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Artigo Original
Tratamento psicofarmacológico aplicado à criança
Psychopharmacological treatment applied to children


José H. Golfeto
Professor associado do Departamento de Neurologia,
Psiquiatria e Psicologia Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP
Heloísa Mian
Médica psiquiatra infantil assistente do Hospital das Clínicas
da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP - Ribeirão Preto, SP.
Endereço para correspondência:
José H. Golfeto - Av. Nove de Julho, 980
CEP 14025-000 - Ribeirão Preto - SP
Fone: (016) 625-0309

Unitermos: psiquiatria infantil, psicofarmacologia.
Unterms: child psychiatry, psychopharmacology.

INTRODUÇÃO
O tratamento psicofarmacológico é uma das modalidades de atendimento oferecidas no Ambulatório de Psiquiatria Infantil do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP.
Ao longo dos anos, observamos que uma grande parcela de crianças vem beneficiando-se com este tipo de atendimento, que pode ocorrer isoladamente ou associado a psicoterapia e orientação familiar. Os casos em seguimento passam previamente por rigorosa avaliação psiquiátrica, no sentido de se estabelecer uma hipótese diagnóstica e verificar a melhor indicação terapêutica. Um exame físico prévio e exames laboratoriais são solicitados, de acordo com as necessidades de cada paciente, e somente após os resultados desenvolvemos o plano terapêutico. A avaliação das causas físicas dos problemas de nossos pacientes é feita através do serviço de interconsulta com a Pediatria e Neurologia infantil.
Havendo indicação de intervenção psicofarmacológica, reconhecidos os sintomas e sinais a serem atingidos, é discutido com os familiares e o paciente a indicação terapêutica, que só é colocada em prática após o consentimento dos mesmos. Avaliações clínicas são realizadas periodicamente, no sentido de observar se a mesma está sendo benéfica na redução dos sintomas-alvo e, sobretudo, de verificar o possível desenvolvimento de efeitos colaterais adversos.
Pretendemos, com este trabalho, compartilhar as condutas que vêm sendo praticadas no atendimento psicofarmacológico no Ambulatório de Psiquiatria Infantil do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP, nos mais diversos quadros psicopatológicos na infância, utilizando-se, na medida do possível, como critério diagnóstico a CID 10(1).
PSICOFARMACOLOGIA
A psicofarmacologia vem ocupando lugar de destaque no tratamento psiquiátrico, não só do adulto como também aplicado à criança e ao adolescente. Não podemos deixar de mencionar a contribuição das drogas, facilitando a remissão dos sintomas e sinais. Não temos dúvidas de que a farmacologia facilita e abrevia o tempo de tratamento psicoterápico. O tratamento biológico pode estar associado à psicoterapia ou não. Ambos se complementam, no sentido de aliviar os sintomas e sinais dos quadros clínicos.
A criança pode responder de modo diferente dos adultos aos diversos psicofármacos, pois seu organismo se apresenta imaturo e em desenvolvimento. A metabolização e excreção das drogas no organismo infantil são mais rápidas, requerendo doses por quilo maiores do que o adulto para alcançarem os efeitos terapêuticos desejáveis. A filtração glomerular também está aumentada nas crianças, em comparação com os adultos.
O efeito farmacológico depende de cada psicofármaco e de sua concentração no plasma. Este efeito é verificado através da observação clínica, de relatos da criança e de seus pais ou responsáveis e de dosagens séricas, que são de grande importância durante a terapêutica com lítio. Existe também a possibilidade de monitorar os níveis de carbamazepina, valproatos e antidepressivos tricíclicos. Quando são observados efeitos colaterais indesejáveis clinicamente, a dosagem deve ser reduzida ou o medicamento deve ser suspenso. Procura-se evitar, sempre, que níveis plasmáticos tóxicos sejam alcançados inadvertidamente. É importante lembrar que algumas drogas causam um retardo no crescimento infantil e alteram a taxa hormonal e, devido a esses efeitos, o tempo de uso do psicofármaco e sua dosagem devem ser os menores possíveis.
Consequentemente, é recomendável que se suspendam ou reduzam os medicamentos regularmente nos períodos de férias escolares, finais de semana ou numa frequência de cada seis meses; exceção feita aos quadros psicóticos e quadros convulsivos em que o uso de medicação deve ser contínuo, dadas às características dessas patologias. Esses cuidados são importantes para diminuir as possíveis quantidades cumulativas de uma droga com o passar do tempo, evitando-se assim as discinesias tardias nos casos de uso de neurolépticos(2). é importante ressaltar que as drogas não devem ser suspensas abruptamente, sendo prudente serem retiradas gradualmente para reduzir o risco de desenvolver-se uma síndrome de abstinência. é preciso lembrar sempre que as respostas individuais são muito variáveis e que um psicofármaco mal aceito pelo organismo, seja por provocar sintomas físicos ou psíquicos, deve ser substituído, até que se encontre o medicamento que traz unicamente benefício, o que exige paciência e experiência do médico e colaboração da família(3). Embora os avanços da psicofarmacologia nas últimas décadas sejam significativos e inspirem otimismo, uma cautela ainda maior se faz necessária. O psiquiatra infantil necessita ser consciencioso e, para tanto, deve ser treinado na administração cuidadosa e sensata de agentes farmacológicos.
A literatura vem informando as tendências recentes de se empregarem drogas múltiplas em crianças e adolescentes, ressaltando as vantagens clínicas de tal emprego(4). Contudo, a administração de psicofármacos deve ser cautelosa. Julgamos oportuno informar que em nosso ambulatório, geralmente, incluímos intervenções medicamentosas únicas e evitamos a medicação múltipla. Esta é aplicada excepcionalmente, quando determinados casos clínicos não respondem da forma desejada à monomedicação.
A dose inicial é sempre a mínima possível e o aumento da dosagem é gradativo, realizando-se aproximadamente no período de tempo de uma semana, passando pela observação clínica e informações dos familiares e do próprio paciente. Com isso, titula-se a dosagem ideal quando os sintomas-alvo diminuem ou desaparecem. As drogas administradas são sempre aquelas indicadas nos tratamentos psicofarmacológicos pediátricos convencionais, considerados pelos estudos clínicos e de investigação como eficazes e seguros para o uso em crianças e adolescentes(5). Reuniões de literatura sobre a eficácia dessas drogas são realizadas periodicamente. Além do cuidado que se tem de familiarizar-se com as informações presentes na bula de cada medicamento, procuramos sempre considerar os riscos e benefícios envolvidos no uso de qualquer medicação, evitando-se, com isso, possíveis riscos profissionais, como aqueles que privam o paciente de uma vida com crescimento e maturação normais e outros efeitos iatrogênicos. Por exemplo, se o paciente for obeso evitar-se-á psicofármacos que têm como efeito colateral o aumento de apetite.
PSICOFÁRMACOS
A quimioterapia moderna teve início nas últimas décadas, substituindo as chamadas "camisas-de-força" ou "quarto forte". O arsenal terapêutico é muito amplo e abaixo classificamos o mesmo, de acordo com nossa experiência clínica e respaldado pela literatura(2).
1) Estimulantes do sistema nervoso central:
- Metilfenidato.
2) Drogas antipsicóticas:
- Clorpromazina, tioridazina, haloperidol, pimozide e sulpirida.
Drogas antipsicóticas atípicas:
- Risperidona e clozapina.
3) Drogas antidepressivas:
- Imipramina, nortriptilina, clomipramina, maprotilina, fluoxetina, sertralina e paroxetina.
4) Estabilizador de humor:
- Carbonato de lítio.
5) Drogas ansiolíticas:
- Clordiazepóxido, diazepan, lorazepam e bromazepam.
6) Drogas anticonvulsivas:
- Carbamazepina, ácido valpróico e clonazepam.
PSICOPATOLOGIAS
Ansiedade
A ansiedade é uma queixas das mais frequentes em Psiquiatria Infantil, manifestando-se sob diferentes formas, que incluem, entre outras, a ansiedade de separação, fobia social, ansiedade generalizada, transtorno do pânico e transtornos de estresse pós traumático. Pode ocorrer conjuntamente com outros transtornos psiquiátricos, especialmente com a depressão(6). Os sintomas, em geral, aparecem sob forma de queixas somáticas, como taquicardia, sudorese, frequência respiratória aumentada, náuseas e vômitos, podendo também ocorrer insônia e sono agitado. Nesses casos os benzodiazepínicos podem ser administrados em baixas dosagens e por curto intervalo de tempo, como auxiliares da psicoterapia e orientação familiar(7).
A experiência clínica indica que as respostas mais favoráveis aos benzodiazepínicos envolvem as reações agudas de ansiedade em pacientes em situação de estresse intenso ou com enfermidades somáticas. São menos apropriados para a terapêutica da ansiedade crônica e para a tensão e ansiedade da vida diária, em que os melhores resultados são obtidos através da psicoterapia(7). Na ansiedade de separação, transtornos fóbicos e de pânico, os antidepressivos triciclícos têm uma ação mais eficaz no manejo desses distúrbios. O cuidado maior, ao se administrarem esses medicamentos, é com a idade dessas crianças, pois devido aos efeitos cardiotóxicos, eles nunca devem ser administrados antes dos seis anos de idade(2).
Transtorno obsessivo-compulsivo
Esse transtorno dificilmente é diagnosticado antes dos cinco anos de idade. Os antidepressivos com mecanismo de ação de inibição de recaptação de serotonina são as drogas mais eficazes no tratamento dessa doença. A clomipramina, um antidepressivo tricíclico com potente atividade de inibição da recaptação de serotonina, é a droga de escolha e tem efeito terapêutico significativo. É utilizada na dosagem de 2,0 a 3,0 mg/kg/dia. Nos últimos anos tem sido preconizado o uso de inibidores seletivos de recaptação de serotonina, como fluoxetina(8) e sertralina(9), na dosagem de 0,5 a 1 mg/kg/dia e 1,5 a 3 mg/kg/dia, respectivamente.
Transtornos afetivos
Atualmente, sabemos através das técnicas de observação de bebês que traços depressivos já podem ser observados em idades precoces, até mesmo em recém-nascidos(10).
Na abordagem da depressão infantil deverão ser incluídas a terapia psicofarmacológica e a psicoterapia. Os antidepressivos, principalmente os tricíclicos, são bastante utilizados. Podemos destacar a imipramina, nortriptilina, amitriptilina, lembrando sempre que são contra-indicados em crianças menores de seis anos. Os efeitos colaterais mais comumente relatados são boca seca, constipação intestinal, náuseas, vômitos, cefaléia, sonolência e tontura. Podem aumentar a frequência cardíaca, a pressão arterial e ocorrer, ainda, alterações eletrocardiográficas(2). Ocorrendo efeitos colaterais, deve-se diminuir a dose do antidepressivo ou retirá-lo. A dosagem da imipramina é calculada em 2,0 a 5,0 mg/kg/dia. Novas drogas, como a fluoxetina e sertralina(9), têm demonstrado apresentar menos efeitos colaterais.
O tratamento psicofarmacológico do episódio maníaco em pré-adolescentes e adolescentes compreende o uso do carbonato de lítio, droga de escolha pela sua grande tolerabilidade e comprovada eficácia e, ainda, de neurolépticos, como o haloperidol, e, menos frequentemente, de outros estabilizadores de humor, como carbamazepina, valproato de sódio e benzodiazepínicos. A dosagem sérica do lítio no plasma se faz necessária, não só devido a seus efeitos tóxicos como diarréia, vômitos, tremor, fraqueza muscular, sedação, distúrbio da fala e coordenação, como também devido a sua eficácia estar intimamente relacionada com seu nível plasmático. Recomenda-se que as concentrações séricas do lítio sejam determinadas com intervalo de um a três meses. A proposta dessa diretriz é alcançar níveis séricos terapêuticos de lítio de 0,6 a 1,2 mEq/l. Com isso, espera-se que os efeitos colaterais sejam mínimos. Em nossa experiência, observamos como efeitos colaterais náuseas, dor abdominal, polidipsia e poliuria(11). Ressaltamos que, antes e durante o uso do lítio, são necessários avaliação e monitoramento periódico das funções tireoidianas, renais e cardíacas.
Criança hipercinética
A síndrome da criança hipercinética pode ser de início precoce. Os primeiros sintomas e sinais já podem ser observados nos primeiros meses de vida. Os principais sintomas-alvo dessa síndrome são a hipercinesia, a agressividade, a impulsividade e a dificuldade de atenção e concentração. Essas crianças podem apresentar sintomas antes dos cinco anos de idade. A indicação medicamentosa inicial consiste em psicoestimulantes, como o metilfenidato, que é um derivado anfetamínico. É indicado para crianças acima de cinco anos. Como efeitos adversos podem ocorrer diminuição do apetite, inibição do crescimento físico, perda de peso, cefaléia, insônia, dor abdominal e distúrbio do humor. A ocorrência de tolerância não está descartada durante o uso prolongado e pode ser evitada com a interrupção do tratamento nos finais de semana, férias e feriados. A dose diária habitual é de 0,3 a 0,6 mg/kg/dose em duas a três tomadas ao dia.
Os antidepressivos tricíclicos constituem a segunda alternativa para o tratamento de pacientes que não responderam aos psicoestimulantes. Não estão associados a potencial de risco de abuso e não apresentam efeito rebote, mas, por outro lado, podem causar diminuição do apetite, sedação e outros efeitos anticolinérgicos(12). A imipramina e a maprotilina são as drogas de escolha, observando-se que essas medicações melhoram a depressão, a hipercinesia e a agressividade, sendo menos eficazes na melhora da atenção e da impulsividade, quando comparadas ao metilfenidato. A tioridazina também pode ser útil, evidenciando sobretudo melhora na agressividade, embora tenha como efeito colateral o sono excessivo.
Transtorno do sono
Os transtornos do sono na infância, sobretudo aqueles que ocorrem antes dos cinco anos de idade, podem estar associados a revivências diurnas aterrorizantes. Assim, os pesadelos, os terrores noturnos e determinados casos de insônia podem ser decorrentes de eventos traumáticos em relação a pais rígidos, filmes de terror ou mesmo pessoas estranhas à criança. Nesses casos, se recomenda o manejo dessas variáveis ambientais temorizantes, sendo desejável que a criança não seja medicada.
Em outros transtornos do sono, como sono agitado, insônia, bruxismo e sonilóquio, têm sido preconizado o uso de antidepressivos tricíclicos(13). A amitriptilina e a clomipramina têm sido administradas nesses transtornos e podem suprimir essas dificuldades do sono. Os benzodiazepínicos têm sido usados por nós nos casos de insônia por um curto período de tempo quando os pacientes não respondem anteriormente aos antidepressivos, pois os problemas advindos do uso desses psicofármacos são a tolerância, dependência e o efeito rebote após a parada da medicação. Em alguns casos pode ocorrer um efeito paradoxal, em que são observadas reações opostas ao efeito terapêutico desejado, independentes da dose em que o medicamento é utilizado. Nesta situação a criança pode ter episódios de depressão, reações paranóides, agressividade, euforia, insônia, pesadelos, conduta hipomaníaca e ataques de fúria; deve-se suspender o benzodiazepínico(7).
Anorexia nervosa e bulimia
Esses transtornos alimentares da infância envolvem tratamento multidisciplinar devido à sua complexidade. Muitas vezes vêm acompanhados de muita ansiedade e de distúrbios afetivos. Nos casos de bulimia, alguns pacientes aparentemente melhoram com o uso de uma ampla variedade de antidepressivos tricíclicos, inibidores da mono- aminoxidase e inibidores específicos da recaptação da serotonina(14). Em relação, mais especificamente, à anorexia, o uso de antidepressivos não aponta resultados satisfatórios. Na anorexia nervosa também tem sido usada a clorpromazina, juntamente com uma dieta hipercalórica e hiperprotéica, observando-se melhora na postura do paciente, ganho de peso, desaparecimento dos sintomas físicos e da depressão, quando presente(15). Em ambos os quadros é aconselhável a associação de intervenções psicoterápicas individual e familiar.
Esquizofrenia infantil
A esquizofrenia é rara na infância e pode ser diagnosticada a partir dos cinco anos de idade. Ela sempre tem um prognóstico grave e evolução pouco favorável. O tratamento específico é o uso de medicações antipsicóticas, como a clorpromazina, a tioridazina, o haloperidol, o pimozida e a risperidona(2). Como manifestação clínica de suas ações, verifica-se diminuição ou remissão dos sintomas psicóticos, como as alucinações, os delírios e a agressividade. É recomendado que se evite a administração de mais de um agente antipsicótico, mas em alguns casos resistentes à monomedicação a associação da risperidona com o haloperidol pode ser útil. A dosagem do haloperidol é calculada em 0,05 a 0,15 mg/kg/dia, dependendo da resposta clínica e gravidade do caso. O uso concomitante da carbamazepina com o antipsicótico também pode ser de grande valia(2).
Autismo
Esse transtorno pode manifestar-se logo nos primeiros meses de vida. É uma alteração grave e não há intervenção médica que possa revertê-la, ou mesmo desfazer sua base psicopatológica. A psicopedagogia, a terapia ocupacional e outras modalidades são formas eficazes de tratamento, nunca esquecendo o apoio e orientação aos pais. Não há um tratamento medicamentoso específico para o autismo, mas algumas substâncias têm sido usadas no controle sintomático e como coadjuvante das outras terapias. O haloperidol tem sido recomendado como medicação de primeira escolha e se mostrou eficaz em sintomas como isolamento, estereotipias, hiperatividade, irritabilidade, negativismo, agressividade e labilidade afetiva(2).
O uso da piridoxina é indicado em um subgrupo de crianças autistas com a denominada síndrome de Asperger. A piridoxina pode mostrar certa eficácia no desenvolvimento da fala e na diluição do sintoma autístico. Em alguns casos se observa que a retirada da piridoxina leva a um agravamento do quadro clínico, sobretudo em relação à atenção e socialização(16). O ácido gama-aminobutírico é um acelerador do metabolismo cerebral e pode ser de ajuda no autismo. A literatura aponta que as crianças autistas podem apresentar crises convulsivas, sobretudo na adolescência, em torno de 25% dos casos. Nessa eventualidade, o uso de haloperidol associado ao clonazepam pode ser administrado. É importante ressaltar que o uso de anticonvulsivante não barbitúrico é a medicação de escolha, pois os barbitúricos, em geral, intensificam os distúrbios comportamentais, sempre segundo nossa experiência.
Transtornos de conduta
Psicopatologia preocupante, que envolve uma série de problemas com a criança na escola, na comunidade e em sua própria casa. É de difícil abordagem terapêutica e o uso de psicofármacos tem como finalidade a diluição de alguns sintomas, tais como agressividade, impulsividade e hipercinesia. As drogas usadas nesse transtorno são o haloperidol, a tioridazina, a sulpirida e a clorpromazina. Essas drogas podem suprimir a agressividade. Deve-se ficar atento aos efeitos colaterais, como sedação e efeitos extrapiramidais. O uso de antidepressivo neste grupo de pacientes pode ser útil, devido à comorbidade da depressão e da ansiedade.
Tentativa de suicídio
Geralmente o pediatra é o primeiro a ser solicitado a atender uma tentativa de suicídio; às vezes por medo, omissão e contradição das informações por parte dos familiares e do próprio paciente a maior preocupação do médico é cuidar das consequências do episódio e não das causas que o precipitaram. Por isso, muitos desses casos não chegam até nosso ambulatório. Ainda assim, temos recebido pacientes com história de ingestão de medicamentos, materiais de limpeza com componentes tóxicos, venenos, ferimentos com arma branca e arma de fogo. É necessária minuciosa avaliação, no sentido de identificar a existência de um diagnóstico prévio de depressão, psicose ou alterações de comportamento, para instituir o tratamento da patologia de base (antidepressivos, neurolépticos e outros psicofármacos que se fizerem necessários em cada caso) , além da abordagem da tentativa suicida, na qual é incluída sempre a orientação familiar(17).
Abuso de drogas
O consumo de drogas lícitas e ilícitas vem expandindo-se nos últimos tempos e temos observado que os jovens têm iniciado o consumo em idades cada vez mais precoces. As crianças e adolescentes, muitas vezes influenciados por fatores socioculturais, desajuste familiar e desenvolvimento inadequado da personalidade, numa situação de crise ou mesmo por curiosidade, procuram na droga uma saída para suas tensões, aceitação em seu grupo social e aumento da auto-estima. É uma situação bastante complexa que envolve não apenas questões médicas, mas também questões sociais, familiares, educacionais e judiciais.
Em nossa experiência temos atendido crianças e adolescentes em situações de uso de inalantes, maconha, álcool e cocaína; mas é o consumo de álcool e cocaína que tem desencadeado o maior número de atendimentos.
O atendimento do alcoolismo inclui o tratamento das intoxicações agudas e das síndromes de abstinência do grau leve até o delirium tremens, embora esta seja uma complicação rara em crianças e adolescentes. Durante a fase de desintoxicação se deve estar atento às complicações clínicas.
A droga de escolha para o tratamento da síndrome de abstinência são os benzodiazepínicos, que agem sobre a ansiedade, tremores e agitação e ainda possuem propriedades anticonvulsivantes. A carbamazepina também tem mostrado sua eficácia no manejo da abstinência alcoólica. O uso de vitaminas nas intoxicações crônicas é de extrema importância; o álcool não apenas causa uma depleção de vitaminas, como parece interferir nas proteínas usadas em seu metabolismo. Costuma-se usar as vitaminas B1, B6 e B12(17). A fluoxetina também é indicada, pois esse antidepressivo reduz a avidez por álcool em bebedores compulsivos(2).
A cocaína pode ser consumida na forma de sal, em aplicação endovenosa ou aspirada. Pode também ser usada na forma de pasta básica de coca, a qual é fumada e conhecida como crack. O efeito do crack no organismo é muito mais rápido e intenso, pois, ao ser fumado, chega imediatamente às vias respiratórias e passa para a corrente sanguínea. Isto o torna uma droga muito perigosa, pois além de poder causar lesões pulmonares graves, provoca com frequência parada respiratória e morte por superdosagem(19). O atendimento aos usuários de crack tem sido um desafio. Geralmente quando são trazidos ao Serviço, o envolvimento com a droga já está num estágio muito avançado, sendo necessário encaminhá-los para centros especializados de desintoxicação com programas específicos, onde, além do atendimento clínico e psicológico do paciente, também é feito um trabalho conjunto com os familiares.
Deficiência mental
Os psicofármacos são utilizados na deficiência mental para alívio de sintomas-alvo e não como tratamento da patologia em si(20). As crianças deficientes mentais podem apresentar também comportamentos hipercinéticos, impulsivos, agressivos e estereotipias, entre outros. O uso de psicofármaco para o tratamento destes distúrbios comportamentais, no sentido de reduzi-los, tem eficácia seletiva. A maior preocupação é o efeito colateral de redução do estado de alerta com consequente redução da capacidade de aprendizado.
Entre as drogas indicadas que parecem melhorar os comportamentos mal-adaptativos do deficiente mental apontamos o haloperidol, a clorpromazina e a tioridazina. O uso do ácido gama-amino-butírico pode ser útil. É importante ressaltar que a síndrome da deficiência mental exige um tratamento multidisciplinar, incluindo a psicopedagogia, terapia ocupacional, treinamento psicomotor e psicoterapia cognitiva.
Transtornos de tique
Os transtornos dos tiques são condições crônicas frequentes. As principais abordagens terapêuticas envolvem intervenções de orientação, psicoterapia e psicofarmacologia. Na síndrome de Gilles de La Tourrete (caracterizada por tiques múltiplos, coprolalia e ecolalia), o haloperidol é o psicofármaco de escolha. É útil começar o tratamento com doses baixas e fazer os aumentos necessários de forma gradual(21).
Outros tipos de tiques são frequentemente tratados com cloridrato de maprotilina ou haloperidol. Em geral, deve-se dar preferência ao cloridrato de maprotilina, devido a seus efeitos colaterais menos intensos, pois o uso de neurolépticos pode levar ao surgimento de distonia aguda, acatisia, acinesia, prejuízo cognitivo e ganho de peso, enquanto na primeira droga o efeito colateral indesejável é a sonolência(13).
Transtorno mental orgânico
Têm sido objeto de estudos recentes as manifestações e complicações psiquiátricas de doenças primariamente neurológicas. Nas síndromes que afetam o SNC se observam alterações cognitivas, emocionais e comportamentais. Nota-se, ainda, em crianças acometidas por epilepsia a ocorrência de problemas de aprendizado, ansiedade, depressão, alterações da conduta, agressividade, hipercinesia, retardo mental e quadros psicóticos.
Em alguns casos a psicoterapia e a abordagem psicopedagógica, associadas ao tratamento neurológico, podem ser suficientes, mas na presença de sintomas psicóticos se torna necessária a introdução de neurolépticos, com especial cuidado e controle devido à capacidade de diminuir o limiar convulsivo. O haloperidol tem sido a droga de escolha. A mesma cautela deve ser tomada se houver necessidade do uso de antidepressivos. Muitas vezes se torna necessário reajustar a dose do anticonvulsivante.
Deve-se evitar o uso do fenobarbital, pois frequentemente provoca hiperatividade, irritabilidade e agressividade em crianças(13).
O uso criterioso, cauteloso e bem indicado de psicofármacos na infância pode complementar outras abordagens terapêuticas, contribuindo para o objetivo de minorar os sinais e sintomas das mais variadas psicopatologias e permitindo que a criança tenha um desenvolvimento mais próximo ao normal, possibilitando-lhe melhor integração sociofamiliar e consequente qualidade de vida.




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