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Editorial
Projeto PANDORA: uma visão atual sobre a percepção da depressão no Brasil
Vladimir Bernik
Editor Científico. Coordenador da Equipe de Psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
RBM V 72 N ESP H2
Neuropsiquiatria

Trabalhamos diariamente com pacientes deprimidos já que a sua prevalência é alta, cerca de 20% entre os já doentes e os que ainda não o são ou não foram adequadamente diagnosticados.

Todos sabemos a importância da depressão no cenário médico, mas ainda nos apegamos a conceitos bastante antigos sobre a percepção da doença entre os pacientes, seus familiares e a sociedade. Mas o mundo, em contínua evolução, deve ter modificado alguns destes conceitos ou até os perpetuado e tornando-os como verdades incontestáveis.

Além de nos apegarmos ao que já sabemos não estávamos incorporando novos dados socioculturais por falta de informações. Muito se trabalha e atualiza na área científica e, consequentemente, até na terapêutica.

Sabemos dos preconceitos inerentes às doenças psiquiátricas e até da depressão que começa a ser mais aceita. Mas ainda ignorávamos o quanto existe de desinformação e de mitos e falsas verdades a seu respeito. Sabemos que esta é uma realidade, mas não sabemos quantificá-la para melhor atuar e resolver.

Não sabíamos. Mas agora já sabemos. E com dados e com números altamente significantes apurados por pesquisa em campo feita por meio de um instituto de pesquisa de alto conceito, o Datafolha. No mês de março de 2014 foi realizada uma pesquisa em campo e escolhidas as pessoas que de algum modo estavam com depressão, o que resultou numa amostra de 222 pacientes.

O professor Edson Shiguemi Hirata, Diretor Clínico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, debruçou-se sobre estes números e os analisou detalhadamente e deles extraiu conclusões que balançam alguns dos nossos conceitos, confirmam outros e muitas vezes contradizem o que há tempos considerávamos como verdade incontestável.

O projeto PANDORA, reunindo três fascículos do estudo sobre a Depressão, analisa a percepção do paciente sobre a depressão (o primeiro) , a percepção do familiar sobre a depressão (o segundo) e o estigma quanto à depressão (o terceiro e último), publicados recentemente nas edições de outubro e dezembro de 2014 e em fevereiro de 2015, editados agora num só e único fascículo, que será leitura obrigatória de todo médico, especialista ou não, que queira informar-se adequadamente sobre a realidade social da depressão, analisada por diferentes pontos de vista. Uma edição que vale por toda uma atualização sobre conceitos e preconceitos, cujo valor das informações será inabalável por muitos anos e que deverá ser guardada e colecionada por todos os médicos que se interessam pelo tema. Na medida em que nos aprofundarmos na leitura do trabalho de pesquisa até os médicos mais distantes da realidade desta patologia psiquiátrica vão passar a se interessar mais por ela, pois - mais cedo ou mais tarde - terão diante de si um paciente com depressão já diagnosticada ou outro que eles passarão a identificar e a encaminhar para tratamento especializado o quanto antes.

A sua leitura será também de primordial importância ao médico que de alguma forma, próxima ou mais afastada, tem um familiar com depressão. Vai passar a entendê-lo melhor, a se entender como parente do mesmo e sentir o que a sociedade acha do paciente deprimido. Com todos os seus conceitos errados e preconceitos já arraigados no imaginário popular quanto a esta doença. Aliás, que, como aparece no estudo anexo, nem todos consideram como doença. Muitos acham que é "frescura", termo comumente encontrado entre os entrevistados pelo Datafolha.

Curiosamente, uma verdade aparece percentualmente citada. Apesar de ainda haver até médicos que reticentemente fazem questão de ignorar a depressão e todas as doenças psiquiátricas, no quesito de quem informou o paciente sobre a sua depressão, ainda é o médico que aparece em primeiro lugar com 72% das citações, seguido pela Internet e sites com 43%. O rádio, com apenas 5%, é o que menos conscientizou os seus ouvintes quanto à necessidade de assumir a doença e o seu tratamento.

O grau de demora da família em perceber o estado depressivo do paciente também é preocupante, pois mais da metade dos familiares ouvidos ´demorou um pouco´ para perceber a alteração de humor do mesmo. A grande causa dos atrasos em tudo e em geral, segundo a pesquisa, é a desinformação, retardando o diagnóstico em 6 meses ou mais e complicando o tratamento da depressão.

A proporção dos pacientes também sofreu um forte desvio já que 88% eram mulheres e 12% eram homens. Estes números fogem dos convencionais, que consideram a prevalência maior nas mulheres (só 54%) que nos homens (46%). A idade média também fugiu do esperado, pois a grande maioria desta amostra de população estava na faixa entre os 46 e os 60 anos (40%) e muitos (18%) tinham mais de 60 anos de idade. Mesmo assim metade continua trabalhando atualmente (50%).

A maior parte (51%) procurou o médico espontaneamente e o psiquiatra foi o médico mais consultado, por 47% das pessoas. O clínico geral, com 18%, foi o segundo, o que mostra a necessidade de se estender mais o conhecimento sobre a depressão para os clínicos e médicos de família. Na medida em que os serviços públicos aparecem como os mais procurados, logo de início, cumpre estender a recomendação de que os médicos dos diferentes serviços governamentais de saúde sejam incluídos numa campanha de conscientização como o são os psiquiatras, que aperfeiçoam constantemente os seus conhecimentos, e os clínicos que devem ser incluídos com prioridade.

Alguns conceitos correm soltos na sociedade e atingem os familiares de pessoas com depressão. Parte deles mostra que a presença e o apoio de familiares é importante e que a tristeza do paciente repercute sobre os familiares. Outros conceitos são francamente contraproducentes como considerar a depressão uma ´frescura´ do paciente e, consequentemente, sem importância. Bem como que a religião e fé, por si só, curam a doença.


Os próprios pacientes, que já sentiram rejeição ao seu quadro, procuram escondê-lo. Muitos, segundo a pesquisa, relutam em procurar tratamento médicos e preferem ir a um psicólogo: este é um erro que o paciente comete, por desinformação ou por procurar fugir do diagnóstico da depressão pelo seu estigma social procura um psicólogo, que ainda é "socialmente mais aceitável" que um psiquiatra, especialista exatamente indicado para o caso. Nada menos de 38% dos pacientes acham que a depressão é meramente um distúrbio psicológico e daí o psicólogo é a solução. O psicólogo pouco poderá fazer ele por si só, já que análises a nada levam e só agravam o quadro depressivo, as comportamentais só valem se apoiadas em medicamentos específicos, os antidepressivos. Pena que alguns profissionais por falta de conhecimento ou por onipotência achem que poderão sozinhos resolver um caso clínico grave de depressão. Aliás, com ressalvas, já que, segundo a própria pesquisa, o risco de suicídio é alto.

Finalmente, para podermos entender melhor este tipo de comportamento, vamos ater-nos ao terceiro capítulo do trabalho PANDORA, que a Eurofarma ajudou a financiar, o estigma social da doença.

O próprio paciente já se sentiu rejeitado ou criticado em seus comportamentos, resultando na tentativa de ocultar o quadro, o diagnóstico e o seu tratamento, pois existe na sociedade um elevado percentual (67%) de não aceitação da depressão, fazendo-o tentar se esconder e a esconder o seu quadro clínico com medo desta rejeição social.

Colocando a depressão sob o ângulo de uma visibilidade transparente, o resultado, em última instância, do estudo PANDORA facilitará a inclusão do deprimido e a aceitação da depressão pela sociedade como uma doença séria, preocupante e que deve ser tratada por um médico especialista o mais precocemente possível para que se possa desfrutar de toda a segurança que a moderna Medicina oferece.