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Normas de Publicação da RBM Revista Brasileira de Medicina



Artigo Original
Diagnósticos de enfermagem em uma unidade de pronto-socorro pediátrico
Nursing diagnoses in a pediatric emergency


Adriana Cecel Guedes
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Paulista. Mestre em Enfermagem na Saúde do Adulto. Universidade Paulista.
Bruna Gabriela B. Damas
Mestre em Enfermagem. Universidade Paulista.
Thayane Trindade Fortunato, Jéssica Oliveira dos Santos
Enfermeiras. Universidade Paulista.
Irenilza Naas
Doutora em Engenharia. Universidade Paulista. Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção. Universidade Paulista. Rua Antônio de Macedo, 505. Parque São Jorge. São Paulo - SP.
Endereço para correspondência: Adriana Cecel Guedes. Rua João Teixeira da Silva, 415 - apto 71 - Torre 4 - São Paulo - SP - Tels.: 11 2337-4146 e 11 5775-1177 - E-mail: adricecel@gmail.com

© Copyright Moreira Jr. Editora.
Todos os direitos reservados.

Pediatria Moderna Jul 13 V 49 N 7
págs.: 263 à 268

Indexado LILACS LLXP: S0031-39202013006500002

Unitermos: enfermagem pediátrica, processos de enfermagem, emergência.
Unterms: child nursing, nursing processes, emergency.

Resumo

Este estudo teve como objetivo identificar os diagnósticos de enfermagem mais frequentes em uma unidade de pronto-socorro pediátrico. Realizou-se pesquisa descritiva, exploratória, retrospectiva, na qual foram levantados 40 prontuários de crianças que passaram pelo pronto-socorro. Os diagnósticos de enfermagem foram estabelecidos com base nos sinais e sintomas detalhados pelos enfermeiros. Foram identificados 27 diagnósticos de enfermagem e os mais frequentes foram risco de infecção 28,4%, hipertermia 13,8%, dor aguda 10%, desobstrução ineficaz de vias aéreas e integridade da pele prejudicada 7,6%. Acredita-se que identificar os principais diagnósticos de enfermagem em um pronto-socorro pediátrico pode basear um instrumento específico para a implantação da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) nessas unidades e contribuir para diminuir a sobrecarga de trabalho do enfermeiro e melhorar a qualidade da assistência de enfermagem.

Introdução

A importância da implantação da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) em unidades hospitalares é reconhecidamente necessária, além de uma obrigação legal da equipe de enfermagem dessas instituições. Entretanto, as instituições ainda buscam a melhor forma para a utilização desse processo, adotando ferramentas diferentes e que requerem um conhecimento prévio da demanda de cada unidade.

A implementação da SAE deve acontecer em todas as instituições de saúde, públicas e privadas, onde há assistência de enfermagem, devendo ser realizada apenas por enfermeiros. Esse instrumento representa para os profissionais de enfermagem, a instituição, fontes pagadoras e pacientes um método capaz de assegurar a qualidade e a continuidade da assistência de enfermagem, a contenção de custos, além de uma garantia para fins legais. Esse é um instrumento que guia e sistematiza o desenvolvimento do pensamento e direciona o julgamento clínico. A SAE se operacionaliza em etapas: investigação, diagnóstico de enfermagem, planejamento, implementação da assistência de enfermagem e avaliação(2).

Os diagnósticos de enfermagem se caracterizam por julgamentos clínicos sobre a resposta do indivíduo, da família ou da comunidade a problemas de saúde reais ou potenciais e proporcionam as bases para a seleção de intervenções de enfermagem e para o alcance de resultados pelos quais os enfermeiros são responsáveis. Esses julgamentos são padronizados por associações de enfermeiros de diversas especialidades, entre elas a North American Nursing Diagnosis (NANDA)(3).

Trabalhar com diagnósticos de enfermagem é importante nas diversas unidades onde há assistência de enfermagem, inclusive nas Unidades de Pronto-Socorro (PS). A sobrecarga de trabalho do enfermeiro dessas unidades faz com que estes profissionais muitas vezes deixem seus afazeres para dar suporte a outras áreas que não são de sua competência, tirando um pouco do foco principal do trabalho do enfermeiro que é planejar uma assistência de enfermagem essencial para manter a vida do paciente(4). Assim, conhecer os diagnósticos de enfermagem mais comuns possibilita o direcionamento da assistência de enfermagem prestada e consequente otimização do tempo e garantia da qualidade do cuidado. O objetivo desse estudo foi, pois, identificar os principais diagnósticos de enfermagem (NANDA) em um pronto-socorro pediátrico na cidade de São Paulo.

Metodologia

Para a elaboração deste estudo foi realizada uma pesquisa descritiva exploratória e de abordagem quantitativa, em pronto-socorro pediátrico de hospital localizado na zona leste da cidade de São Paulo. Foram selecionados prontuários de crianças que passaram pelo pronto-socorro da instituição proposta no período de 1º a 15 de janeiro de 2012, para as quais foi realizada a fase de investigação do processo de enfermagem: o histórico de enfermagem. Essa fase é realizada apenas quando é solicitada a internação do paciente. Dessa forma, 44 prontuários foram selecionados. Desses, quatro foram excluídos, pois não estavam disponíveis para a coleta de dados. Como a fase de diagnóstico do processo de enfermagem não é realizada pelos enfermeiros da Unidade para todos os pacientes internados, optou-se por estabelecer os diagnósticos de enfermagem (DE) por meio da avaliação dos sinais e sintomas registrados pelos enfermeiros, utilizando a taxonomia NANDA I. Inicialmente os sinais e sintomas apresentados pelas crianças foram submetidos a um processo diagnóstico(5), que incluiu a categorização dos dados, a presença de lacunas e dados divergentes, a determinação das relações e o agrupamento dos dados. Então, os DE foram elaborados pelas pesquisadoras, com base na taxonomia NANDA e discutidos com dois professores especialistas na área.

Para a realização da coleta de dados o trabalho foi submetido ao Comitê de Ética do local do estudo e aprovado segundo o protocolo 18/11.




Resultados

Dos 44 pacientes avaliados, verificou-se que 50% eram do sexo feminino e 50% do sexo masculino.

Para a classificação das crianças, conforme a idade, foi utilizada a divisão proposta pelo Ministério da Saúde(6): recém-nascido, 0 a 28 dias; lactente, 29 dias a 2 anos; pré-escolar, 2 a 6 anos; escolar, 6 a 12 anos; e adolescente, 12 a 18 anos. Dessa forma, em relação à idade, 37,5% das crianças pertenciam à fase lactente, 30% se encontravam na fase pré-escolar, 25% estavam na fase escolar e 5% dos pacientes atendidos eram adolescentes.

Ao todo foram encontrados 27 diagnósticos de enfermagem diferentes, em 131 citações. Os mesmos pertenciam a seis dos treze domínios propostos pela taxonomia NANDA I: segurança e proteção, 61%; conforto, 15%; nutrição, 11%; atividade/repouso, 8%; eliminação e troca, 4%; e enfrentamento/tolerância ao estresse, 1%.
A Tabela 1 apresenta os diagnósticos de enfermagem identificados a partir da análise dos sinais e sintomas levantados pelos enfermeiros.

Discussões

Neste estudo foi identificado o mesmo número de crianças do sexo masculino e do sexo feminino. Ricceto et al.(7) também identificaram prevalência semelhante em estudo com crianças atendidas em sala de emergência.
Em relação à idade, a maior parte dos participantes da pesquisa está na fase lactente, 37,5%. O estudo de Ferraz et al.(8), com crianças que passaram por um pronto-socorro na cidade do Porto, verificou que 53,7% das crianças tinham entre seis meses e dois anos. Filócomo et al.(9), em estudo com acidentes na infância em um pronto-socorro pediátrico, identificaram maior prevalência de crianças de 7 a 11 anos, o que pode estar relacionado ao fato de crianças nessa faixa etária serem mais autônomas e menos supervisionadas por seus responsáveis. Em relação a esse estudo, a prevalência maior de crianças de 29 dias a 2 anos pode relacionar-se ao fato de estarem em fase de crescimento e desenvolvimento, criando suas próprias defesas do organismo e, por isso, mais expostas a riscos de desenvolver alguma patologia. Além disso, nessa idade as crianças estão aprendendo a dar os primeiros passos, gerando mais riscos de queda.
Foram encontrados 27 DE diferentes, dos quais serão discutidos apenas aqueles com prevalência maior que 5%.

O diagnóstico risco de infecção foi o mais encontrado neste estudo, entretanto com prevalência menor do que a encontrada em outros estudos. Foi caracterizado principalmente pela utilização de procedimentos invasivos, necessários à administração de medicamentos por via endovenosa.

Chagas et al.(10), em estudo com crianças internadas, identificaram alta prevalência do diagnóstico risco de infecção 66,7%. O diagnóstico apareceu com alta frequência também nos estudos de Monteiro, Silva, Lopes(11), 100%. Outro estudo que identificou o diagnóstico risco para infecção foi o de Silva, Araújo, Lopes(12), com crianças cardiopatas, em 82,2%. A prevalência diferente entre os estudos acima e esta pesquisa pode estar relacionada ao fato de que aos pacientes que já tinham infecção presente, 72%, após discussão entre os pesquisadores não ter sido atribuído o diagnóstico risco de infecção, visto que a infecção já existia.

O diagnóstico hipertermia, neste estudo foi relacionado, principalmente, à presença de um foco infeccioso e foi identificado em 13,8% dos casos. Chagas et al.(13) encontraram prevalência do diagnóstico hipertermia próxima à encontrada neste estudo 13,3%. Acredita-se que esse fato possa estar relacionado à faixa etária prevalente nos estudos, com crianças pequenas, que ainda não obtiveram imunidade completa, apesar de já não contarem com a imunidade da mãe.

O DE dor aguda apareceu em 10% dos diagnósticos de enfermagem citados caracterizado, principalmente, por relato verbal da dor e comportamento expressivo.
Jesus, Nogueira(13), em estudo de pacientes pediátricos com epilepsia, verificou uma frequência de 7% do diagnóstico dor aguda. Outro estudo que identificou o diagnóstico foi o de Monteiro, Silva, Lopes(11) 2,6%. A baixa prevalência desse diagnóstico pode estar relacionada à idade das crianças, que tem formas variadas de expressão da dor que necessitam de maior observação para a avaliação do enfermeiro. Poucas enfermeiras que atuam na Pediatria possuem treinamento específico para reconhecimento da dor e esse conhecimento faz grande diferença no reconhecimento e tratamento adequado da dor(14).

O DE desobstrução ineficaz de vias aéreas foi caracterizado, neste estudo, por dispneia, ruídos adventícios respiratórios e tosse ineficaz. Relacionou-se, na maior parte das vezes, a secreções retidas, secreções nos brônquios e presença de via aérea artificial.
Monteiro, Silva, Lopes(11), em estudo com crianças hospitalizadas por infecção respiratória aguda, identificaram o diagnóstico desobstrução ineficaz de vias aéreas em todas as crianças com infecção respiratória aguda que eram sujeitos do seu estudo. Já Silva, Araújo, Lopes(12) identificaram frequência 55,6% do DE em estudo com crianças com cardiopatias congênitas. A prevalência diferente entre os estudos acima e o resultado encontrado nesta pesquisa pode estar relacionado às diferentes populações das pesquisas, já que o local do estudo é um pronto-socorro que atende a diversas especialidades. Além disso, foi realizado em um período em que o índice de doenças do trato respiratório tem menor prevalência.
O diagnóstico integridade da pele prejudicada neste estudo foi caracterizado pelo rompimento da superfície da pele e invasão de estrutura no corpo e foi relacionado com o déficit imunológico, extremo de idade e hipertermia. Monteiro, Silva, Lopes(11) identificaram 3,8% do diagnóstico integridade da pele prejudicada em crianças com insuficiência respiratória.

O diagnóstico risco de nutrição desequilibrada, superior às necessidades corporais, com prevalência de 5% neste estudo foi caracterizado por peso 20% acima do ideal para altura e compleição, relacionado à ingestão excessiva em relação às necessidades metabólicas.

Monteiro, Silva, Lopes(11) identificaram o diagnóstico nutrição desequilibrada: mais do que as necessidades corporais, 12,8%, em crianças com infecção respiratória aguda. Outro estudo que também apresentou o mesmo diagnóstico foi o de Chagas et al.(10), 3,3% com crianças com sinais e sintomas respiratórios.
Ros e Perez(15), em estudo de caso de uma criança de 10 anos, identificaram o diagnóstico de nutrição desequilibrada: mais do que as necessidades corporais relacionada a ingestão em excesso de gordura em comidas e número de refeições superior ao adequado, manifestado por índice de massa corpórea (IMC) >26. No Brasil há um crescente aumento da obesidade infantil, com prevalência de sobrepeso de 7,6% em adolescentes(16).

Assim, foi possível identificar os principais diagnósticos de enfermagem no pronto-socorro infantil e perceber esses pacientes como grupos específicos, que têm diagnósticos de enfermagem que diferem de outras populações e, por isso, devem ter a Sistematização de Assistência de Enfermagem (SAE) voltada para eles. O uso de linguagens padronizadas é essencial para guiar as enfermeiras para um cuidado de enfermagem de qualidade, baseado na interpretação correta dos sinais e sintomas apresentados pelos pacientes(17).

A construção de um instrumento para a implementação da SAE na unidade de PS pediátrico, baseado nos principais DE existentes nessas unidades, pode facilitar o trabalho do enfermeiro que atua nessas áreas.
Assim, novos estudos podem ser conduzidos para que um instrumento específico para a SAE no PS infantil seja construído, implementado e validado para essas unidades considerando a sobrecarga de trabalho e as muitas atribuições dos enfermeiros que nelas atuam.




Bibliografia
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2. Tannure, MC e Pinheiro, AM. Sistematização da Assistência de Enfermagem. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010.
3. North American Nursing Diagnosis. Diagnósticos de Enfermagem da NANDA - Definições e Classificação 2009-2011. Porto Alegre : Artmed, 2010.
4. Wehbe G, Galvão CM. O enfermeiro de Unidade de Emergência de um hospital privado: algumas considerações. Revista Latino Americana de Enfermagem. 2001, Mar-Abr 9(2): 152-157.
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10. Silva, VM, Araújo, TL e Lopes, MVO. Evolução dos diagnósticos de enfermagem para crianças com cardiopatia congênita Revista Latino-Americana de Enfermagem. 2006, Jul-Ago; 14(4). [Online] [Acesso em: 02 de 06 de 2012]. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rlae/v14n4/pt_v14n4a14.pdf
11. Monteiro, FPM, Silva, VM e Lopes, MVO Diagnósticos de enfermagem identificados em crianças com insuficiência respiratória aguda. Revista Eletronica de Enfermagem. 2006; 8(2): 213-221. [Online] [Acesso em: 14 de 06 de 2012]. Disponível em: http://www.fen.ufg.br/revista/revista8_2/v8n2a06.htm
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