e busca de dados, tem sido fundamentais na produção de estudos relevantes e confiáveis (25).

A utilização dos computadores na área da saúde teve seu início em meados de 1950.

Com o seu uso, obteve-se êxito gerencial no agendamento de procedimentos cirúrgicos (26).

O uso de protocolos é prática comum em muitas instituições de saúde para padronizar e uniformizar os procedimentos e informações do atendimento ao paciente. Devem ser capazes de captar e armazenar dados, possibilitando controle, análise, acompanhamento, além de contribuir para a tomada de decisões mais seguras e eficazes (27). A seleção dos itens que irão compor um protocolo é de grande importância, pois são utilizados na pesquisa para sistematizar e acessar dados (28).

O Sistema Integrado de Protocolos Eletrônicos - SINPE© foi utilizado em 2005 para desenvolver o primeiro protocolo em gestão hospitalar - Protocolo Mestre de Gestão em Saúde, com a intenção de ser aproveitado por diferentes profissionais. Na forma de um sistema articulado de informações, o SINPE© oferece subsídios ao processo de planejamento, acompanhamento e avaliação das atividades no hospital; visa solucionar algumas deficiências tipicamente encontradas em pesquisas, como a falta de padronização dos termos (29).

Neste contexto, este trabalho teve como objetivo desenvolver um Protocolo Eletrônico para Gestão de Custos dos Procedimentos de Transplante Hepático, das etapas pré, trans e pós-operatório.

Método

Estudo documental, retrospectivo e descritivo realizado no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, no município de Curitiba. Foram selecionados 30 prontuários para a confecção do protocolo, no período de 1º de janeiro de 2009 a 30 de julho de 2010, que continham as informações preliminares para a confecção da base de dados sobre o procedimento de transplante hepático. Foi realizada leitura detalhada dos registros referentes aos medicamentos, exames complementares, insumos, hemoterapia e serviços utilizados nas fases pré, trans e pós-operatória do procedimento de transplante hepático. A etapa do pré-operatório foi avaliada a partir da internação na Unidade de Transplante Hepático até o ingresso no centro cirúrgico; os dados do transoperatório foram pesquisados durante a realização do procedimento cirúrgico; o levantamento da etapa do pós-operatório foi analisado a partir da transferência para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Os dados gerados nos protocolos específicos foram armazenados em computador e analisados pelo módulo SINPE© ANALISE.

Com a criação da base de dados utilizando informações relevantes ao estudo, como a diária da Unidade de Transplante Hepático, foi realizada a informatização dos mesmos, por meio do software SINPE©. Desta forma, foram confeccionados os Protocolos Eletrônicos para as etapas pré, trans e pós-operatório do procedimento de transplante hepático. Em seguida, a base de dados foi incorporada ao SINPE©. O acesso é realizado através de login e senha, sendo este pré-definido pelo responsável do Protocolo. O acesso ao sistema ocorre por meio da verificação do tipo do usuário e permissão para o uso do protocolo.

Para a análise dos custos foram separados 17 prontuários dos 30 inicialmente utilizados para a confecção do protocolo, por apresentarem dados mais completos e pertinentes ao cálculo dos custos. A interpretação das informações coletadas possibilitou a demonstração do custo do procedimento de forma detalhada.

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos, da Instituição responsável sob parecer nº 2172.067/2010-03 e CAAE nº 0050.0.208.000-10.

Resultados

Na análise de 17 prontuários, o custo médio das diárias do procedimento de transplante hepático foi de R$ 12.670,47, o que corresponde a 34% do total. Os hemocomponentes e hemoderivados ocuparam o segundo lugar dos gastos com o transplante hepático, no valor de R$ 11.079,88, perfazendo 29%. Os grupos dos Medicamentos e Taxas ocuparam 9% cada um, com os valores médios de R$ 3.654, 38 e R$ 3.506,83 respectivamente.

A Média do Custo do Profissional Médico foi de R$ 2.850,02, que equivale a 7% do valor total. Os Materiais e SADT ficaram com 6% cada um, nos valores médios de R$ 2.289,76 e R$ 2.175,00. Uma limitação encontrada para alcançar os valores reais do procedimento e consequentemente estimarem o custo total e real do transplante, acontece devido tabelas fixas (Alta Complexidade do SUS) para os procedimentos e não necessariamente para o custo real deste paciente.

A média das idades dos pacientes da pesquisa variou de 22 a 67 anos. A média dos dias de internação na UTI durante o Pré-Operatório foi de 1,76 e de 0,53 na Unidade de Transplante Hepático. No pós-operatório foi de 6,5 dias na UTI e 8,2 na Unidade de Transplante Hepático. O pós-operatório foi a etapa mais onerosa do transplante hepático, com o valor de custo médio de R$ 23.843,97, seguida pelo transoperatório no valor médio de R$ 10.841,47. O valor médio do pré-operatório obtido foi de R$ 3.540, 89, conforme a Tabela 1.





O Gráfico 1 demonstra a distribuição de frequência relativa dos custos médios do transplante hepático no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná em 2010.

O Protocolo Eletrônico para Gestão de Custos dos Procedimentos de Transplante Hepático permitiu obter a estimativa do custo médio do transplante hepático, que foi de R$ 38.226,34.

Discussão

A produção da informação assistencial é parte importante dos processos de gestão da qualidade da assistência, pois impacta sobre todas as atividades desenvolvidas no hospital. É necessário que exista uma cultura institucional de valorização da informação, investimentos em informática e desenvolvimento das padronizações e registros2. Os sistemas de informação otimizam e aperfeiçoam a prática dos registros. A tendência mundial atual é a ênfase na adoção de protocolos multidisciplinares (30).

O uso de protocolos eletrônicos contribui para a redução de erros em coletas de dados e diminuição dos seus custos relativos, fornecendo informações padronizadas, acessíveis e seguras. O protocolo eletrônico permite realizar análise gerencial de resultados, facilidade de acesso em qualquer tempo e promove a integralidade das informações no processo de armazenamento e tratamento dos dados, por meio de uma matriz digitalizada (31).

Modelagem da base de dados

A necessidade de quantificar e descrever de forma precisa os insumos utilizados na realização dos procedimentos de transplante hepático, e que retratasse a realidade do HC-UFPR, foi o indicador desta pesquisa.

O método de custos atualmente utilizado no HC-UFPR é o custeio por absorção, em que cada serviço ou seção é denominado centro de custo. Essa metodologia permite que o custo unitário dos serviços seja obtido após a apuração dos custos diretos, indiretos, fixos e variáveis e seus respectivos rateios, seja entre seções, serviços ou departamentos (ou rateios interdepartamentais). Outro fator relevante considerado para a apuração do custo unitário dos serviços é a tabulação estatística dos dados enviados, que proporcionará relatórios que servirão de base para a alimentação do programa de custos.

O acompanhamento dos custos hospitalares permitirá a implantação de medidas corretivas que visem um melhor desempenho da instituição como aumento de produtividade, racionalização do uso de recursos, avaliação do desempenho, planejamento e tomada de decisões relevantes no presente cenário da assistência médico - hospitalar.

É importante destacar que todos os procedimentos gerados no HC-UFPR são pagos com base na tabela pré-fixada do SUS que se subdivide em serviços profissionais e hospitalares32. No primeiro constam os serviços dos profissionais médicos que atuaram diretamente no procedimento e no segundo estão embutidos os custos com material, medicamentos e alguns exames. Hemoderivados, permanência acima da estipulada pela tabela e exames mais complexos como tomografia, ressonância magnética entre outros, são pagos à parte.

Para a obtenção precisados dos custos é necessário, também, o estabelecimento de um fluxo de informações que abranja dados financeiros, tais como: despesas com pessoal, material de consumo, outras despesas correntes e dados estatísticos (9).

Como exemplos de custos fixos diretos no HC-UFPR cita-se o gasto com Recursos Humanos - Salários pagos pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), encargos sociais e benefícios; e com os Serviços Profissionais de Médicos, Docentes, Residentes, Estagiários e Bolsistas; Materiais Médico-Hospitalares, Medicamentos, Órteses, Próteses, Gases Medicinais, Gêneros Alimentícios, Material de Higiene e Limpeza, Material de Manutenção, Material de Expediente, Combustíveis/Lubrificantes, entre outros. Serviços terceirizados e de Manutenção e Conservação, Água / Esgoto, Energia Elétrica, Telefone, Depreciação Predial, Depreciação de Equipamentos, Impostos e Taxas são exemplos de Custos Indiretos (9).

O preço unitário dos produtos no HC-UFPR é geralmente abaixo do preço de mercado, pois as aquisições são feitas em grande quantidade. Os custos variáveis - medicamentos, materiais cirúrgicos, descartáveis, exames complementares, dentre outros, foram pesquisados diretamente no prontuário do paciente (33).

O transplante hepático foi o procedimento escolhido, por ser um dos mais complexos da atualidade. Ele representa um grande avanço terapêutico às doenças hepáticas crônicas e seu sucesso depende de uma completa infraestrutura hospitalar e de uma equipe multiprofissional preparada e comprometida.

O custo elevado do transplante hepático é influenciado por variáveis que refletem a complexidade do procedimento. As internações são dispendiosas, pois é necessário o uso de hemoderivados, hemocomponentes, medicamentos, equipamentos de alta tecnologia e intervenções cirúrgicas (34).

O procedimento é complexo e prolongado; no pós- -cirúrgico a previsão de permanência é de dois a quatro dias na UTI e dez a vinte dias na Unidade de Transplante Hepático35, o que contribui para elevar o custo do procedimento, tendo em vista o quantitativo dos insumos utilizados e as diárias de permanência hospitalar.

A análise dos prontuários foi complexa em virtude do volume dos dados registrados e não foram levantados os gastos com a retirada do fígado e com o acompanhamento no pós-transplante. Hepatopatia alcoólica e cirrose por vírus C foram os principais diagnósticos encontrados para a indicação do procedimento de transplante hepático. Da amostra pesquisada, quatro pacientes foram a óbito.

O valor médio do transplante hepático variou conforme as complicações pós-operatórias, o número de dias de internação hospitalar e a quantidade de transfusão de hemoderivados. O procedimento de transplante hepático é totalmente custeado pelo SUS. O valor repassado pelo Sistema Público é de R$ 68.838,89.

O custo médio do transplante hepático identificado pelo Protocolo Eletrônico para Gestão de Custos foi de R$ 38.226,34. Ressalta-se que em casos onde ocorrem complicações e que aumentam os dias de internação este valor poderá ser superior ao repassado pelo SUS.

A política de compra e cobrança diferenciada para as instituições públicas, principalmente para medicamentos, materiais descartáveis e exames, foi considerada, tendo em vista que o local da pesquisa é um hospital universitário público federal. A conduta dos profissionais interfere na eficácia dos custos. O comprometimento com a assistência ao paciente é necessário, a fim de evitar a prorrogação da permanência na internação.

A sensibilização da equipe quanto ao uso dos recursos hospitalares, à eficiência dos registros nos prontuários e à produção de dados, qualificará a assistência prestada, servirá para pesquisas acadêmicas e institucionais e evitará desperdícios, beneficiando a instituição.

Vale ressaltar que a sustentabilidade da assistência médico-hospitalar pública depende da adoção de diretrizes, metodologias e instrumentos voltados ao aumento da receita e à redução dos custos. Há uma necessidade urgente da construção de uma política de incorporação tecnológica e da regulação da oferta e da demanda por serviços de saúde. O Brasil tem sofrido com o aumento crescente nos gastos com a assistência à saúde e com o desperdício de recursos ainda não totalmente dimensionado. (36, 32)

O uso de protocolos informatizados

A aplicabilidade do protocolo informatizado no gerenciamento de custos hospitalares é uma ferramenta fundamental e indispensável para a instituição. Porém, no caso de uma instituição pública que está atrelada às diretrizes do SUS, esse controle ainda é pouco valorizado.

A implementação de protocolos médicos vem contemplar a necessidade de padrões e parâmetros, uma vez que pacientes complexos exigem atenção mais direcionada. Não devem existir prontuários mal preenchidos, informações desarticuladas, impossibilidade de obtenção e resgate de informações que viabilizem avaliações sejam elas clínicas, de custo, de produção ou de desempenho da instituição (9).

Ao consideramos as formas de registro, armazenamento, levantamento e organização de dados, o tema "Protocolo Informatizado" torna-se objeto de discussão. O protocolo eletrônico permite que a coleta de dados seja rápida e objetiva: qualidades indispensáveis na confiabilidade das informações, que depende dos profissionais de saúde, pois são eles que realizam a maioria dos contatos com o paciente.

O gerenciamento das informações por meio de protocolo eletrônico está bem fundamentado em trabalhos científicos (28).

Desenvolvimento do protocolo informatizado na base SINPE©

Confirmou-se a funcionalidade e a eficácia do SINPE© por sua portabilidade, acessibilidade, aplicabilidade e níveis de segurança definidos pelo sistema. O Protocolo Eletrônico para Gestão de Custos não pode ser modificado em sua estrutura original, apenas o usuário administrador habilitado pode alterar e inserir novos itens na base de dados. Isso evita que o programa seja alimentado com informações subjetivas que dificultam a posterior análise dos resultados na gestão em Saúde.

Após a definição do protocolo mestre e dos protocolos específicos foi possível exportar esses dados para um servidor, permitindo que o protocolo definido seja compartilhado com outros usuários ou instituições autorizadas. O programa também pode ser rodado em CD-ROM, o que permite que as informações coletadas e armazenadas no computador sejam transferidas de um centro para outro.

A ferramenta SINPE© ANALISE permitiu a mensuração de resultados práticos, como por exemplo, saber a quantidade de pacientes que utilizaram determinados tipos de agulhas. O SINPE© ANALISE não demonstra a quantidade de agulhas utilizadas porque esse protocolo foi criado com taxas. Apenas quando se realiza o extrato de coletas é possível visualizar a quantidade utilizada e o valor multiplicado pela unidade.

Os custos reais da assistência são parcialmente conhecidos, o que prejudica a gestão financeira das instituições e indica uma gestão hospitalar ineficaz. Grande parte dos hospitais públicos não utiliza um sistema de custos com parâmetros para o controle das atividades.

A ausência de um adequado sistema de informações contribui para o agravamento dessa situação (36).

A implementação de um protocolo eletrônico facilita a padronização e a otimização do tempo da equipe assistencial e contribui para a redução do desperdício de materiais. Tendo em vista que os itens utilizados no procedimento estão definidos, quantificados e com preço de custo, essa ferramenta proporcionará ao HC-UFPR a obtenção dos valores em cada etapa do procedimento. Além disso, o banco de dados informatizado facilita o acesso para atualização e inclusão de novos dados.

As maiores dificuldades na realização do presente estudo foram relacionadas à coleta de dados, pois os registros dos materiais e medicamentos utilizados no procedimento cirúrgico são ineficientes, dificultando assim, estabelecer os reais custos envolvidos.

O valor ressarcido pelos procedimentos realizados no HC-UFPR não sofre variação, pois é pré-fixado pela tabela do Sistema Único de Saúde - SUS, interferindo no compromisso da equipe assistencial com a qualidade dos registros.

A organização das informações, bem como, o comprometimento da equipe multidisciplinar facilitará um controle mais efetivo dos custos gerados pelos procedimentos realizados. O Protocolo Eletrônico para Gestão de Custos dos Procedimentos de Transplante Hepático é uma ferramenta que facilitará a obtenção dos custos reais destes procedimentos.

Conclusão

A base de dados com os itens utilizados no procedimento de transplante hepático foi criada com sucesso e o armazenamento de informações, criado por meio de um programa, foi viável.

O desenvolvimento dos protocolos eletrônicos específicos nas fases pré, trans e pós-operatório do procedimento de transplante hepático por meio do Sistema Integrado de Protocolos Eletrônicos (SINPE©), foram realizados com sucesso. Desta forma, as informações coletadas foram interpretadas e os resultados foram demonstrados, possibilitando a identificação do custo do procedimento de transplante hepático de cada paciente da coleta por meio do protocolo específico.




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