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Artigo científico sobre problemas femininos
Bacteriúria assintomática na mulher – como diagnosticar e quando tratar
Patricia de Rossi
Mestre em Ginecologia e Obstetrícia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; médica preceptora da Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia no Conjunto Hospitalar do Mandaqui – São Paulo/SP; professora de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Nove de Julho – UNINOVE; e membro da Comissão de Avaliação Profissional da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo)
Revista Equilíbrio & Vida - Nov 11 N 1

Caracterizada pela presença de bactérias na urina em pacientes sem sintomas urinários, problema prevalece entre mulheres no período pós-menopausa e na menacme.

A bacteriúria assintomática (BA) é a presença de bactérias na urina em pacientes sem sintomas urinários. Na mulher, é mais comum na pós-menopausa, >quando é encontrada em mais de 15%, e na menacme, estima-se em 1 a 5%. Assim como na cistite, as enterobactérias são os agentes mais frequentes, destacando-se Escherichia coli, Proteus sp, Klebsiella pneumoniae. Outros agentes envolvidos são Pseudomonas aeruginosa, Enterococos, Estreptococos do grupo B e Staphylococcus saprophyticus.

Para diagnóstico de BA, a presença de bactérias na urina deve ser significativa: ≥ 100.000 unidades formadoras de colônias (UFC)/ml em duas amostras consecutivas de urina de jato médio (UJM) ou ≥ 100 UFC/ml de amostra colhida por cateterismo. Essa diferença ocorre porque a porção distal da uretra é colonizada por bactérias, necessitando de um valor de corte mais alto.

A coleta de urina deve ser feita com técnica adequada. Uroculturas colhidas sem assepsia comumente têm resultados de “amostra contaminada”, o que significa que houve crescimento de duas ou mais espécies bacterianas ou bactérias não associadas à infecção urinária. A paciente deve receber frasco estéril para coleta da urina e seguir as seguintes etapas: (1) lavar as mãos com água e sabão; (2) limpar os genitais externos com solução antisséptica ou água e sabonete líquido e enxaguar com água limpa ou soro; (3) afastar os lábios da vulva com os dedos; e (4) colher a urina desprezando o jato inicial. A amostra deve ser enviada ao laboratório em até 15 minutos, caso contrário deve permanecer refrigerada a 4O C por até 24 horas.

A uroanálise (também chamada de urina I, bioquímica e sedimento, EAS, rotina ou sumário de urina) não tem valor para diagnóstico de BA. A presença de leucócitos não é específica para infecção urinária, podendo ser consequente a outros processos inflamatórios geniturinários, como vaginites e cervicites, ou a contaminação da amostra devido à técnica inadequada. O teste do nitrito, apesar de ser bastante específico, tem baixa sensibilidade. As principais limitações são a não identificação de bactérias não fermentadoras (por exemplo, Pseudomonas), atraso para teste da amostra e tempo insuficiente antes da coleta da amostra. O ideal é que a amostra seja colhida pelo menos duas horas após a última micção ou, idealmente, da primeira urina da manhã.

A BA não causa sintomas, mas pode aumentar a probabilidade de infecções sintomáticas e a morbidade associada. Para isso, vários estudos procuraram correlacionar o diagnóstico e o tratamento da BA e desfechos como cistite, pielonefrite e complicações urinárias.

Por exemplo, mulheres diabéticas têm maior frequência e gravidade de infecções urinárias em comparação a mulheres não diabéticas. Além disso, têm três vezes mais chance de ter BA e um maior risco de desenvolver pielonefrite. Portanto, seria lógico rastrear e tratar a BA em diabéticas. Porém, a frequência de infecção do trato urinário (ITU) sintomática é similar em pacientes diabéticas com BA tratadas com antibioticoterapia ou não. Em longo prazo, o acompanhamento de mulheres com diabetes mostrou frequência similar de sintomas de ITU entre aquelas sem BA ou com BA sem tratamento.

Sendo assim, não está indicado o tratamento de BA em mulheres diabéticas e não se justifica o rastreamento através de urocultura nessa população.

Em mulheres após a menopausa há aumento da incidência de BA, mas isso não implica em aumento da mortalidade ou severidade de doenças renais. O tratamento da BA em mulheres idosas reduz a prevalência mensal de BA, mas houve maior taxa de reinfecção do que em mulheres não tratadas. Além da maior frequência de efeitos adversos, o uso de antibióticos causou aumento da frequência de bactérias resistentes. Assim, não se recomenda pesquisa periódica ou tratamento de BA em mulheres após a menopausa.

Pacientes que serão submetidas a procedimento invasivo ou instrumentação do trato urinário (urodinâmica, cistoscopia) devem ser rastreadas, tratadas e avaliadas com cultura de controle. O mesmo se aplica a pacientes que serão submetidas a procedimentos cirúrgicos com possibilidade de lesão do trato urinário, pois há risco de bacteremia pela solução de continuidade da mucosa.

Durante a gestação, a BA pode levar ao aumento do risco de vários desfechos adversos, como parto prematuro, baixo peso fetal e pielonefrite aguda. Como o tratamento da BA reduz o risco de infecção renal de 20-40% para 1-4% e das demais complicações, o rastreamento e o tratamento da BA na gravidez são altamente recomendados. Uma urocultura deve ser realizada no início do pré-natal e, se positiva, deve ser instituído tratamento. Recomenda-se uma cultura de urina de controle após o tratamento, e repetição de culturas ao longo da gestação. A periodicidade desses exames ainda é objeto de discussão, em geral a cada um a três meses, a depender da presença de outros fatores de risco, como diabetes.