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Pediatria Social
A relação entre o nível socioeconômico e a ocorrência de bullying escolar em crianças com fissuras labiopalatinas
The relationship between socioeconomic status and the incidence of school bullying in children with cleft lip and palate


Talita Fernanda Stabile Fernandes
Mestre em Ciências da Reabilitação (fissuras orofaciais e anomalias relacionadas). Assistente Social do Centro de Pesquisas Audiológicas do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo-USP, Bauru (SP), Brasil. Membro de um grupo de pesquisa criado em parceria com o Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru e Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, ambos da Universidade de São Paulo, Campus de Bauru
Mariza Ribeiro Feniman
Livre-docente. Professora titular do Departamento de Patologia e Audiologia Fala e Linguagem, Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo-USP, Bauru (SP), Brasil
Talita Fernanda Stabile Fernandes: Membro de um grupo de pesquisa criado em parceria com o Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru e Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, ambos da Universidade de São Paulo, Campus de Bauru. Neste
campus são desenvolvidas pesquisas científicas, atendimento clínico e tratamento cirúrgico de indivíduos com fissuras labiopalatinas, síndromes relacionadas e deficiência auditiva em diferentes faixas etárias, o que também ajuda a desenvolver o ensino e a extensão inserido em um contexto predominantemente acadêmico e de pesquisa.

Mariza Ribeiro Feniman: Publicou mais de 30 artigos e 10 capítulos de livros, principalmente nas áreas de audiologia diagnóstica em fissura labiopalatina; Diagnóstico audiológico em síndromes genéticas; O processamento auditivo; Audiologia Clínica; Processos e distúrbios da audição; A fissura labiopalatina; Audiologia infantil; O diagnóstico de distúrbios em anomalias craniofaciais: fissura labiopalatina e fissura isolada de palato; Aspectos pedagógicos e psicológicos em fissura labiopalatina e Prótese de palato.

Endereço para correspondência: Talita Fernanda Stabile Fernandes Endereço:
Rua Silvio Marchione, nº 3 -20 - Vila Nova Cidade Universitária - Bauru/SP - CEP: 17012-900 - Brasil. Telefone: +55 (14) 3235-8411/ Fax +55 (14) 3235-8130 E-mail: talitasfernandes@usp.br


Pediatria Moderna Dez 15 V 51 N 12
págs.: 435-442

© Copyright Moreira Jr. Editora.
Todos os direitos reservados.

Indexado LILACS/BIREME LLXP: S0031-39202015009400004

Unitermos: bullying; escola; classe social; fissuras labiopalatinas
Unterms: bullying; school; social class; cleft lip and palate

Resumo

Este artigo se propõe a identificar a relação entre o nível socioeconômico e a incidência de bullying escolar em crianças com fissuras labiopalatinas. Este é um estudo descritivo transversal, realizado em um hospital de referência para lábio leporino e fenda palatina e anomalias relacionadas. A população foi composta de 56 crianças na faixa etária de 7 a 12 anos, de ambos os sexos, com fissura de lábio e palato, inscrita no hospital e moradores da mesma cidade. Os dados foram coletados através de um instrumento de estudo socioeconômico, um protocolo de serviço social da instituição, aplicado aos pais dos pacientes no período entre outubro de 2012 e julho de 2013. A relação entre o nível socioeconômico e a incidência de bullying escolar foi identificado através de um método de análise descritiva. Os dados revelaram que o bullying escolar ocorreu com maior prevalência entre as crianças pertencentes aos níveis socioeconômicos baixos: inferior (20%) e superior (71%), 92% de alunos de escolas públicas regulares, 80% frequentam a escola fundamental incompleto I e 82% com fendas envolvendo lábio e palato simultaneamente (CLP). Em crianças com fissura labiopalatina, situações de bullying escolar estão relacionados com o baixo nível socioeconômico. Portanto, sugerimos a elaboração e execução, por parte da comunidade científica, de pesquisa e políticas públicas, a fim de prevenir o bullying escolar nas classes sociais de nível inferior, como uma estratégia de habilitação ou reabilitação psicossocial.

Introdução

O hospital de referência do estudo está localizado na região sudeste do Brasil e foi criado em 1976 como hospital especializado na habilitação e reabilitação de pessoas com fissuras labiopalatinas e anomalias relacionadas, com comprometimento estético, funcional, psicossocial e da comunicação oral. Tem uma filosofia de cuidado humanizado e tratamento por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), com reconhecimento nacional e internacional pela excelência nos serviços prestados e conta com aproximadamente cem mil pacientes matriculados, oriundos de todas as regiões do Brasil e alguns do exterior. As fissuras labiopalatinas são malformações que envolvem as estruturas do lábio e do palato mole e duro. Podem causar comprometimentos na comunicação verbal, em virtude dos disttúrbios auditivos e fonoarticulatórias, bem como na alimentação, anatomia odontológica, estética e nos aspectos educacional e psicossocial (Freitas et al., 2012). Neste contexto, a literatura revelou que indivíduos com fissuras labiopalatinas apresentam distúrbios de comunicação presentes na fala, linguagem e audição, muitas vezes devido à própria anomalia ou pela disfunção velo faríngea (Pegoraro-Krook, Dutka, Magalhães e Feniman, 2009). Entre a população atendida no hospital de referência do estudo há um número significativo de crianças com fissuras labiopalatinas que sofrem bullying em virtude da diferença funcional e física. Vivenciam a discriminação nos diferentes contextos da vida: familiar, escolar e social. Em relação ao contexto escolar, foco deste artigo, o assédio moral também é marcado pela ocorrência de comportamento social inadequado do agressor contra o agente que sofre a violência (de Oliveira & Gomes, 2012). A vítima, exposta às situações de humilhação e agressões físicas e emocionais, pode adquirir distúrbios psicossociais, como baixa autoestima, depressão, pensamentos, atitudes e violência explícita contra o agressor ou o ambiente social, como uma forma de autodefesa (Azevedo, Miranda, & Souza, 2013). Quanto ao tipo de assédio, Baldus (2011) o classificou em: Intimidação física: incluindo qualquer contato físico que persiste e pode ferir ou prejudicar uma pessoa. Bullying verbal: ofensa com palavras, ameaças verbais de violência ou agressão, comentários ofensivos ou piadas sobre uma pessoa, sua deficiência, religião, sexo, etnia ou condição socioeconômica. Bullying indireto: inclui a divulgação de rumores ou histórias sobre alguém (assuntos particulares). Cyberbullying: ocorre através do envio de mensagens, fotos ou informações através de meios eletrônicos, como computadores ou telefones celulares. Bullying emocional: comentários ou ações que ferem os sentimentos de outra pessoa, ridicularizando-a; são mais comuns entre as meninas. O assédio sexual ocorre com mais frequência em adolescentes e inclui comentários sexuais desagradáveis. Esta prática de bullying pode ser considerada assédio sexual. As pesquisas sobre bullying são recentes e têm ganhado notabilidade nos anos 90, especialmente com Smith and Sharp (1994); Rigby (1997); Olweus (1997). Nos últimos anos, as pesquisas incluíram, além bullying escolar, o cyberbullying, entendido como um assédio através de meios tecnológicos interativos (Paredes, Sanabria-Ferrand, González-Quevedo, & Moreno, 2010; Maldonado, 2011; Navarro & Yubero, 2012). Estudos sobre a influência do ambiente escolar e dos sistemas educacionais no desenvolvimento acadêmico da criança com fissura labiopalatina já foram realizados, mas também é necessário que tal influência seja observada sob a ótica da saúde (Ribeiro, 2009; Manoel et al., 2010; Domingues, Picolini, Lauris, & Maximino, 2011). Isso ocorre porque outros estudos também trazem a influência do bullying na reabilitação biopsicossocial de crianças com fissura labiopalatina (Pinto, Feniman, & Calais, 2009; Pinto et al., 2010). No processo de reabilitação se sabe que a escola é essencial para o desenvolvimento social de crianças e que o comportamento escolar pode resultar em um desempenho insatisfatório, além de comprometimentos na saúde física e emocional e sentimentos de insatisfação com a vida. As relações interpessoais favoráveis e o desempenho acadêmico estabelecem uma relação direta no ambiente escolar (Lopes Neto, 2005). Portanto, a aceitação pelos pares é fundamental para a saúde e desenvolvimento social de crianças com fissura labiopalatina, melhorando suas habilidades sociais e fortalecendo a capacidade de reação a situações estressantes. Embora Duro (2013) relatasse que o conflito não depende de status socioeconômico, a literatura enumera os fatores econômicos, sociais e culturais, aspectos inatos de humor e influências da família, de amigos, escola e comunidade, como riscos para a manifestação do bullying, e que impacta sobre a saúde e o desenvolvimento das crianças com fissura labiopalatina (Fondevila, 2008; Mendes, 2011). A partir dos achados bibliográficos da realidade escolar conflituosa vivida por crianças e adolescentes com fissuras labiopalatinas tratadas no hospital do estudo e do baixo nível socioeconômico da maioria desta população, questionou-se sobre a existência de uma possível relação entre o nível socioeconômico da família e a ocorrência de assédio.

A hipótese é que as crianças com fissuras labiopalatinas pertencentes às classes sociais baixas são mais vulneráveis à agressão ao serem inseridas nas escolas públicas brasileiras com insuficiência de políticas públicas para prevenir e lidar com a violência, com pouco incentivo para a inclusão social de crianças com deficiência e com falta de recursos educacionais e motivação para o trabalho por parte dos educadores. As famílias, por sua vez, enfraquecidas pela situação de desigualdade social que vivenciam, pouco se mobilizam para mudar esse cenário. Este estudo descritivo visa identificar a relação existente entre o nível socioeconômico e a incidência de bullying escolar em crianças com fissuras labiopalatinas, pacientes de um hospital especializado na área. Utilizou-se para coleta de dados um "Instrumental de estudo socioeconômico do Serviço Social" que se destaca como uma possibilidade de conhecer a realidade socioeconômica e cultural dos usuários, com o objetivo de compreender e intervir a partir de uma perspectiva da equidade e justiça social, a fim de garantir o acesso universal aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais (Graciano, 2013). Este trabalho tem a intencionalidade de investigar um determinado grupo, contribuir para uma intervenção global na temática bullying, vivida por uma grande população de crianças e adolescentes com fissuras labiopalatinas e outras deficiências.

Métodos

Participantes

A fim de compor a casuística deste estudo transversal descritivo, como critérios de inclusão se considerou os pacientes regularmente matriculados no hospital de referência na área, moradores da mesma cidade do hospital, com fissura labiopalatina com ou sem envolvimento de lábio, que passaram por cirurgia e estavam sob tratamento complementar, de ambos os sexos, com idades entre 7 e 12 anos no momento da coleta de dados e inseridos no contexto escolar. Assim, o universo é composto por 56 crianças.

Procedimentos

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do hospital de referência em fissura labiopalatina e anomalias relacionadas, de acordo com o protocolo nº 193.552. Os participantes foram selecionados a partir do sistema informatizado hospitalar chamado "Gandhi", que tem como principal informação do paciente: dados pessoais (nome, número de matrícula, data de nascimento, nome dos pais ou responsáveis legais, endereço e número de telefone), diagnóstico, situação de tratamento, procedimentos realizados ou programados, alta ou óbito. Posteriormente, foi agendado um atendimento com o pesquisador para a entrevista, conforme o retorno do paciente ao hospital. Para a coleta de dados, no período de outubro de 2012 a julho de 2013, os participantes do estudo assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e foi aplicado o Instrumental de Estudo Socioeconômico do Serviço Social (Graciano e Lehfeld, 2010; Graciano, 2013), por meio de entrevista com os pais ou responsável legal pelo paciente. A aceitação da participação na pesquisa por parte dos pais/responsáveis foi unânime, não havendo assim, a recusa em responder às perguntas da entrevista. Finalmente, após a coleta dos dados as variáveis foram tabuladas para facilitar o entendimento e a análise de dados. O Instrumental de Estudo Socioeconômico do Serviço Social é composto por cinco indicadores: situação econômica, número de membros da família, ocupação ou profissão, educação, situação e condições de habitação e estende-se a questões subjetivas envolvendo as expectativas com diagnóstico e tratamento, a família, a escola, a dinâmica profissional e social, ocorrência de preconceitos, apoio na reabilitação, recursos e serviços que são complementares à reabilitação na cidade de origem, terminando com um sistema de pontuação que permite a definição da classificação socioeconômica de cada família. Esta classificação ocorre em seis estratos, a saber: Baixo Inferior (BI), Baixo Superior (BS), Médio Inferior (MI), Médio (M), Médio Superior (MS) e Alto (A). Graciano e Lehfeld (2010) demonstraram os resultados gerais obtidos na definição da classificação socioeconômica de uma amostra (24.808 casos) no mesmo hospital de referência deste estudo, considerando os cinco indicadores (nível socioeconômico, número de membros da família, educação, ocupação e habitação). Com seu estudo foi possível compor a seguinte caracterização de diferentes estratos sociais, de acordo com o maior número de ocorrências para cada tipo de indicador: O estrato baixo inferior (BI), com um intervalo de 0 a 20 pontos, a maioria concentrada na faixa de renda de 1/2 a 2 salários mínimos (64,3%) e 2 a 4 salários mínimos (24,4%). O número de membros está concentrado nos intervalos de 3 a 4 pessoas (40,1%) e 5 a 6 pessoas (35,3%). Na educação as maiores taxas estão nos níveis fundamental incompleto I (27,9%) e fundamental incompleto II (25,0%). Quanto à habitação, há uma concentração maior para as seguintes condições: casa cedida (48,4%), própria (29,7%) e alugada (18,4%). Em relação à situação da moradia foi obtido de regular (36,0%) a insatisfatória (55,0%). Com relação ao nível ocupacional, a maior concentração está em trabalhadores assalariados rurais, volantes e semelhantes (34,8%), seguido por empregados domésticos, rurais ou urbanos (27,5%). O baixo superior (BS), com um intervalo de 21 a 30 pontos, encontra-se principalmente na faixa de 2 a 4 salários mínimos (41,3%) e 4 a 9 salários mínimos (33,8%). O número de membros está concentrado nas faixas de 3 a 4 (55,0%) e 5 a 6 pessoas (31,0%). Na educação as maiores taxas estão em níveis fundamental II incompleto (18,5%) e médio completo (30,5%). Quanto à habitação, há uma concentração maior para as seguintes condições: casa própria (39,5%), alugada (28,6%) e cedida (23,0%). Em relação à situação de moradia foi obtido regular (40,0%),e boa (39,8%). Com relação ao nível de trabalho, a maior concentração está nos trabalhadores assalariados de produção, bens e serviços (64,6%) e trabalhadores por conta própria (27,7%). O médio inferior (MI), em um intervalo de 31 a 40 pontos, tem a maioria na faixa salarial de 4 a 9 salários mínimos (28,0%) e 9 a 15 salários mínimos (43,3%). O número de membros está concentrado nas faixas de 3 a 4 (60,0%) e 5 a 6 pessoas (27,6%). Na educação as maiores taxas estão nos níveis médio completo (28,2%), e superior completo (45,0%). Quanto à habitação, há uma concentração maior para: casa própria (70,0%) e alugada (16,0%). Em relação à situação da moradia foi obtido bom (84,0%) e regular (16,0%). Com relação ao nível ocupacional, a maior concentração foi empregada em trabalhadores assalariados de produção, bens e serviços (32,3%); trabalhadores assalariados administrativos e técnico científicos (33,0%); e trabalhadores por conta própria (24,6%). O médio (M), com um intervalo 41-47 pontos, na maior parte tem rendimento de 15 a 30 salários mínimos (55,0%) e 30 a 60 salários mínimos (34,1%). O número de membros está concentrado nas faixas de 3 a 4 (64,0%) e 5 a 6 pessoas (28,0%). Na educação as maiores taxas estão no nível superior (universitário) (83,7%). Para a habitação existe concentração em casa própria (82,5%) e alugada (12,4%). Em relação à situação de moradia foi considerada boa (44,0%) e excelente (66,0%). Com relação ao nível ocupacional a maior concentração está em trabalhadores assalariados administrativos e técnicos- -científicos (39,0%) e profissionais liberais (29,0%). O médio superior (MS), com um intervalo de 48-54 pontos, encontra-se na faixa de renda entre 30 e 60 (24,6%) e 60 a 100 salários mínimos (54, 4%). O número de membros está concentrado no intervalo de 3 a 4 (56,0%) e 4 a 6 pessoas (33,3%). Na educação a taxa mais alta é nível superior (universitário) (79,6%). Quanto à habitação, há uma concentração maior para casa própria (81,0%). Em relação à situação de moradia foi considerada boa (19,0%) e excelente (81,0%). No que se refere ao nível de ocupação, a maior concentração ocorre nos empresários (36,0%) e profissionais liberais (34,0%). O alto (A), com intervalo de 55-57 pontos, situam em regra na faixa de renda de 60 a 100 (75,0%) e acima de 100 salários mínimos (25, 0%). O número de membros está concentrado no intervalo de 3 a 4 pessoas (75,0%). Na educação a taxa mais alta é nível superior (universitário) (75,0%). Quanto à habitação, há uma concentração maior para casa própria (75,0%). Em relação à situação da moradia foi considerada boa (25,0%) e excelente (75,0%). No que se refere ao nível de ocupação, a maior concentração ocorre entre os empresários (75,0%). Em relação ao presente estudo, este Instrumental de estudo socioeconômico (Graciano e Lehfeld, 2010; Graciano, 2013) é útil em termos da caracterização do perfil socioeconômico e cultural, dinâmica familiar e dados relacionados com a inserção escolar e social de crianças com fissura labiopalatina. Na variável nível escolar para este estudo se considerou o mesmo utilizado no estudo socioeconômico instrumental (Graciano e Lehfeld, 2010; Graciano, 2013) e determinada pela Lei 9.394 / 96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira), que classifica os níveis de ensino: - Pré-escola-primeira etapa da educação básica, oferecida em creches (para crianças até 3 anos de idade) e Pré-escola (idades 4-5 anos de idade), - Ensino fundamental: obrigatória para os alunos entre as idades de 6 e 14 anos. Constitui em nove séries e seu objetivo é a alfabetização. Ele é dividido em duas fases: - Ensino fundamental I (1º ao 5º ano) e Ensino fundamental II (6º ao 9º ano), - Ensino médio: com duração de três anos, para estudantes que tenham concluído o ensino fundamental - compreende o currículo em Português (incluindo Português e literatura brasileira), língua estrangeira (Inglês, Espanhol e Francês), História, Geografia, Matemática, Física, Química, Biologia, Filosofia e Sociologia; - Ensino superior: para alunos que tenham concluído o ensino médio, constitui uma graduação de dois a cinco anos ou por um período mais longo; o aluno receberá um diploma relacionado com a área profissional que estudou. Com base na Lei 9.394 / 96, a variável - tipo de escola - é representada por: educação especial - organizada para atender especifica e exclusivamente alunos com deficiência; inclui materiais, equipamentos e professores especializados; ensino regular: ensino e aprendizagem na escola, processo de instituições públicas ou privadas realizado em escolas autorizadas pelo Estado e regidas por leis específicas e gerais. Envolve a definição de objetivos e normas, princípios educativos e organização pedagógica. Para este estudo, no que diz respeito à ocorrência de bullying escolar, foi utilizada a classificação de Baldus (2011), como medida de assédio: físico, verbal e relacional (cyberbullying indireta e emocional) mencionado e definido na introdução. Considerada para análise, apenas a ocorrência de assédio nas escolas. Quanto à variável tipo de fissura foram incluídas neste estudo dois tipos: fissura labiopalatina; que afeta o palato primário e secundário estende-se do lábio a úvula, atravessa o rebordo alveolar e pode ser unilateral, bilateral (direita ou esquerda) ou mediana; fissura isolada de palato, quando afeta as estruturas do palato secundário, pode ser completa ou incompleta, dependendo da extensão anatômica alcançada (Freitas et al, 2012).



Análise de dados

A análise descritiva foi realizada para todas as variáveis. O método descritivo se refere à descrição da distribuição existente das variáveis, concentrando-se em dados e características de uma população, com ênfase nos fenômenos naturais e não na observação de situações controladas. Ao contrário da estatística inferencial, o método descritivo não tenta chegar a conclusões ou fazer inferências a partir dos dados disponíveis, mas sim iluminar áreas promissoras para pesquisas futuras, medir a importância e prevalência de uma dada situação, tendências e auxilia na criação de uma hipótese que pode, posteriormente, ser testada por outros métodos (Trochim, 2006).

Resultados

A Tabela 1 mostrou a prevalência da ocorrência de bullying em indivíduos pertencentes às classes socioeconômicas baixas: Inferior (20%) e Superior (71%), comparada a classe socioeconômica Média Inferior (9%), a qual não houve relatos de ocorrência do assédio. Na Tabela 2 se verificou que situações de bullying acontecem com prevalência em crianças pertencentes às escolas públicas regulares (92%), comparadas pertencentes aos outros tipos de escolas: privada regular (6%) e pública especial (2%). A Tabela 3 mostrou a ocorrência de bullying em maior prevalência nas crianças estudantes do ensino Fundamental incompleto I (80%) comparada com outros níveis de educação: Fundamental incompleto II (18%), e Educação especial (2%). Finalmente, na Tabela 4 nota-se que a ocorrência de bullying é mais prevalente em indivíduos com fissura labiopalatina (82%), comparada ao outro tipo de fissura que acomete alguns participantes deste estudo, a fissura isolada de palato (18%).



Discussão

A análise descritiva dos dados deste estudo sugere que a incidência de bullying escolar é prevalente em crianças pertencentes às classes socioeconômicas baixas: inferior e superior (Tabela 1), determinadas pelas condições socioeconômicas e culturais das famílias. Se por um lado estas classes socioeconomicamente mais baixas são predominantes nos pacientes do hospital de referência do estudo (Graciano e Lehfeld, 2010), por outro lado este resultado é oposto ao demonstrado na literatura, que revela ser nas crianças pertencentes às classes socioeconômicas altas, a maior ocorrência da prática de bullying (Duro, 2013; Rech, Halpern, Tedesco, & Santos, 2013). No entanto, concordamos com a literatura quando esta afirma que o conflito não depende apenas do nível socioeconômico (Duro, 2013), uma vez que não há nenhuma determinação afirmando que em escolas frequentadas por crianças de nível socioeconômico alto ou baixo a ocorrência da violência seja mais presente. O que existe são apenas evidências da literatura, conforme este estudo demonstrou. Os dados também sugerem que a ocorrência do assédio moral está presente em crianças pertencentes às escolas públicas regulares (Tabela 2) o que é consistente com a literatura, que traz as escolas públicas como alvo da ocorrência deste tipo de violência (Fabis, Damin, Loureiro, Santos, & Grossi, 2009). No caso deste estudo a prevalência de crianças em situações de bullying inseridas nas escolas públicas pode ser justificada pela baixa situação socioeconômica de suas famílias, o que impede sua inclusão em escolas privadas. Também ficou evidente que a violência verbal por meio de palavras agressivas, apelidos e isolamento social foram às ocorrências mais relatadas pelos pais / responsáveis legais pelas crianças com fissura labiopalatina e fissura isolada de palato participantes do estudo. Esta realidade vai ao encontro da literatura, quando enfatiza que nas escolas em que há ocorrência de bullying há uma predominância da violência verbal entre os assédios relatados (Duro, 2013). Quanto à violência verbal, os entrevistados disseram que ocorriam por meio de apelidos, como "dentadura", "porquinha", "nariz amassado", "boca torta", "pato", "boca de ganso", fanha-róirói" e também, houve relato de isolamento ou exclusão do grupo e indignidade da capacidade intelectual / cognitiva infantil por parte dos professores e colegas de escola. Esta situação resulta em uma desigualdade em nível tão exacerbado que a criança passa a ser visualizada como alguém que não pertence à mesma espécie, mas como uma "coisa" diferente (Bursztyn, 2007). Quanto ao nível de escolaridade (Tabela 3), nos casos de ocorrência de assédio moral houve predomínio de crianças inseridas no ensino Fundamental incompleto I, que inclui do 1º ao 5º ano ou ciclo de alfabetização inicial. Este resultado condiz com os achados da literatura, que mostra ser esta fase geralmente marcada por curiosidades, preconceitos, piadas vexatórias entre os pares (Garcia, 2006). E a inserção escolar merece atenção, sendo fundamental para o desenvolvimento social do sujeito e por ser o primeiro ambiente extrafamiliar de interação social da criança (Domingues, Picolini, Lauris, & Maximino, 2011). O estudo conclui que, nos casos com ocorrência de situações de bullying, o tipo de fissura predominante nas vítimas da agressão é labiopalatina - FLP (Tabela 4). Como a própria literatura revela, este tipo de fissura provoca um impacto significativo na fala (Campillay, 2012), audição (de Freitas Zambonato, Feniman, Quinhoneiro, & Maximino, 2009), aparência (Raposo-do-Amaral, Kuczynski, Alonso & 2011) e cognição (Feniman, Souza, Teixeira, & Mondelli, 2012), influenciando a situação de saúde e interação social da pessoa que a apresenta, não só em virtude da morbidade mas, principalmente, devido aos distúrbios emocionais, à estigmatização e à exclusão social, uma vez que interfere no desenvolvimento da autoestima, relações interpessoais e de integração socioeconômica e cultural (Coutinho, Lima, Kitamura, Ferreira Neto, & Pereira 2009). A reabilitação estética e funcional destes pacientes, portanto, requer atenção interdisciplinar que deve ser integrada e abrangente, contínua e especializada. Considerando as limitações deste estudo e as insuficientes evidências da literatura, sugerimos a elaboração de outros estudos relacionados com o tema e que possam contribuir com a realidade vivenciada pelas crianças com fissura labiopalatina e fissura isolada de palato em relação ao bullying escolar.

Conclusão

Neste estudo a incidência de bullying escolar em crianças com fissura labiopalatina estava relacionada com o status socioeconômico representado por classes sociais predominantemente baixas. É essencial, portanto, a investigação e execução, por parte da comunidade científica, de políticas públicas para prevenir o bullying escolar nas classes sociais de nível inferior, como uma estratégia de habilitação ou reabilitação psicossocial, juntamente com as escolas e uma rede eficaz de intervenção - famílias, escolas, centros de reabilitação, sociedade e poder público.

Declaração de conflitos de interesse

Os autores declaram que não há potenciais conflitos de interesses no que diz respeito à pesquisa, a autoria e/ ou publicação deste artigo.

Financiamento

Os autores não receberam nenhum apoio financeiro para a pesquisa, autoria e/ou publicação deste artigo.




Bibliografia
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