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Entrevista
Uma aula de luta e amor pela vida
Kathlen Ramos
Jornalista
Revista Equilíbrio & Vida - Nov 11 N 1

Por meio de um computador especial, que reconhece as letras selecionadas pelo olhar, o ginecologista Aroldo Fernando Camargos respondeu, brilhantemente, as perguntas desta entrevista. E não pensem que o olhar que navega pelas letras é de tristeza, derrota ou lamentações.

Muito pelo contrário. Vítima de esclerose lateral amiotrófica (ELA) desde 2003, sem falar, poder deglutir e praticamente sem movimentos musculares, o Dr. Aroldo é editor de uma importante revista científica, ganha prêmios renomados no setor e segue escrevendo livros (só neste ano foram dois). A revista Equilíbrio & Vida teve a honra de conhecer um pouco mais sobre esse “médico herói” que, mesmo com um diagnóstico irreversível, não encontra tempo para esmorecer: “viverei intensamente, com alegria, sem reclamar e de maneira produtiva”.

Entrevista Dr. Aroldo Fernando Camargos

Equilíbrio & Vida Onde nasceu? Conte-nos um pouco da sua história, da sua infância e adolescência.

Dr. Aroldo Fernando Camargos Nasci em 8 de agosto de 1951, na pequena cidade de Esmeraldas, situada nos arredores de Belo Horizonte. Tive uma infância e uma adolescência muito alegres. Era uma criança irrequieta e, frequentemente, meus pais eram chamados à escola por causa da subversão da ordem causada por mim. Perdi a conta do número de vezes que fui mandado para a sala da diretora, do número de anotações em minha caderneta, denunciando o meu comportamento, e o número de horas em que fiquei ora ajoelhado de castigo, ora de cara para a parede. No ginásio, dentro de um mesmo ano escolar, conseguia ser o pior e o melhor aluno. A minha performance escolar dependia do futebol; os padres me davam como castigo a privação de praticar o nobre esporte bretão. Quando isso acontecia, me tornava o melhor aluno da turma.

E&V De onde surgiu a vontade de seguir a carreira de medicina?

Dr. Camargos Fiz um teste vocacional que me deixou confuso e, até o momento da inscrição do vestibular, tinha dúvidas sobre o que fazer. A opção pela medicina foi feita sem explicações;
acho que o acaso me empurrou na direção dela.

E&V E como se deu o desejo de se especializarem ginecologia?

Dr. Camargos Fiquei deslumbrado quando vi um parto, o que me levou a fazer estágio numa maternidade. Nesse período, o chefe do plantão me convidou para auxiliá-lo em cirurgias ginecológicas e, assim, quando “assustei”, já tinha feito a minha opção pela especialidade.

E&V Depois da especialização em ginecologia, fez outros cursos?

Dr. Camargos Obtive o título de PhD pela Royal Postgraduate Medical School da Universidade de Londres, em 1987. Durante a minha estada na Inglaterra, de 1983 a 1987, obtive, junto ao British Medical Council, a licença para praticar medicina no Reino Unido e fui nomeado membro honorário do Chelsea Hospital for Women.

E&V Conte-nos sobre alguns prêmios que recebeu ao longo da carreira.

Dr. Carmagos Ganhei vários prêmios Clóvis Salgado, concedidos pela Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig), dedicados ao melhor trabalho publicado no ano em ginecologia. Fui indicado pela Associação Médica de Minas Gerais (AMMG), e pelo Sindicato dos Médicos de Minas Gerais, como o médico de melhor produção científica em 2009. Também fui homenageado pelos formandos da Faculdade de Medicina da UFMG, no final do ano. Essa é a maior honraria que um professor pode receber. Além disso, o Laboratório de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas da UFMG recebeu o meu nome. Nesse espaço, o casal conta com todos os tratamentos de infertilidade. Captei todos os recursos para torná-lo um centro de alta qualidade.

E&V O Sr. atualmente é editor da Revista Femina. Como é seu dia a dia de trabalho?

Dr. Camargos Em 2003, recebi o diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica (ELA) e, em 2007, já estava na cadeira de rodas quando recebi, do Dr. Nilson Melo, o convite para ser editor científico da Revista Femina. Nesse momento, vivi por alguns meses uma ambivalência: ao mesmo tempo em que queria e me sentia honrado com o convite, tinha medo de aceitá-lo e não ter condições físicas para exercer a minha função. Mas criei adaptações para trabalhar, bem como novas normas para publicação na revista, o que melhorou a qualidade do periódico.

E&V Além da Femina, o Sr. está desenvolvendo mais algum trabalho?

Dr. Camargos Vou oferecer duas disciplinas
de pós-graduação ministradas a distância e continuarei como pesquisador do CNPq, com a linha de pesquisa de células-tronco embrionárias, patrocinada pela Bayer de Berlim, na qual já havia conseguido a diferenciação de precursores neurais e osteoblastos.

Este ano, publiquei dois livros pela Coopmed: “Anticoncepção, Endocrinologia e Infertilidade Feminina” e “Cresço na Adversidade com Irreverência”, que conta minha trajetória de vida.

E&V Quando começaram os primeiros indícios da doença?

Dr. Camargos Em agosto de 2003, retirei meus sapatos e preparava-me para dormir, quando notei que não conseguia movimentar o dedão do pé esquerdo. Não dei atenção ao problema, como um mecanismo de defesa. Depois, comecei a ter outros sintomas similares, quando resolvi, em novembro do mesmo ano, ir ao médico, que me pediu uma bateria de exames. Fui ao retorno para levar o resultado, quando, sem rodeios, meu médico me disse: “Você é portador de esclerose lateral amiotrófica e seu prognóstico depende de como a doença vai evoluir, variando a sobrevida de seis meses a quatro anos. Estou dizendo de maneira bem direta para você programar a sua vida”. Nesse momento, passei a ser atormentado pelo medo de deixar a minha família. Pouco a pouco, fui organizando os meus pensamentos, passei a ler sobre a doença e iniciei o plano para que, na minha ausência, a minha esposa, meus dois filhos, meus amigos e o Laboratório de Reprodução Humana não sofressem qualquer tipo de privação ou solução de continuidade.

E&V O que a doença promove ao longo do tempo?

Dr. Camargos A paralisia da musculatura. Assim, a pessoa vai perdendo os movimentos progressivamente. A grande pergunta que vejo nos olhos das pessoas é a seguinte: e de agora para frente? A resposta é simples: viverei intensamente, com alegria, sem reclamar e de maneira produtiva. Sabendo do que pode me ocorrer, me organizo para continuar a alcançar os meus objetivos. Devo acrescentar que o mundo vem conspirando a meu favor, especialmente família e amigos.

E&V E como lida, agora, com a evolução da doença? Que adaptações foram necessárias para continuar trabalhando?

Dr. Camargos Quando me dei conta, os quatro anos previstos de sobrevida chegaram e, então, preparei a minha despedida. Mas os dias se passaram, eu superei o fator tempo e comecei a acreditar que a minha vida dependia da minha vontade de viver. Meus músculos começaram a paralisar no sentido dos pés para a cabeça, e esse processo vem durando aproximadamente oito anos. Comecei usando bengalas e depois passei para a cadeira de rodas. Perdi a capacidade de escrever e, assim, procurei pessoas que me ajudassem a executar tarefas que exigiam o uso dos membros superiores. Em setembro de 2010, decidi não ingerir alimentos pela via oral, porque tenho muito medo da pneumonia por aspiração. Com a traqueostomia passei a não falar e, aí, eu senti muito. Perder a capacidade de se comunicar é duro! Hoje, me comunico por leitura labial, prancha que contém as letras, onde as pessoas apontam para as letras e eu pisco quando a letra escolhida é apontada. Possuo um computador (eyegaze system) e na sua tela existe um teclado. Eu seleciono as letras com um simples olhar e, dessa forma, vou formando textos que aparecem acima do teclado. O texto escrito pode ser ouvido se eu escolher o comando “falar”. Também desenvolvi equipamentos, juntamente com o meu irmão Marcelo, que me permitem ter boa mobilidade na minha casa. Duas coisas ficaram intocáveis: a minha capacidade intelectual e o desejo de ver os meus objetivos serem alcançados.