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Editorial
Novos caminhos para doenças clássicas
Vladimir Bernik
Editor Científico. Coordenador da Equipe de Psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
RBM Jul 15 V 72 N Especial H3

Algumas doenças em Psiquiatria fazem história e sempre formaram a base da
especialidade, desde o século passado. Duas delas, a esquizofrenia e o transtorno
bipolar, são exemplos de doenças que se estudam há décadas.
Os tratamentos básicos mudam muitas vezes apenas quanto aos fármacos utilizados,
mas nem sempre quanto aos conceitos. Estes podem até evoluir, mas
permanecem. Dos mais modernos, como a lamotrigina, aos mais tradicionais,
como o lítio. Os resultados, de qualquer modo, costumam ser recompensadores.
O tratamento da esquizofrenia, por exemplo, não apresenta grande complexidade,
mas a doença tem sido frequentemente muito malconduzida em termos terapêuticos
e os resultados às vezes não correspondem aos melhores, que se esperam
dos medicamentos da última geração. Estes, estão cada vez mais disponíveis
e seu custo também vem caindo progressivamente, não mais tornando o seu
emprego - mesmo a longo prazo - proibitivo para uma parte da população. Além
do mais, o apoio governamental tem facilitado muito o acesso de todas as camadas
sociais ao uso destes fármacos.
Contudo, os pacientes com esquizofrenia nem sempre apresentam resultados tão
satisfatórios quanto os esperados em seus tratamentos. O grande impedimento
ainda para o sucesso terapêutico se encontra em alguns fatores sociais baseados
principalmente na falta de conhecimento da população em identificar os sintomas
em tempo hábil e na demora de levar o paciente ao tratamento adequado,
quando medicamentos modernos podem ser prescritos, garantindo tanto o bom
resultado nas crises quanto a manutenção do equilíbrio emocional, livrando-o
dos riscos das desagradáveis recidivas.
Coube ao doutor Odeilton Tadeu Soares, mestre em Psiquiatria pela Faculdade de
Medicina da USP e coordenador da Unidade de Ansiedade e Depressão do Hospital
das Clínicas, analisar a evolução de pacientes esquizofrênicos. Em seu trabalho,
nesta edição, "Da detecção precoce ao tratamento - os sete pecados que
levam à cronificação" , o autor estabelece regras a serem seguidas, que evitem os
assim por ele chamados "sete pecados" no tratamento da esquizofrenia.
A leitura de um caso por ele exposto e suas complicações durante o tratamento
permite que se possa sentir a realidade da evolução de um quadro clínico, quando
estas regras se mostram essenciais para o sucesso da recuperação de um paciente.
E para evitar que os pacientes apresentem recaídas, já que a esquizofrenia, como
a maior parte das doenças psiquiátricas, requer uma constante supervisão e a
manutenção de tratamentos profiláticos, há necessidade dos tratamentos serem
bem conduzidos.
A leitura das sete regras estabelecidas pelo autor nos relembra as bases da terapêutica
em esquizofrenia.
Os 'sete pecados' cometidos em alguns tratamentos e que devem ser evitados
são os seguintes:
1. Demorar o início do tratamento;
2. Não atentar para os chamados fatores de risco para a esquizofrenia;
3. Não orientar pacientes e familiares sobre as características da doença, dos
medicamentos utilizados e de seus efeitos colaterais;
4. Prescrição de antipsicóticos típicos ou de primeira geração;
5. Não tratar os sintomas residuais atenuados;
6. Não realizar o tratamento de manutenção;
7. Não tratar os sintomas cognitivos e afetivos.

Para quem é médico psiquiatra as regras acima parecem óbvias. Contudo, não é isto que acontece na prática.
Muitos pacientes apresentam recaídas pela inobservância de alguns destes preceitos básicos.
Além do mais, a psicofobia de muitas famílias, fatores sociais e culturais influem no atraso dos tratamentos
e o não cumprimento adequado das recomendações do médico assistente.
O doutor Fabiano Bassetti B. Navolar, ex- professor de Psicofarmacologia e de Nosologia e Nosografia da
Faculdade Dom Bosco, de Curitiba, estuda a lamotrigina, um inibidor dos canais de sódio sensíveis a voltagem
e analisa as particulares características da lamotrigina, examinando os efeitos psiquiátricos de um
fármaco inicialmente empregado na Neurologia por ser, basicamente, um anticonvulsivante. Explica o seu
papel no tratamento dos estados afetivos e que se revela útil na prevenção de episódios depressivos.
O autor copia Ketter, Manji e Posto, em 2003, de que a lamotrigina estabiliza o humor 'de baixo para cima'.
Na revisão bibliográfica cita diversos autores comprovando que a sertralina e o ácido valproico acentuam o
efeito da lamotrigina, ao passo que os contraceptivos orais diminuem o seu efeito por acelerarem o seu
metabolismo. Este fato é importante de ser lembrado na prescrição de lamotrigina para pacientes do sexo
feminino em uso dos anticoncepcionais.
Revê o transtorno bipolar, segundo as normas do FDA e das agências britânica e canadense, ressaltando a
sua indicação como tratamento de primeira linha neste quadro psiquiátrico.
Já o doutor Ricardo César Torresan, da Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Botucatu (UNESP), descreve
relato de quatro casos de portadores de transtorno afetivo bipolar que utilizaram o lítio, de incontestáveis
efeitos nesta indicação de mais de 50 anos e no controle de recidivas.
Ressalta o autor o subemprego deste medicamento, em que o classicismo erroneamente o confunde com a
ideia de medicamento ultrapassado no tempo pelos mais modernos, quando o seu desempenho é praticamente
idêntico ao dos mais novos. E, ainda mais, pesa a favor do lítio o seu baixo custo e a sua disponibilidade
inclusive na rede pública.
Mesmo que a rede pública ainda não esteja disponível, deve observar-se que o seu baixo custo favorece as
populações de menor renda, nem por isso o lítio deixa de cumprir a sua função adequadamente e com
resultados terapêuticos plenamente satisfatórios.
Ressalta ainda o autor que não há comprometimento na esfera cognitiva e sem progressão de queixa ao
longo do tempo.

Também não foram observadas alterações de parâmetros laboratoriais inclusive se preservaram as funções
renal e tireoidiana.