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Transplantes
Papel da enfermagem na manutenção de um potencial doador de órgãos em morte encefálica: uma revisão de literatura
Nursing role in the maintenance of a potential donor organs in brain death: a literature review


Fernanda Rodrigues Ferreira
Autora. Graduada em Enfermagem (URCA), Especialista em Programa Saúde da Família (FIP). nandafe2003@yahoo.com.br
Henrique Douglas Melo Coutinho
Coautor. Graduado em Ciências Biológicas (UFPB). Mestre em Genética (UFPB). Doutor em Farmacologia (UFPB). Professor efetivo da Universidade Regional do Cariri (URCA). Coordenador do Laboratório de Microbiologia e Biologia Molecular - LMBM/URCA. hdmcoutinho@gmail.com
Gioconda Morais de Andrade Bezerra Martins
Orientadora. Graduada em Enfermagem (URCA). Mestranda em Bioprospecção Molecular (URCA). Especialista em Programa Saúde da Família (FIP) e Gestão em Saúde (UECE). enfermeira_gioconda@hotmail.com
Universidade Regional do Cariri (URCA). Rua Cel. Antônio Luis, 1161,
Bairro Pimenta - CEP 63100-000 - Crato, CE - Brasil.
Telefone: (88) 3521-1677

RBM Jun 15 V 72 n esp l1
Transplantes
pags.: 12-19

Unitermos: cuidados de enfermagem, doador de órgãos, morte encefálica.
Unterms: nursing care, donor agencies, brain death.

Resumo

O diagnóstico de morte encefálica - parada total e irreversível da atividade cerebral - requer uma cuidadosa avaliação clínica e laboratorial do paciente a fim de constituí-lo um potencial doador. Nesse sentido, destaca-se a atuação do enfermeiro e sua equipe na manutenção deste paciente. O presente estudo trata-se de uma revisão bibliográfica acerca da temática em questão, construído a partir de categorias relacionadas com os cuidados de enfermagem diante do potencial doador. Conclui-se, portanto, que a assistência de enfermagem baseada em conhecimentos fisiopatológicos e nas necessidades do potencial doador é imprescindível para a viabilidade dos órgãos e para o sucesso da doação.

Introdução

O conceito de morte sofreu modificações ao longo do tempo, acompanhando os avanços científicos e tecnológicos que permitiram um maior conhecimento acerca desse processo.
Com o avanço de estudos, das técnicas de ressuscitação e de suporte vital, a atividade cerebral veio definir a vida e a morte do indivíduo, vinculando assim a morte a critérios neurológicos, evoluindo para o que conhecemos atualmente como morte encefálica (ME)1.
A determinação de ME varia de país para país. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina, na resolução CFM nº 1.480/97, que revogou a resolução CFM nº 1346/91, "define morte encefálica como a parada total e irreversível das funções encefálicas, sendo consequência de processo irreversível e de causa conhecida"2.
A resolução CFM nº 1.480/97 define ainda que: a morte encefálica será caracterizada através da realização de exames clínicos e complementares durante intervalos de tempo variáveis, próprios para determinadas faixas etárias, estabelecendo como parâmetros clínicos a serem observados para constatação de morte encefáliA resolução CFM nº 1.480/97 define ainda que: a morte encefálica será caracterizada através da realização de exames clínicos e complementares durante intervalos de tempo variáveis, próprios para determinadas faixas etárias, estabelecendo como parâmetros clínicos a serem observados para constatação de morte encefálica: o coma aperceptivo com ausência de atividade motora supraespinhal e a apneia2.
O diagnóstico de ME deve respeitar todas as orientações da resolução nº 1.480/97 do CFM, para todos os pacientes com suspeita de ME, independentemente da possibilidade de doação de órgãos3.
Após seu diagnóstico e havendo a possibilidade de doação de órgãos todas as medidas para manutenção prolongada do corpo devem ser seguidas.
Atualmente o transplante de órgãos e tecidos é alternativa terapêutica segura e eficaz no tratamento de diversas doenças, determinando melhoria na qualidade e na perspectiva de vida3.
No Brasil, o processo de doação de órgãos e tecidos se iniciou de forma desestruturada e fragmentada, ocorrendo em apenas alguns Estados do país.
A partir de 1968, com a publicação da lei de transplantes, vigorou o consentimento informado, no qual a decisão sobre a doação pertencia aos familiares do potencial doador. Esta lei foi aperfeiçoada com a promulgação da Lei nº 8.489/923.
O número de transplantes de órgãos sólidos se tornou significativo a partir de 1996, havendo a necessidade de criar o Sistema Nacional de Transplante (SNT), a fim de coordenar e regulamentar essa atividade4. De tal fato decorreu a Lei nº 9.434/97, também conhecida como Lei dos Transplantes, a qual, de forma geral, trata da disposição post mortem de tecidos e órgãos para fins de transplante, dos critérios para transplante com doador vivo e das sanções pelo não cumprimento da mesma. Foi regulamentada pelo Decreto nº 2.268/97, que estabeleceu também o Sistema Nacional de Transplantes (SNT), os Órgãos Estaduais e as Centrais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDOs).
A assistência ao potencial doador (PD) de órgãos e tecidos para transplantes, tão pouco conhecida pela população brasileira, é um processo fascinante por tratar-se da complexidade do cuidado com a vida e a morte5.
Essa assistência envolve muitos aspectos de suma importância, os quais devem ter atenção especial. Exemplo disso é o fato da ME acarretar uma série de alterações endócrinas, metabólicas e hemodinâmicas que levam à falência múltipla de órgãos, exigindo da equipe uma boa manutenção das funções vitais, a fim de assegurar estabilidade hemodinâmica e qualidade dos enxertos6. Destaque deve ser dado à equipe de enfermagem, uma vez que esta detém a responsabilidade pela vigilância contínua e manutenção de todos os parâmetros hemodinâmicos do potencial doador1.
Ressalta-se que o conhecimento sobre a ME é de fundamental importância para o enfermeiro, por ser o profissional responsável pela equipe de enfermagem elaborando e supervisionando os cuidados na manutenção do potencial doador, bem como para todos os profissionais de saúde que atuam na assistência desse paciente, pois, através desse conhecimento, a assistência pode ser planejada e executada pela equipe4.
Uma atuação baseada em cuidados direcionados e na vigilância constante pela equipe de enfermagem proporciona uma melhor assistência aos PD com consequente aumento da efetivação de doações, uma vez que se previnem paradas cardíacas antes da retirada dos órgãos garantindo a qualidade dos mesmos e aumentando as chances de sucesso no transplante.
Assim sendo, a partir do exposto no que concerne à importância do papel atribuído à equipe de enfermagem na manutenção da vitalidade dos órgãos de um potencial doador em ME, o presente trabalho será desenvolvido, propondo-se a discorrer, a partir da literatura pertinente, quais intervenções são cabíveis ao enfermeiro no momento em que o paciente já se encontra em quadro confirmado de ME, no qual apresenta os requisitos necessários para ser doador de órgãos, evidenciando-se também a importância assumida por esse profissional quando na assistência prestada ao paciente, vislumbrando a manutenção fisiológica de seus órgãos para potenciais doações.

Método

Trata-se de um estudo exploratório realizado por meio de uma pesquisa bibliográfica a qual "é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído de livros e artigos científicos"7.

Para tanto, fez-se uso de estudos pertinentes ao tema proposto, contemplando materiais de sociedades e conselhos da área em questão e artigos de periódicos. Houve restrição com relação ao idioma e a data de publicação, limitando-se aos trabalhos em língua portuguesa e publicados nos últimos dez anos, ou seja, entre 2004 e 2014. Foram utilizados os seguintes descritores: cuidados de enfermagem, doador de órgãos, morte encefálica.
Estes materiais foram apreciados por meio de leitura analítica e de síntese, classificando-os de acordo com categorias temáticas, quais sejam: Suporte Hemodinâmico, Suporte Ventilatório, Controle Térmico, Controle Glicêmico e Prevenção e Controle de Infecção.
Vale ressaltar que houve o comprometimento em citar os autores utilizados no presente estudo, conforme recomenda a NBR 6023 da ABNT, a qual dispõe sobre os elementos a serem incluídos e dá orientações acerca da compilação e produção de referências.

Desenvolvimento

A morte encefálica é o resultado final de um processo que se inicia com aumento da pressão intracraniana (PIC) devido à expansão do volume do conteúdo intracraniano. Com isso, há comprometimento do retorno venoso, seguindo-se de herniação do tronco cerebral pelo forame magno, elevando ainda mais a PIC, até cessar por completo a circulação arterial encefálica, culminando então na morte encefálica8.
Sua definição se iniciou em 1959, com a descrição do "coma depassé", que traduzia o ocorrido em indivíduos que apresentassem respiração assistida, arreflexia, perda irreversível da consciência e inatividade elétrica cerebral9.
Atualmente, a morte encefálica é conceituada como a parada total e irreversível da atividade do tronco e hemisférios cerebrais, respeitando-se a resolução nº 1.480/97 do Conselho Federal de Medicina, sendo necessários dois exames clínico-neurológicos e um exame gráfico-complementar (angiografia cerebral, eletroencefalograma, dentre outros). Nessa situação a função cardiorrespiratória é mantida através de aparelhos e medicações3.
Os pacientes que apresentarem coma arreativo e aperceptivo de etiologia conhecida e de caráter irreversível deverão ser submetidos a exames clínicos com o objetivo de detectar a ausência da função encefálica10.
Para a avaliação neurológica que irá confirmar o diagnóstico de ME, é preciso que o PD esteja hemodinamicamente estável e as situações de hipotensão grave, hipotermia, alterações metabólicas e uso de drogas depressoras do sistema nervoso central devem ser afastadas, pois podem alterar a avaliação. [...] O exame clínico neurológico deve ser repetido em duas ocasiões, obrigatoriamente por médicos diferentes e em intervalos de tempo de acordo com a idade do PD. Consiste em uma tríade diagnóstica: coma profundo, arreativo e aperceptivo; ausência de reflexos do tronco encefálico e constatação de apneia10.
Depois de cuidadosa avaliação clínica e laboratorial do paciente em ME e não se identificando contraindicações que representem riscos aos receptores, teremos um potencial doador3.
Porém, vale ressaltar que a ME é um processo que altera a fisiologia de todos os sistemas orgânicos.
Envolve uma série de perturbações neuro-humorais cíclicas que incluem alterações bioquímicas e celulares que conduzem a disfunção múltipla de órgãos, repercutindo na qualidade do órgão a ser transplantado, cuja viabilidade pode, então, ser prejudicada, tanto por alterações iniciais quanto tardias, as quais envolvem principalmente o comprometimento na sua perfusão, levando ao aumento de sua lesão isquêmica1.
Nesse sentido, os cuidados ao PD visam manter a perfusão adequada dos órgãos de modo a preservar e manter a viabilidade dos mesmos.
Partindo-se do pressuposto de que um único potencial doador em boas condições poderá beneficiar vários pacipacientes simultaneamente, o cuidado e a vigilância em relação a este paciente devem ser tão criteriosos quanto de qualquer outro da UTI.
De acordo com a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos - ABTO11, "cerca de 25% dos órgãos são perdidos durante o processo de manutenção do doador. De 10% a 20% dos doadores progridem para parada cardíaca durante esse período".
"Entre 2005 e 2012, houve aumento significativo no número de doadores efetivos"11, em consequência tanto do aumento do número de notificações de potenciais doadores quanto e, principalmente, pela melhora na manutenção da viabilidade destes. Fato este que reflete indiretamente na melhora da qualidade de vida dos receptores após o transplante.
Porém, uma realidade ainda é preocupante no nosso país, gerando uma grande mobilização das autoridades médicas brasileiras. Diz respeito às discrepâncias entre a demanda e a oferta de órgãos, a primeira prevalecendo sobre a segunda. O que se observa é que muitos dos problemas relativos à oferta de órgãos estão associados a falhas nos processos de reconhecimento da ME, na forma como se dá a abordagem familiar e déficits quanto à manutenção clínica do doador falecido.
Neste sentido, o enfermeiro da terapia intensiva deve conhecer as alterações fisiológicas em um paciente em ME e quais os cuidados específicos que deve ter com o mesmo para nortear a assistência da equipe de enfermagem. É imperativo, portanto, o contínuo envolvimento deste profissional na assistência ao PD já que isto refletirá decisivamente sobre os receptores.
Para assegurar que a perfusão tecidual seja otimizada, principal objetivo da manutenção adequada do PD, algumas condutas são recomendadas, representadas pelos seguintes monitoramentos: cardíaco contínuo, da saturação de oxigênio, da pressão arterial, pressão venosa central, do equilíbrio hidroeletrolítico e acido-básico, débito urinário e temperatura corporal3.
A partir do exposto, algumas medidas são indicadas, quando necessário, visando impedir ou controlar a ocorrência de anormalidades. Dentre elas se pode citar: reposição de volume, infusão de drogas vasoativas, adequada oxigenação, manutenção do equilíbrio acido-básico, manutenção da temperatura corpórea acima de 35ºC e prevenção e/ou tratamento de infecções3.
Nesse sentido, a enfermagem assume o principal papel na monitorização e manutenção desses parâmetros, as quais devem ser realizadas rigorosamente e, diante de quaisquer alterações, a equipe de enfermagem deve ser mobilizada, intervindo de imediato nas alterações tão logo sejam estas identificadas, buscando-se evitar, assim, uma parada cardíaca a qual irá por em risco todo o esforço até então empreendido no intuito de se consumar a doação.
Discorrer-se-á a seguir, de forma pormenorizada, acerca de alguns dos principais parâmetros que devem ser continuamente monitorados pelo profissional enfermeiro e sua equipe de enfermagem, objetivando manter o PD apto ao processo de doação de órgãos após diagnóstico de ME.

1. Suporte hemodinâmico
O objetivo do processo de cuidado é manter, cuidar e estabilizar o paciente em ME, no intuito de favorecer a doação de órgãos12. Neste sentido, em relação ao controle pressórico, não há evidências sobre o melhor nível de PA a ser alcançado nos potenciais doadores de múltiplos órgãos, há, no entanto, recomendações sobre o objetivo pressórico a ser atingido13.
Um dos cuidados de enfermagem na monitorização hemodinâmica consiste em manter a pressão arterial média acima de 65 mmHg ou pressão arterial sistólica acima de 90 mmHg, sendo, idealmente monitorizada de forma invasiva em todos os PD1.
A enfermagem deve manter observação e registro rigoroso, alertando toda a equipe quando da ocorrência de qualquer desvio da meta, administrando medicações conforme prescrição médica, evitando-se e/ou tratando-se picos hipertensivos ou hipotensão severa.
A hipotensão arterial ocorre com mais frequência do que a hipertensão em pessoas com ME, acontecendo em aproximadamente dois terços dos casos. Esta é a reação fisiopatológica mais grave da ME, juntamente com a extrema vasodilatação, que produz grande aumento da capacitância do sistema vascular, produzindo hipovolemia relativa, sendo a hipovolemia absoluta consequência das perdas sanguíneas pelo trauma, do uso de tratamento osmótico para hipertensão intracraniana, do Diabetes insipidus, além da diurese osmótica causada pela hiperglicemia e dos efeitos da hipotermia sobre a diurese, ocorrendo, assim, em virtude dessa hipovolemia, deterioração da função miocárdica com um colapso cardiovascular que ocasiona a hipotensão1.
Para se alcançar a meta pressórica mínima, as medidas terapêuticas a serem utilizadas incluem reposição volêmica com infusão de cristaloides 20 a 30 ml/kg (aquecido a 43º) em 30 minutos, podendo ser utilizada a medida da pressão venosa central - PVC para orientar a reposição volêmica, desde que não de forma isolada, e/ou infundir drogas vasopressoras ou inotrópicas13. Se busca manter a PVC nos parâmetros de uma pessoa normal, que deve ser acima de 120 mmHg14.

m relação à PVC, o enfermeiro deve atentar para a sua correta instalação, bem como para a obtenção periódica de suas medidas, a fim de orientar o médico acerca do volume a ser suportado pelo PD na reposição volêmica, observando-se ainda para tal alguns sinais clínicos e o balanço hídrico.
Embora se recomende o uso de cristaloides na reposição volêmica14, o uso destas soluções não está pacificado15.
Não há evidências convincentes de que cristaloides ou coloides sejam a melhor opção nessa situação. Soluções de Ringer com lactato são consideradas boas opções, em virtude de serem levemente hipotônicas. Quando a hipernatremia é muito grave, pode ser necessário utilizar solução fisiológica a 0,45%13.
A reposição volêmica deve ser realizada através de uma veia calibrosa, lembrando-se que as drogas vasoativas devem ser administradas em veias centrais, sempre se utilizando de vias exclusivas, evitando-se o uso concomitante de medicações e/ou reposição volêmica rápida pelas mesmas vias1.
Em caso de hipertensão, recomenda-se:
[...] iniciar tratamento farmacológico quando houver hipertensão (PAS > 180 mm Hg e PAD > 120 mm Hg ou PAM > 95 mm Hg) sustentada (30 minutos ou mais, ou lesão de órgão-alvo atribuível à hipertensão), podendo-se utilizar como terapia medicamentosa o nitroprussiato de sódio ou b-bloqueadores de curta duração15.
Deve-se dar atenção especial ao paciente em uso de drogas vasoativas, para que haja o controle rigoroso da vazão na bomba de infusão, ajustando-a de acordo com as respostas hemodinâmicas, evitando-se assim iatrogenias, garantindo ao paciente a dose necessária, a fim de corrigir os níveis pressóricos, tendo-se cuidado, ainda, no preparo e administração das medicações fotossensíveis, como o nitroprussiato de sódio.
Disritmias cardíacas são frequentes nos doadores e podem comprometer o débito cardíaco. Bradicardias podem exigir o uso de marcapasso, pois não respondem ao uso de atropina. Taquicardia é habitual14, portanto a monitorização eletrocardiográfica deve ser realizada com o intuito de se detectar presença de arritmias, para uma possível intervenção o mais precocemente possível1.
A manutenção da estabilidade hemodinâmica é de fundamental importância para a viabilidade dos órgãos. Nesse contexto, a enfermagem é a classe profissional responsável por fazer o controle de todos os dados hemodinâmicos do PD, advindo daí a necessidade do enfermeiro intensivista possuir conhecimentos técnico-científicos que envolvam a monitorização e as repercussões hemodinâmicas das medidas instituídas.
2. Suporte ventilatório
O cuidar de PD requer a manutenção de ventilação artificial, pois há alteração na troca gasosa em decorrência do edema pulmonar neurogênico, do trauma pulmonar, de infecção e das atelectasias16.
Todos os doadores com ME necessitam de ventilação mecânica controlada. Podem-se utilizar regimes ventilatórios controlados a volume ou a pressão14.
A adequada ventilação e, por conseguinte, oxigenação é permitida através de monitorização constante por meio da coleta de material para dosagem dos gases sanguíneos e do controle dos parâmetros do ventilador1, sendo recomendado ventilar todos os PD com pulmões normais, utilizando estratégia protetora, já que esta reduz a incidência de lesão pulmonar aguda15.
De modo geral, independente de ser ou não um PD, os pacientes em ventilação mecânica requerem alguns cuidados. A mobilização destes pacientes deve ser cuidadosa, a fim de se evitar o pinçamento do circuito e desconexões do ventilador. As traqueias do circuito devem estar sempre livres de água ou qualquer outra substância que venha a se acumular, objetivando-se evitar infecções respiratórias. Atenção especial deve ser dada aos parâmetros programados e aos alarmes, mantendo-os ajustados aos limites máximos e mínimos programados para eles5.
Observa-se que o enfermeiro deve estar sempre atento aos cuidados com a ventilação mecânica, uma vez que pode haver acúmulo de secreção na via aérea do paciente, levando a obstrução do tubo orotraqueal, o que aumenta o risco de uma parada cardiorrespiratória, pondo em risco todo o processo de doação, caso não haja intervenção imediata da equipe.

Portanto, medidas como manter a cabeceira elevada a 30º, realizar a higiene oral com clorexidina e a aspiração traqueobrônquica, entre outras, são medidas fundamentais para a prevenção de infecção e para a manutenção da permeabilidade das vias aéreas de todos os pacientes em ventilação mecânica na UTI, inclusive dos PD, sendo sua execução e supervisão atribuições de responsabilidade primordial da enfermagem.

3. Controle térmico
Nos cuidados para a manutenção do PD é importante salientar o controle da temperatura corpórea.
A hipotermia na ME é consequência de um processo fisiopatológico, o qual decorre da:
[...] perda do centro termorregulador hipotalâmico, desencadeando hipotermia que pode causar depressão do miocárdio, arritmias, diminuição do transporte de oxigênio, aumento da afinidade da hemoglobina pelo oxigênio, disfunção renal, pancreatite e coagulopatias, dentre outras disfunções que repercutem na qualidade do órgão a ser transplantado12.
Deve-se prevenir a hipotermia desde o início do manejo do PD, mantendo-se a temperatura central maior que 35°C, idealmente entre 36°C e 37,5°C, não se recomendando realizar irrigação vesical e peritoneal em doadores de órgãos15.
"No aquecimento do potencial doador se utilizam soluções aquecidas (37º-38ºC) para lavagens gástricas [...], para administração endovenosa, como também a instalação e controle de colchões e cobertores térmicos e a nebulização aquecida"1.
A melhor conduta para manter a temperatura diz respeito à prevenção da hipotermia, elencando algumas medidas que devem ser instituídas.
O ambiente e o leito devem ser aquecidos, assim como os líquidos infundidos no paciente. Depois de instalada a hipotermia se torna de difícil reversão, devendo-se adotar medidas de reaquecimento como: reaquecimento passivo externo: elevação da temperatura ambiente e o uso de mantas; reaquecimento ativo externo: imersão em água aquecida, lâmpadas de calor e mantas de ar quente; reaquecimento ativo interno: infusão de líquidos aquecidos (solução salina aquecida a 43ºC em acesso venoso), umidificação e aquecimento dos gases no ventilador mecânico (42-46ºC), irrigação gástrica e colônica com soluções cristaloides aquecidas; reaquecimento sanguíneo extracorpóreo: hemodiálise e dispositivos de circulação extracorpórea13.
Portanto, o controle rigoroso da temperatura (acima de 35°C) constitui papel prioritário da enfermagem, a qual deve se utilizar de todos os mecanismos possíveis para manter a temperatura do PD dentro dos parâmetros de normalidade, tendo em vista que a temperatura corporal consiste em um importante fator na manutenção e viabilidade dos órgãos para a doação, evitando-se inclusive, paradas cardíacas precoces induzidas por hipotermia.
É importante que o enfermeiro tenha conhecimentos específicos para que os órgãos a serem doados estejam em temperaturas e estados adequados à ação do transplante. Esses conhecimentos possibilitam que o profissional exerça positivamente seu papel no processo do transplante17.

4. Controle glicêmico
Na ME, a secreção de insulina também está comprometida, podendo produzir hiperglicemia. Aliado a isso, há o aumento da resistência periférica à insulina1. Nestes casos é necessário corrigir a hiperglicemia com infusão rápida e contínua de insulina, para manter os níveis de glicose no sangue em torno de 150 mg/dl18.
Deve-se "monitorizar a glicemia capilar pelo menos a cada 6 horas [...] e mais frequentemente sempre que iniciar infusão contínua de insulina, devendo esta ser iniciada e guiada por protocolo se o nível glicêmico for > 180 mg"15.
A hiperglicemia "deve ser controlada realizando-se dosagens seriadas de glicose sanguínea. Se isto não for possível, a equipe deve realizar o controle de glicemia capilar, no mínimo, de quatro em quatro horas"19, diminuindo-se os intervalos se houver persistência do distúrbio.
Embora haja divergências acerca da periodicidade, o fato é que uma monitorização adequada da glicemia permite um controle mais eficaz dos níveis glicêmicos, cabendo a cada instituição estabelecer seu protocolo de controle da glicemia capilar, com base nas recomendações científicas pertinentes.

Ressalta-se que, estando o paciente em uso de insulina em bomba de infusão contínua, conforme protocolo interno da instituição, a monitorização da glicemia deve ser, portanto, mais rigorosa, podendo haver controle glicêmico de hora em hora, de acordo com os valores obtidos, com o intuito de se atingir o melhor ajuste da dose de insulina em uso e, consequentemente, o controle dos níveis glicêmicos, evitando-se tanto hipoglicemias como hiperglicemias.

5. Prevenção e controle de infecção
"Precauções universais devem ser tomadas para impedir as complicações infecciosas"1. Outros cuidados importantes se dirigem para o rigoroso controle de assepsia e o cuidado com a higiene corporal para que diminua os riscos de infecção16.
A possibilidade de infecção não constitui motivo para se interromper os cuidados com o PD.
A infecção está presente em 25% dos PDs, não constituindo contraindicação para o transplante, no entanto, recomendam que todos os PDs devem ser investigados quanto à presença de agentes infecciosos20.
Na vigência de um processo infeccioso deve-se15:
Manter ou iniciar antibioticoterapia no potencial doador falecido caso haja indicação clínica e informar a coordenação de transplante da possibilidade clínica da infecção, não contraindicando de forma absoluta a doação de órgãos e não interrompendo a manutenção do doador falecido com base em culturas positivas ou diagnóstico clínico de infecção, contraindicando o transplante de órgãos nos casos de infecção bacteriana não controlada definida pela equipe clínica que assiste o doador falecido.
A enfermagem, por estar mais próxima do paciente e ser responsável pelo acompanhamento e registro dos seus sinais vitais, pode identificar precocemente alterações sugestivas de infecção e a presença de sinais flogísticos em lesões e locais de dispositivos invasivos, decorrendo daí a necessidade de se manter técnica asséptica na realização de procedimentos, tais como na colocação e manuseio de sondas/cateteres.
Na prevenção e controle de infecções toda a equipe é corresponsável, devendo não só aderir às precauções-padrão, tal como se fosse atender qualquer outro paciente, como também alertar a equipe quanto a qualquer sinal de infecção, para que esta tão logo intervenha, evitando-se prejuízos na doação.

Considerações finais

O processo de doação de órgãos envolve várias etapas, nas quais a enfermagem possui papel decisivo em todas elas.
O enfermeiro contribui desde a identificação de um paciente sugestivo de morte encefálica, participando da realização de todos os testes clínicos da avaliação neurológica para confirmação de ME, até os cuidados com o PD e sua preparação para a captação dos órgãos pela equipe de transplantes. Logo, a assistência de enfermagem ao potencial doador se torna imprescindível para o sucesso da doação.
O PD necessita de cuidados específicos com o intuito de manter a viabilidade dos órgãos por meio da perfusão adequada. Neste paciente a preocupação deixa de ser com a perfusão cerebral e passa a ser com a dos demais órgãos passíveis de transplante.
Nestes cuidados, o enfermeiro deve estar atento e manter vigília constante aos sinais de instabilidade que possam repercutir negativamente no processo doação-transplante. Para isso, este profissional necessita ter conhecimentos acerca das questões legais e éticas, bem como das alterações fisiopatológicas decorrentes da ME.
O enfermeiro capacitado disporá de embasamento técnico-científico que lhe permita o reconhecimento precoce de intercorrências para uma intervenção rápida e eficaz, como também lhe será permitido o planejamento direcionado da sua assistência e de sua equipe de enfermagem, com o intuito de se otimizar a manutenção do PD, atentando sempre para quaisquer disfunções capazes de comprometer a viabilidade dos órgãos e às respostas do paciente às medidas terapêuticas instituídas.

A partir da realização deste trabalho, observou-se que os cuidados de enfermagem ao PD em ME vêm sendo objeto de estudo em virtude do reconhecimento da sua importância e do impacto que uma assistência de enfermagem de qualidade detém na manutenção fisiológica do PD e no sucesso do processo de transplantes como um todo.
Portanto, diante da escassez de doadores e mais ainda de órgãos viáveis para o transplante, constata-se que o objetivo da assistência de enfermagem, como também sua importância, reside em otimizar a perfusão tecidual, assegurando a viabilidade dos órgãos e, consequentemente, aumentar a qualidade e o número de órgãos captados. Surge daí a necessidade de se direcionar as atenções a esse paciente com a mesma dedicação que se dispensaria a qualquer outro paciente com possibilidade de recuperação.




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