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Transplantes
Análise dos transplantes de medula óssea realizados em Pernambuco no período de 2011 a 2012
Analysis of bone marrow transplants carried out in Pernambuco in the period 2011-2012


Danielle Cristina Pimentel Cabral
Enfermeira. E-mail: daniellecabral10@gmail.com
Regina Celly Pereira da Silva
Enfermeira. E-mail: reginacellypereiradasilva@yahoo.com.br
Ana Catarina Torres de Lacerda
Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente. E-mail: anacattorres@hotmail.com
Jackeline Maria Tavares Diniz
Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente. E-mail: jack_td@hotmail.com
Débora Bruna Barbosa Guedes
Pós-graduada em Suporte Avançado à Vida: Emergência e UTI. E-mail: dbinha2409@hotmail.com
Central de Transplantes de Pernambuco - Departamento de Enfermagem.

RBM Transplantes Dez 14 V 71 n esp l1
págs.: 2-10

Unitermos: transplante de medula óssea, mieloma múltiplo, transplante autogênico e transplante alogênico.
Unterms: bone marrow transplantation, multiple myeloma, allogeneic transplantation and autogenic transplantation.

Resumo

O câncer hematológico afeta a funcionalidade da medula óssea, causando distúrbios na produção dos componentes sanguíneos. Entre os fatores predisponentes para o surgimento desta neoplasia estão os agentes físicos e químicos, a idade e o histórico familiar. A malignidade hematológica pode ser combatida por drogas antineoplásicas ou recorre-se ao Transplante de Medula Óssea (TMO). Objetivo: Analisar os TMO no Estado de Pernambuco, no período de 2011 a 2012. Metodologia: Estudo observacional, descritivo e de coorte, com abordagem quantitativa dos TMO realizados em Pernambuco no período de 24 meses. Contaram-se como amostra 274 transplantados e os dados foram coletados através de tabelas descritivas disponibilizados pela Central de Transplantes de Pernambuco. Resultados: Ao traçar um perfil dos transplantados, encontrou-se que 51% dos submetidos ao TMO tinham como origem o estado de Pernambuco; o sexo masculino foi o mais acometido pelas neoplasias hematológicas, 53%; 22% dos pacientes tinham entre 40 e 49 anos de idade. Como órgão financiador, o Sistema Único de Saúde possuiu maior prevalência, pois financiou 93% dos transplantes, porém ocorreu um predomínio das unidades privadas para a inscrição e realização do TMO no Estado. Como neoplasia mais incidente encontrou-se o mieloma múltiplo 41% e a modalidade TMO autogênico foi a mais realizada 62%. Como resultado final, constatou-se que 52% dos transplantados foram a óbito. Conclusão: Aponta-se para a necessidade de um maior número de publicações sobre o tema, pois conhecendo o público assistido pode-se adotar medidas específicas para aumentar a taxa de sobrevida/cura dos transplantados, além de proporcionar novos conhecimentos para a melhora do procedimento TMO.

Introdução

O câncer compreende um amplo grupo de doenças que possuem em comum a presença de células neoplásicas. O câncer hematológico afeta o funcionamento normal da medula óssea, causando alterações na produção dos componentes do sangue, como acontece nas leucemias e linfomas 2.

Alguns fatores podem causar uma maior predisposição ao câncer, como a genética, hábitos alimentares, estilo de vida e condições ambientais. Em relação às neoplasias de origem hematológica podem ser citados como fatores predisponentes a radiação ionizante, agentes químicos e ainda o histórico familiar (2).

No período de 2012 a 2013 esperava-se cerca de 518.510 novos casos de câncer no Brasil. Ao analisar o subtipo do câncer hematológico leucemia em Pernambuco (PE), são estimados o surgimento de 330 novos casos, já para a capital Recife a expectativa é de 30 novos casos para o sexo masculino e 50 novos casos para o sexo feminino (2).

As neoplasias de origem hematológica podem ser combatidas por drogas antineoplásicas, cujo objetivo é destruir as células danificadas sem lesar as células normais ou pode-se recorrer ao transplante de medula óssea (TMO). Sabe-se que o TMO é um procedimento capaz de tratar diversas patologias onco-hematológicas, tais como anemia aplásica grave, mieloplásia, linfomas e alguns tipos de leucemias, como a leucemia mieloide aguda (LLA), leucemia linfoide aguda (LLA) etc. O TMO objetiva o restabelecimento da normalidade funcional da medula comprometida, para que ocorra novamente a produção de células sanguíneas sem alterações (3).

Como origem as células-tronco podem ser obtidas da medula óssea, do sangue periférico ou ainda do sangue do cordão umbilical e placenta. Basicamente existem três tipos de possibilidades para a realização do TMO; na modalidade autóloga as células-tronco periféricas são retiradas do próprio paciente, armazenadas e reinfundidas após o regime de condicionamento quimioterápico. No transplante singênico as células tronco hematopoiéticas proveem de gêmeos idênticos, e para o transplante alogênico a medula óssea é retirada de um doador previamente selecionado por testes de histocompatibilidade. Normalmente a compatibilidade genética ocorre entre familiares (aparentados), mas caso a histocompatibilidade não ocorra recorre-se ao banco de medula óssea (2).

Para a realização do transplante de medula óssea é importante analisar que o Brasil é um país com alta variabilidade genética, ou seja, a probabilidade de se encontrar o mesmo padrão genético (com exceção de gêmeos homozigotos) é infinita. Cerca de 30% dos pacientes realizam o TMO alogênio aparentado, pois se encontra um doador compatível entre os membros da família.

Por não haver doador compatível, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), em 2013, 1200 pessoas aguardam a realização do TMO heterólogo, a esse grupo cabe recorrer ao Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (REDOME). Criado no ano de 1993, cujas instalações se encontram no INCA, cabe ao REDOME reunir as informações do possível doador, criando um banco de dados que é acessado pelo receptor que não disponha de um doador aparentado. Caso ocorra compatibilidade, articula-se a possibilidade da doação (2).

O número de doadores voluntários tem aumentado expressivamente nos últimos anos. Em 2000, havia apenas 12 mil inscritos no REDOME, atualmente há mais de dois milhões de possíveis doadores inscritos e o percentual de transplantes heterólogos, cujos doadores foram encontrados pelo REDOME, subiu de 10% para 70% (2).

Segundo a Central de Transplantes de Pernambuco (CTPE), o estado é líder no norte e nordeste. Atualmente a região ocupa a 6º posição no ranque de transplantes no país, chegando a ocupar o 5º lugar do ranque no primeiro semestre de 20135. Para o TMO em PE, pode-se afirmar a ocorrência de um crescimento, pois foram realizados no ano de 2011, 112 procedimentos e esse número passou para 162 transplantes no ano de 2012, uma elevação de 45%. Até o presente momento foram realizados 1.238 TMO. Este crescimento também é relevante quando se compara PE a outros Estados, no ano de 2012 o Estado do Rio Grande do Sul, realizou 98 transplantes (6).

A cura para as neoplasias é estimada em taxa de sobrevida, o TMO possui uma taxa de sobrevida média de cinco anos, neste período a patologia pode ou não desaparecer completamente. Para um desfecho positivo, variáveis como tipo da doença, idade, presença ou não de comorbidade, tempo entre o diagnóstico e o tratamento, escolha da terapêutica ideal devem ser analisadas (3). Porém neste estudo as variáveis presença ou não de comorbidade e tempo entre o diagnóstico e o tratamento não puderam ser analisadas por ausência de informações no banco de dados.

O acompanhamento sistemático dos pacientes permite a comparação entre instituições ou Estados e estabelece referências de qualidade que sirvam a todos e os resultados guiam a elaboração de estudos de intervenção ou protocolos. Porém, essa realidade ainda não é possível em Pernambuco, pois há apenas dois anos essa estatística é realizada. No Brasil há apenas episódicos relatos consistentes que deem conta de indicadores como sobrevivência em cinco anos (7). Logo, torna-se importante analisar os TMO realizados em PE.

Buscando identificar e traçar um perfil social, clínico, financiativo e patológico dos transplantados, o presente estudo possui o objetivo de analisar o TMO no Estado de PE no período de 2011 a 2012.

Método

Trata-se de um estudo observacional, descritivo e de coorte, com uma abordagem quantitativa, dos TMO realizados no Estado de Pernambuco, no período de 2011 a 2012.



A Tabela 1 ao mostrar o sexo, idade e procedência dos pacientes submetidos ao TMO nos últimos 24 meses em Pernambuco, revela que o sexo masculino é o mais acometido por neoplasias, 53%. Em relação à idade constatou-se que 22% dos transplantados tinham entre 40 e 49 anos. Sobre a procedência, 51% dos pacientes pertenciam ao Estado de Pernambuco, 33% de outros estados da região Nordeste, 7% de Estados do Norte do Brasil e 9% dos registros ignoraram essa informação.



Siglas: HEMOPE Fundação Centro de Hematologia e Hemoterapia de Pernambuco; RHP: Real Hospital de Beneficência em Pernambuco; HMSJ: Hospital Memorial São José; IMIP: Instituto Materno Infantil de Pernambuco; *Outros: pacientes que realizaram o procedimento de forma particular (privado).

Em relação ao órgão financiador dos procedimentos, 93% dos transplantes realizados em Pernambuco durante os anos estudados foram financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Sobre as instituições responsáveis pela inscrição e realização do procedimento, o Real Hospital de Beneficência em Pernambuco (RHP) obteve destaque.


Os dados foram coletados através de tabelas organizacionais disponibilizadas pela Central de Transplantes de Pernambuco, órgão que funciona desde 1994, e que possui a função de documentar e articular a realização dos transplantes de órgãos e tecidos. Apenas os dados referentes aos anos de 2011 a 2012 estão disponíveis, pois até 2010 não havia nenhuma estatística sobre este tipo de transplante, bem como o acompanhamento dos pacientes submetidos ao mesmo. A amostra foi composta de 274 transplantados.
Os dados foram coletados através de um instrumento de coleta de dados estruturado e elaborado pelas pesquisadoras, contendo informações sobre: o perfil social, clínico, financiativo, patológico e o desfecho do TMO após 24 meses de seguimento do paciente em PE. Os dados foram analisados quantitativamente por frequência simples. O projeto de pesquisa que originou este trabalho foi aprovado sem restrições pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Agamenon Magalhães CAEE: 18592213.6.0000.519.

Resultados

No período de 2011 a 2012, 274 pacientes foram submetidos ao Transplante de Células Tronco Hematopoiéticas (TCTH).

Os dados demográficos revelam que o sexo masculino é o mais acometido pelas neoplasias hematológicas, 53%. Entre os receptores de TMO, 22% tinham entre 40 e 49 anos de idade. Sobre a procedência, 51% dos pacientes pertencem ao Estado de Pernambuco, 33% são de outros Estados da Região Nordeste, 7% provem da região Norte e 9% dos registros ignoraram essa informação.

Ao analisar o órgão financiador, 93% dos transplantes realizados em Pernambuco foram financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O Real Hospital de Beneficência em Pernambuco (RHP) obteve destaque como a instituição que mais inscreveu e realizou o TMO no Estado, 78%.

Quando analisamos as patologias mais incidentes nos transplantados pode-se observar que o mieloma múltiplo possui uma maior incidência, correspondendo a 41% dos casos, seguido pelo linfoma de Hodgkin 12,5% e LMA que acometeu 10% dos transplantados.

A modalidade de transplante autogênica foi realizada em 62% dos pacientes, seguido pelo tipo alogênico aparentado 29% e alogênico não aparentado com 5%, as demais modalidades aconteceram em apenas 2 casos. Os irmãos foram os principais doadores em 96,25%, seguido por um percentual pequeno entre os demais parentes.

Ao avaliar o desfecho dos transplantes no período estudado se pode concluir que 52% dos transplantados foram a óbito, 40% permanecem vivos sendo monitorizados pela Central de Transplantes de Pernambuco ou por outras fontes, 1% sofreu rejeição e 1% também se submeteu a novo transplante.


Gráfico 1 - Patologias mais frequentes entre os pacientes submetidos a TMO, em Pernambuco 2011-2012. Recife-PE, 2013.
*Outros: patologias com incidência menos que 1% (leucemia linfoide crônica, linfoma linfoblástico, linfoma folicular, síndrome de Poems, amiloidose, neuroblastoma, hemoglobinúria P.N, linfoma cutâneo de células T).

A partir do Gráfico 1 observa-se que o mieloma múltiplo possui uma maior incidência, correspondendo a 41% dos casos.


Discussão

De acordo com Brunner & Suddarth8 e Taveira et al.9, as neoplasias hematológicas são mais frequentes entre os homens, achado este semelhante ao encontrado neste estudo. Ao descrever a estimativa para os anos de 2012 e 2013, o INCA2 mostrou que em PE a incidência do câncer hematológico tipo leucemia é maior no sexo masculino, 3,82%, em comparação com o sexo feminino 3,69%. Em outras capitais do Nordeste esta estimativa também se repete. Segundo o INCA2, as causas para o desenvolvimento de uma neoplasia hematológica não são bem conhecidas, mais se acredita que exposição a agentes físicos como os raios ionizantes, e elementos químicos, como o benzeno, contribuem para o surgimento das neoplasias hematológicas, tornando o sexo masculino mais vulnerável.

Segundo Brunner & Suddarth8, a taxa de transplantes para a faixa etária de 0 a 19 anos é pequena, pois a terapia quimioterápica para este grupo possui bastante sucesso. Em PE a taxa de transplantes realizados ficou em torno de 2% a 8%, reafirmando o sucesso da terapia quimioterápica para este grupo.

Neste estudo se pode observar um pico da realização do TMO entre as médias de idade de 40 a 59 anos, este achado peculiar é comprovado pelos tipos de neoplasias hematológicas mais incidentes no estado. De acordo com Pallota et al.10, Brunner & Suddarth8, e Silla et al.11, as neoplasias mieloma múltiplo, doença de Hodgkin e leucemia mieloide aguda (doenças mais frequentes em PE) possuem uma incidência elevada com aumento da idade (40 a 60 anos), este achado comprova a maior realização do TMO para está faixa etária.


Gráfico 2 -Modalidade dos TMO, em Pernambuco 2011-2012. Recife-PE, 2013. * Outros: modalidade de Transplante não conhecida pela Central de Transplantes de PE.
Sobre a modalidade de transplantes realizados em PE, 62% foi do tipo autogênico, 29% do tipo alogênico aparentado, 5% alogênico não aparentado, as demais modalidades aconteceram em apenas 2 pacientes nesses 24 meses.



Gráfico 3 - Caracterização do grau de parentesco na modalidade de transplante alogênico aparentado em Pernambuco 2011-2012. Recife-PE, 2013. *Outros: parentes como tios e tias, tendo parentesco de 1º grau.
A partir do Gráfico 3 nota-se um predomínio dos TMO realizados entre irmãos 96,25%, seguido por um percentual pequeno entre os outros parentes.


A realização do procedimento para a faixa etária maiores de 60 anos foi pequena neste estudo, ficando em torno de 12%. Segundo Campos3 é importante destacar que os riscos da remissão medular sempre aumentam com a idade, indivíduos com mais de 65 anos raramente são submetidos ao TMO.
A maior parte dos transplantados advém do próprio Estado de PE com a incidência de 51%, e isso se deve em parte a sua importância no cenário dos grandes centros de transplantes do país. Segundo Beltrão (12), ao analisar o TMO no Estado do Pará, o autor revela que mais de 50% dos transplantados procediam da região metropolitana e do nordeste do Estado, demonstrando que a maior parte dos pacientes que realizam o procedimento provém das áreas mais próximas do centro de referência hematológica do Estado. Corroborando com os dados aqui encontrados.

De acordo com a Secretária de Saúde do Governo de PE, atualmente apenas na capital Recife existem centros credenciados para a realização do TMO, o interior do Estado é contemplado apenas com unidades de hemocentros responsáveis pela captação de doação de sangue e hemoderivados, tornando desta forma um centro de referência, inclusive para regiões vizinhas. Atualmente não há previsão para a implantação de um centro responsável pela realização do TMO no interior de PE, porém o governo investe em transporte e casas-dia (casas de permanência) para oferecer um melhor tratamento aos pacientes (13).

Neste estudo pode constatar-se como órgão financiador um predomínio do SUS, com o financiamento de 93% dos transplantes realizados em PE. Este achado é comprovado pela atual política de saúde brasileira, pois de 2010 a 2012, o investimento do governo federal em Oncologia passou de 1,9 bilhão para 2,1 bilhões de reais. Houve também a criação da lei nº 12.732/12 que assegura aos pacientes com câncer o início do tratamento em até 60 dias após a inclusão da doença em seu prontuário (lei dos 60 dias). Está lei visa não só tratar adequadamente, mas em tempo hábil (14).

Além das mudanças já citadas, o Ministério da Saúde ao priorizar a atenção integral instituiu também a política nacional de atenção oncológica em que o paciente é tratado em todos os níveis de atenção a saúde. Ao nível primário, a prevenção das neoplasias, ao secundário, o diagnóstico e em nível terciário, o tratamento especializado, reabilitação ou oferta de cuidados paliativos. Para este nível de atenção ocorreu uma expansão no rol dos medicamentos de alto custo ofertados gratuitamente pelo SUS. A inclusão de drogas biologicamente modernas propicia uma maior chance de cura para os pacientes com neoplasias hematológicas (14). Esses incentivos comprovam o predomínio do SUS, como órgão financiador dos TMO.

A Agência Nacional de Saúde suplementar (ANS) em 2010 incluiu na lista dos procedimentos ofertados pelos planos de saúde os TMO alogênicos. O TMO autólogo já fazia parte dos procedimentos realizados pelos planos de saúde, pois este procedimento é mais simples. Atualmente no Brasil existem 15 centros credenciados para a realização da modalidade TMO alogênico não aparentado; com a inclusão de instituições independentes de financiamento do SUS, novos leitos serão incorporados ao programa de transplantes de medula óssea, o que significa mais agilidade do procedimento. Em PE, 6% dos transplantes realizados foram financiados por convênios de saúde, este discreto incremento, de novos leitos para o TMO oferece mais uma oportunidade de escolha para os pacientes portadores de distúrbios hematológicos 15.


Gráfico 4 - Situação dos transplantados após 24 meses do procedimento em Pernambuco 2011-2012. Recife - PE. * Outros: pacientes que abandonaram o tratamento ou que não há informações após o transplante.
O Gráfico 4 revela o desfecho dos transplantes, onde 52% dos transplantados foram a óbito, 40% permanecem vivos sendo monitorizados pela Central de Transplantes de Pernambuco, ou por outras fontes, 1% sofreu rejeição e 1% também se submeteu a novo transplante.


Sobre os órgãos responsáveis pela inscrição e realização do procedimento no Estado, nota-se um predomínio de instituições privadas que recebem o repasse do SUS, ao comparar-se com a única unidade pública do nordeste responsável pela realização do procedimento. Segundo setor realizador do TMO no Hemope, esta perda de espaço no cenário TMO no Nordeste deve-se as dificuldades econômicas. Ainda segundo o Hemope até o momento para o ano de 2013 foram realizados apenas dois transplantes, o que comprova os achados deste estudo, pois no período analisado o serviço realizou apenas 4% dos transplantes comparando-se as instituições privadas, que juntas totalizaram 96% dos procedimentos no Estado (16).

Ao analisar as patologias mais incidentes nos transplantados, o mieloma múltiplo foi o mais prevalente, seguido por linfoma de Hodgkin e leucemia mieloide aguda. O mieloma múltiplo é uma patologia maligna que acomete os plasmócitos. Geralmente a morte é causada por infecções e o sintoma clássico é a dor óssea. A incidência dessa neoplasia aumenta com a idade, sendo raramente encontrada em pacientes com menos de 40 anos (8). De acordo com Pallota et al. (10), são evidenciados 14 mil casos ao ano de mieloma múltiplo e o transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH) autólogo é a estratégia fundamental para o avanço na terapêutica desta patologia, porém ainda não existe a cura, mas há o aumento da sobrevida global (18).

O linfoma de Hodgkin afeta o funcionamento do sistema linfático8, esta neoplásica possui um bom prognóstico, pois há uma boa resposta ao tratamento, tendo com isso uma elevada taxa de sobrevida (19). A leucemia mieloide aguda é caracterizada por uma alteração na produção das células sanguíneas, nesta malignidade todos os grupos etários são acometidos, tendo uma maior incidência para a faixa etária média de 40 a 60 anos (8).

O TMO é uma modalidade terapêutica que oferece a possibilidade de cura para os pacientes portadores de distúrbios hematológicos. Para ser submetido ao procedimento, o paciente deve receber um tratamento quimioterápico, tendo como meta a ablação completa da medula óssea8. As células-tronco podem ter como origem o próprio paciente (TMO autólogo), um familiar (TMO alogênio aparentado), ou ainda de um doador desconhecido (TMO heterólogo).

Neste estudo ocorreu um predomínio do TMO autogênico ao comparar-se com o TMO alogênico aparentado. Este achado se confronta com as afirmações dos autores Meinerz (20), Brunner& Suddarth8 e Sabaya (21), os mesmos ressaltam que o TMO alogênico aparentado é a modalidade de transplante que possui maior incidência e sobrevida global. Este tipo de transplante é bastante utilizado por possuir uma identificação genética rápida e fácil e por não haver a chance de reinfundir células-tronco alteradas (TMO autólogo) (8).

Portanto, o predomínio do TMO autólogo em PE pode ser explicado por duas vertentes teóricas, primeiro, segundo o autor Bittencour et al.(19), a tendência atual é reservar a modalidade TMO autólogo para os casos de neoplasias mais agressivas e conforme identificado neste estudo, o tipo de neoplasia mais incidente foi o mieloma múltiplo, patologia bastante agressiva que não possui cura, e se indica como modalidade terapêutica que pode aumentar significativamente a sobrevida global o TMO autólogo (10). A segunda vertente que pode explicar o predomínio do TMO autólogo possui relação com a alta miscigenação racial do Estado. Para que o TMO seja bem sucedido é necessário que entre outros fatores haja compatibilidade genética e nesta modalidade por utilizar células do próprio paciente, a probabilidade de rejeição ao transplante é reduzida, mas o risco de recidiva da doença é mais elevado (8).

Como já citado anteriormente, o TMO oferece aos pacientes chances reais de cura, pois ao realizar a remissão completa da medula óssea "alterada" e infundir novas células-tronco advindas de um doador compatível se espera a geração de um lento e saudável processo de retomada da hematopoiese (8). Mas para que este procedimento proporcione a cura, a compatibilidade genética é essencial. Ao analisar o grau de parentesco na modalidade TMO alogênio aparentado encontrou-se como doador um predomínio entre irmãos. Este achado é semelhante com o encontrado na literatura. Meinerz et al. (20) ao analisar o grau de parentesco entre os TMO realizados em Santa Catarina encontrou que dos 213 procedimentos realizados, 99% dos doadores eram irmãos, restando apenas como doadores 0,7% mães e 0,3% tios.

O transplante possui maior sucesso quando são realizados com irmãos geneticamente similares, logo estes são primeira escolha para a realização do procedimento. Quando irmãos geneticamente semelhantes não são encontrados, estende-se a busca para outros parentes, tornando a compatibilidade genética cada vez menor (20).

Ao analisar a sobrevida dos transplantados, devem-se observar os seguintes elementos: idade, patologia de origem, tipo de transplante (autólogo, alogênico ou heterólogo), medidas de biossegurança, trata-se de um primeiro tratamento ou uma reincidiva da doença, pois estes fatores estão diretamente relacionados com a sobrevida dos pacientes (23).

Dados encontrados na literatura não informam um percentual exato sobre o sucesso do TMO. Atualmente determina-se como cinco anos o tempo médio para analisar o sucesso do procedimento. Neste período pode haver uma completa cura da doença, morte do paciente ou ainda a reincidiva da neoplasia (3). A CTPE iniciou recentemente (há apenas dois anos) a quantificação, organização e armazenamento dos dados dos transplantados, logo torna-se inviável analisar e comparar a taxa de sobrevida global com média de 5 anos, neste estudo se pode citar apenas a sobrevida global para 24 meses.

A literatura mostra que em cinco anos há uma sobrevida livre da doença ou cura de 50% a 60% dos transplantados. Em PE, durante o período analisado, encontrou-se como sobrevida livre da doença uma média de 46%11. Em um estudo publicado por Naoum et al. (23), ao analisar o perfil microbiológico dos pacientes submetidos ao TMO no estado de São Paulo, revelou-se que nos primeiros 30 dias pós-transplante ocorreu uma taxa de 30% de óbitos, este período é conhecido como período de neutropenia, em que os pacientes estão mais vulneráveis a complicações pós-procedimento e a infecções bacterianas. Em PE observou-se um percentual de 14% de óbitos.

Ao analisar as principais causas de toxicidade aguda relacionadas com TMO se encontra a mucosite, náuseas, vômito, diarreia e dor abdominal e como causas de óbito imediato e/ou mediato ao procedimento encontra-se a sepse, a doença do enxerto contra hospedeiro (muito comum nos TMO alogênico) e a recidiva da doença, esta última causa contribui para a mortalidade mais tardia nos TMO autogênico (24). Esforços para a implantação de medidas de biossegurança cujo objetivo principal é diminuir o risco de infecção dos pós-transplantados devem ser adotadas. Logo medidas como a realização de higiene pela equipe que assiste os pacientes, cuidado com o fluxo de ar laminar, realização de culturas de vigilância aumenta a chance de cura dos transplantados (23).

O TMO é uma modalidade terapêutica disponível para uma enorme variedade de neoplasias hematológicas, neste estudo pode-se constatar que as variáveis idade, sexo, modalidade do transplante realizados, grau de compatibilidade genética (doador-receptor) repercutem diretamente para o sucesso do procedimento.

É inegável a importância deste estudo para a equipe multiprofissional, pois mediante o conhecimento prévio das variáveis e seus resultados se pode realizar um trabalho articulado cujo objetivo final é garantir o sucesso do procedimento. O enfermeiro tem um amplo papel em uma unidade de TMO, pois é responsável pela elaboração de um plano terapêutico sistematizado, além de realizar educação em saúde e orientações aos pacientes e seus familiares.

O profissional nutricionista trabalha de maneira articulada com a Enfermagem cujo objetivo é promover a manutenção de um ótimo estado nutricional, sendo necessária para isso a adequada oferta de nutrientes. O fisioterapeuta neste processo atua de maneira precoce para a prevenção ou atenuação dos efeitos adversos causados pela inatividade ou repouso prolongado no leito. A psicologia promove um aumento significativo da sobrevida, pois de maneira qualificada durante o diálogo terapêutico o transplantado entende as suas limitações e é incentivado a seguir corretamente o tratamento proposto.

Sendo assim, é fundamental a interação da equipe multiprofissional para o sucesso do TMO. Pois o paciente é tratado de maneira holística, proporcionando uma efetiva conclusão e recuperação do procedimento 25.
Como limitação cita-se a falta de estudos que também definam o perfil dos transplantados em outros estados brasileiros, assim como um pequeno número de publicações sobre esta temática.

Conclusões

Como conclusão se pode citar que mesmo frente a poucas informações, pois este estudo é pioneiro em PE, pôde-se traçar um perfil social, clínico, financiativo e patológico dos transplantados.

De maneira breve se observa o predomínio do sexo masculino como o mais acometido pelas neoplasias hematológicas. Sobre a origem dos transplantados PE se reafirma como um dos grandes centros transplantadores do país. A média de idade dos transplantados é de 40 a 59 anos, aliada a modalidade de transplante autólogo como a mais realizada. A elevada mortalidade se deve em parte ao tipo de neoplasia mais incidente. Como órgão financiador o SUS demonstra a sua importância, as instituições privadas destacam-se quanto a inscrição e realização do procedimento.

Logo se torna importante quantificar, analisar e traçar um perfil dos transplantados em PE, pois medidas especificas como o aumento da disponibilidade de leitos especializados, a redução do tempo para identificar o doador compatível, uma maior agilidade para a realização dos transplantes além de uma maior e melhor capacitação das equipes de saúde, podem ser tomadas para beneficiar os transplantados. Ao ofertar um cuidado especializado focado na proteção, promoção, reabilitação e educação dos pós-transplantados a enfermagem contribui para o sucesso do procedimento.




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