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Transplantes
Sexualidade e transplante de órgãos
Karina Dal Sasso Mendes
Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP/USP). Enfermeira especialista da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP/USP). Membro do Departamento de Enfermagem da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) 2012-2013. Membro do Grupo de Estudos em Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (GEDOTT) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
Maria Celeste do Patrocínio de Almeida
Enfermeira especialista em Transplantes de Órgãos e Implante de Tecidos pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Membro do Departamento de Coordenação da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) 2010-2011. Membro do Departamento de Enfermagem da ABTO-2012-2013. Membro do Grupo de Estudos em Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (GEDOTT) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
RBM Dez 13 V 70 Transplantes 1
págs.: 27-32

Indexado LILACS LLXP: S0034-72642013012300005

A sexualidade é um aspecto central do ser humano ao longo da vida e abrange sexo, identidade de gênero e papéis, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução. A sexualidade é vivida e expressa em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos, práticas, papéis e relacionamentos. Enquanto a sexualidade pode incluir todas estas dimensões, nem todas elas são sempre vivenciadas ou expressas. A sexualidade é influenciada pela interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, políticos, culturais, éticos, legais, históricos, religiosos e espirituais.

Neste contexto, pacientes em programas de transplante de órgãos vivenciam uma doença crônica de caráter irreversível que, indubitavelmente, altera a sua qualidade de vida e sexualidade. Assim, o funcionamento sexual é um dos primeiros aspectos da vida "normal" que é interrompido pelos sintomas físicos e emocionais acarretados pela doença.

A sexualidade no transplante não deve ser subestimada, uma vez que influencia na qualidade de vida dos pacientes. Na literatura há poucos estudos que trabalham esta temática nos transplantes. Sem dúvida, ainda é um tabu conversar sobre este assunto com os pacientes, de modo que muitos profissionais da saúde não questionam seus candidatos e receptores de transplantes sobre alterações relacionadas à sexualidade.

Tratar sobre a sexualidade não deve ficar limitado aos pacientes submetidos a um transplante de órgão, uma vez que na fase pré-transplante, quando o paciente apresenta uma doença crônica irreversível, alterações desta natureza causam impacto significativo na vida dos pacientes, incluindo a presença de distúrbios que podem causar problemas no relacionamento do paciente com seu cônjuge. Neste período, os fatores etiológicos relacionados com disfunções sexuais estão associados a condições médicas (doença crônica, alterações endócrinas, doenças cardiovasculares e alterações neurológicas), fadiga crônica, perda dA libido, uso de medicamentos (agentes anti-hipertensivos, antidepressivos, antagonistas H2, anticonvulsivantes, estatinas), além do uso abusivo de nicotina, álcool, esteroides anabolizantes, heroína e Cannabis sativa.

Os candidatos a um transplante, desde a indicação para a cirurgia, direcionam sua vida para a sobrevivência e recuperação. Após o transplante os receptores recuperam sua saúde e resistência e uma nova questão se torna importante: Quando e quanto a vida sexual e a intimidade voltarão ao normal? Para responder a este questionamento, as equipes de transplante precisam estar preparadas para auxiliar seus pacientes a obterem respostas a esta pergunta.

Indubitavelmente, a sexualidade é uma parte importante da vida cotidiana e também uma parte de quem somos como homem, mulher e parceiros. A sexualidade é uma forma de satisfazer as necessidades para o toque, proximidade, cuidado lúdico e prazer. Sentimentos sobre a sexualidade fornecem entusiasmo para a vida, tem grande impacto sobre a autoestima e imagem corporal e, sem dúvida, afetam as relações com os outros. Tão importante quanto isso é para cada um, muitos pacientes e profissionais da saúde das equipes de transplantes não discutem o impacto da doença, do tratamento ou da cirurgia na saúde sexual dos pacientes.

Dentre os possíveis distúrbios relacionados com a sexualidade nos homens se destaca a disfunção erétil relacionada com medicamentos, alterações hormonais, alterações da irrigação vascular da área pélvica e presença de depressão. Nas mulheres destacam-se a disfunção ovariana, amenorreia, diminuição ou perda da libido e da fertilidade. Neste caso, após o transplante, pacientes do sexo feminino precisam tomar várias precauções para se evitar uma gestação ainda durante o período de recuperação da cirurgia, sendo recomendado o uso de métodos contraceptivos. Ressalta-se que a gravidez bem-sucedida após o transplante é possível, no entanto, ela deve ser planejada sob supervisão médica.

Em relação à atividade sexual, as equipes de transplante normalmente recomendam esperar de 4 a 6 semanas após a cirurgia para se iniciar. A Tabela 1 aponta as principais causas de disfunções sexuais nos transplantes de órgãos e, embora estas causas possam ter cunho físico ou emocional, todas elas podem levar a falta de interesse no sexo.



Fonte: Adaptado de Schroeder, B.J., 2010; Steiner, T. et al., 2009(4,5).

Após o transplante os pacientes podem ainda apresentar pouco interesse no sexo. A perda de interesse em sexo pode ser devido a problemas muito reais, incluindo as preocupações com a sobrevivência, medo e depressão, presença de náuseas e vômitos, dor, conflitos de relacionamento ou qualquer emoção ou pensamento que o mantém longe de se sentir sexualmente excitado. Isso pode incluir ansiedade do parceiro por não gostar das alterações no corpo do receptor de transplante. Outras causas de interrupções na sexualidade podem ter base na presença de doenças, uso de medicamentos e mudanças físicas no corpo. Estas incluem o ganho ou perda de peso, acne, crescimento de pelos indesejados ou perda de cabelo. Para alguns pacientes, cicatrizes cirúrgicas podem levá-los a se sentir pouco atraente, e assim diminuir o seu interesse pelo sexo.

Para as pacientes do sexo feminino, a falta de controle dos níveis glicêmicos de açúcares pode devastar sua saúde reprodutiva. A alta glicemia pode promover irritação e infecções fúngicas vaginais. Baixo nível de estrogênio também pode causar problemas de lubrificação. Nos homens, a disfunção erétil é comum e aumenta com a idade avançada dos receptores. Muitos medicamentos afetam o funcionamento sexual, por isso é importante orientar os pacientes a fim de obterem uma boa compreensão dos medicamentos e seus efeitos colaterais. O processo de lidar com a doença crônica e sua recuperação pode afetar muitos pacientes emocionalmente. Outros fatores emocionais ou psicológicos que podem exercer impacto na sexualidade incluem a sensação de perder o controle das funções corporais, raiva, ansiedade, decepção, medo, isolamento e tristeza.


Fonte: Adaptado de Steiner, T. et al., 2009(5).

Ressalta-se que a gravidez em receptoras de transplante requer cuidado, especialmente em relação à terapia imunossupressora, a qual necessita de adaptação durante este período. Neste caso, o uso de inibidores da mTOR e micofenolatomofetil são contraindicados durante a gravidez. A literatura aponta que em cerca de 12% dos casos de gravidez, a receptora de transplante pode evoluir com perda temporária ou permanente do enxerto.

Outras complicações podem ocorrer durante a gestação, tais como elevação da pressão arterial, pré-eclâmpsia, infecções uretrais e anemia. A Tabela 2 aponta as condições necessárias para uma gravidez segura em receptoras de transplante.

Na Tabela 3 apresentamos uma visão geral de alguns sintomas comuns apresentados pelos pacientes, bem como orientações que podem auxiliar os profissionais das equipes de transplante no manejo destes problemas que afetam a sexualidade de candidatos e receptores em programas de transplante de órgãos.








Fonte: Adaptado de Stitt, N. et al., 2008; Schroeder, B.J., 2010(2,4).




Bibliografia
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4. Schroeder, B.J. Sexual health after transplant: what every patient should know. Pittsburgh: International Transplant Nurses Society, 2010. Disponível em: . Acesso em: out. 2012.
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