Home Busca Avançada Normas de Publicação Assinaturas Fale Conosco
Contact Us
 
 

 

CopyRight
Moreira Jr Editora
Proibida a reprodução sem autorização expressa


 
    
      Precisamos da colaboração de
            nossos usuários para
               continuar no ar.

Clique para saber mais
sobre a campanha

clube contribuição

Gostou do artigo?


curta nossa página

no Facebook:

curtir fb








Estudo de caso
Tratamento fisioterapêutico na síndrome do respirador bucal
Physiotherapy in the oral breather syndrome


Juliana Bassalobre Carvalho Borges
Professora doutora. Fisioterapeuta - Faculdade da Alta Paulista (FAP), Tupã - SP e Unesp - Marília - SP.
Jaqueline Pedroso de Oliveira, Izânia Miranda Pinheiro Barbosa
Acadêmicas do 8º Termo do Curso de Fisioterapia (2007) - FAP. Rua Mandaguaris, 1010 - Tupã - SP.
Sebastião Marcos Ribeiro de Carvalho
Professor doutor. Docente de Bioestatística, consultor da Faculdade de Medicina de Marília. Pesquisador do grupo de pesquisa Deficiências Físicas e Sensoriais - Depto. de Educação Especial - UNESP - Marília - SP - E-mail: smrc@flash.tv.br
Correspondência: Rua Venâncio de Souza, 422 - CEP 17514-072 - Marília - SP - E-mail: jubassalobre@ig.com.br

Pediatria Moderna Mai/Jun 11 V 47 N 3

Indexado LILACS LLXP: S0031-39202011003600005

Unitermos: respirador bucal, criança, exercícios respiratórios, RPG, fisioterapia.
Unterms: buccal respiration, children, respiratory exercises, RPG, physiotherapy.

Numeração de páginas na revista impressa: 98 à104

Resumo


Introdução: A síndrome do respirador bucal é caracterizada pelo indivíduo que substitui o padrão correto da respiração nasal por um padrão inadequado, de maneira bucal ou mista. É definida por um conjunto de sintomas que constitui um quadro geral de doenças e pelas alterações que podem acontecer nas vias aéreas superiores, modificando o padrão respiratório e levando a alterações faciais e corporais. Objetivo: Apresentar um caso e demonstrar o tratamento fisioterapêutico de um paciente com a síndrome do respirador bucal, permitindo possível melhora da condição respiratória, do padrão postural e das atividades de vida diárias do paciente. Método: Estudo de caso de uma paciente com 10 anos, sexo feminino, com síndrome do respirador bucal. A paciente foi submetida a uma avaliação inicial que constava de anamnese e exame físico, além de avaliação postural, índice de massa corpórea, manuvacuometria, peak-flow e espirometria. O tratamento constou de técnicas de reeducação postural global (RPG), exercícios respiratórios e orientações, com frequência de três vezes na semana, por 60 minutos, num período de dois meses, totalizando 20 sessões. Resultados: Na avaliação inicial a paciente apresentou mais alterações em fechamento – cadeia anterior, portanto no tratamento foram realizadas posturas para abertura. Após o tratamento observou-se melhora da postura; da condição respiratória com melhora nos testes de manuvacuometria, peak-flow e espirometria; melhora também das atividades diárias. Conclusão: O tratamento fisioterapêutico proposto, RPG e exercícios respiratórios, contribuiu para melhora global da condição respiratória, do padrão postural e das atividades diárias.

Introdução

A síndrome do respirador bucal, ou respirador oral, é caracterizada pelo indivíduo que substitui o padrão correto da respiração nasal por um padrão inadequado, de maneira bucal ou mista (buconasal) (Oliveira, 2001).
Denomina-se síndrome do respirador bucal o conjunto de sintomas que constitui um quadro geral de doença e alterações que podem ocorrer nas vias aéreas superiores, modificando o padrão respiratório e assim produzindo a respiração oral, que leva a alterações faciais e corporais (Barbiero; Vanderlei; Nascimento, 2002; Sampaio, 2005).

Existem diferentes tipos de respiradores bucais, classificados em: respirador bucal orgânico que apresenta obstrução nasal mecânica à entrada de ar; respirador bucal funcional que não possui obstrução nasal mecânica e está presente em pacientes de pós-operatório; e respirador bucal neural, utilizados em casos de problemas neurológicos, sequelares ou congênitos inverteram o padrão correto da respiração (Oliveira 2001), como indivíduos com paralisia cerebral e síndrome de Down, devido à hipotonia dos lábios, que ficam entreabertos (Oliveira 2001; Barbiero; Vanderlei; Nascimento, 2002).

A respiração bucal não estimula o crescimento desejável das estruturas ósseas craniofaciais, levando a elevação da maxila, que pode estar associada com o aumento das amígdalas ou adenoides, alterações da anatomia nasal, como desvio de septo, hipertrofia dos cornetos e alergias. Leva a alterações da forma do nariz, olheiras, mordida aberta anterior, mordida cruzada posterior, como também alterações no crescimento da face ou hipotonia labial com aparências de lábios grossos. Assim, a intervenção precoce no respirador bucal é de fundamental importância (Bausells, 1997).

O “respirador bucal” tende a anteriorizar a cabeça, para buscar e facilitar a entrada do ar para os pulmões; assim, consequentemente o tronco irá assumir uma nova posição e a coluna cervical adotará uma postura compensatória, ocasionando encurtamento dos músculos que altera a biomecânica do esqueleto, influenciando na desorganização de outros músculos que tiverem suas inserções e origens nesta mesma estrutura, desencadeando o efeito de cascata postural e o desequilíbrio (Carvalho 2005; Fornasari, 2005).
As alterações verificadas na mecânica ventilatória do respirador bucal mostram que a respiração é de forma mais superior ou apical e a mobilidade diafragmática está diminuída. Já nas alterações posturais ocorrem aumento da lordose cervical e hipercifose dorsal, escápulas aladas, projeção dos ombros para frente e protrusão abdominal (Sociedade Brasileira de Asmáticos, 2005; Ferreira; Ferreira; Tabarelli, 2007).

Segundo Barbiero; Vanderlei; Nascimento (2002), o principal objetivo da fisioterapia é a reeducação da respiração, para que esta chegue o mais perto do fisiológico, diminuindo assim o gasto de energia, melhorando a ventilação pulmonar e corrigindo as alterações do tórax. E, ainda, estimular o tipo respiratório, que deve ser de modo nasal, e corrigir as alterações posturais causadas pela respiração bucal, através do alongamento dos músculos encurtados.

Segundo Bienfait (1999), o alongamento muscular associado a uma correta respiração proporciona melhora no padrão respiratório, pois as alterações do complexo músculo-esquelético decorrente do encurtamento muscular e do tensionamento excessivo da fáscia da cadeia respiratória podem levar a deformação da caixa torácica, proporcionando um conjunto de alterações na biomecânica da mesma e da respiração.

O método de Reeducação Postural Global (RPG), além de proporcionar alongamento muscular, também vem sendo utilizado no tratamento da reeducação respiratória. São utilizadas técnicas de correção postural, assim oferecendo uma reeducação do corpo e da respiração, gerando uma harmonia na reestruturação postural global (Bienfait, 1999; Sociedade Brasileira de Asmáticos, 2005; Souchard, 2005).

Este método descreve cinco cadeias musculares, sendo: cadeia posterior, inspiratória, ântero-interna do ombro, ântero-interna do quadril e interna do ombro, que visa o alongamento muscular ativo em conjunto com a respiração (Bienfait, 1999; Teodori et al., 2003; Souchard, 2005). Além da visão global do indivíduo, esta técnica valoriza a respiração, busca a correção dos desvios e eliminação das compensações, trabalha em eixo e de forma simétrica, buscando a reeducação postural através da globalidade das cadeias musculares (Souchard, 2005).

Contudo, as alterações que a respiração oral ocasiona nos indivíduos portadores da síndrome do respirador bucal são muitas e há poucos estudos na área de tratamento fisioterapêutico. Dessa forma, justifica-se a realização deste trabalho, destacando a importância da atuação multidisciplinar para tratar as possíveis alterações destes pacientes.

Objetivos

Descrever o caso clínico e o tratamento fisioterapêutico de um paciente com a síndrome do respirador bucal, permitindo possível melhora da condição respiratória, do padrão postural, bem como mudanças nas atividades de sua vida diária.

Método

O estudo é definido como relato de caso. Foi realizado na Clínica Escola de Fisioterapia da Faculdade da Alta Paulista (FAP), em Tupã - SP, durante o ano de 2007.

Foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Faculdade de Medicina de Marília – FAMEMA. O responsável pela voluntária assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Prot. Nº 489/2007), concordando com sua participação na pesquisa.

A paciente deste estudo tinha idade de 10 anos, sexo feminino, 1,58 m de altura, 50 kg, cor branca, com diagnóstico de respirador bucal e encaminhada por seu médico para acompanhamento no setor de Fisioterapia Cardiopneumológica da Clínica de Fisioterapia da FAP.

Foi realizada uma avaliação fisioterapêutica inicial, por protocolo desenvolvido pelas pesquisadoras segundo a literatura (Costa, 1999; Regenga, 2000; Santos, 2001; Irwin; Tecklin, 2003; Souchard, 2005; Torres, 2006). Esta avaliação constou de dados pessoais, anamnese, exame físico, avaliação respiratória, exames de avaliação postural e do Índice de Massa Corpórea (IMC). Além de testes específicos, como manuvacuometria, peak-flow e espirometria.


Fonte: Neder, Andreoni, Lerario, Nery; 1999, p.722.

A avaliação postural foi realizada nas incidências lateral, anterior e posterior com ajuda do simetrógrafo e máquina fotográfica digital. Esta avaliação seguiu os fundamentos da RPG (Santos, 2001; Souchard, 2005).
A avaliação do IMC foi realizada segundo Regenga (2000). O IMC foi determinado pelo cálculo do peso corpóreo em kg, dividido pela altura em metro ao quadrado, com classificação definida por meio dos pontos de corte utilizados para determinação de sobrepeso e obesidade em crianças e adolescentes, considerados segundo a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO).

Para avaliação da manuvacuometria foi utilizado manuvacuômetro da marca Clínica Médica® com intervalo de -150 a +150 cmH20. Foram avaliadas as variáveis: pressão inspiratória e expiratória máximas (PImax e PEmax, respectivamente), segundo método de Black; e Hyatt (1969), no qual o indivíduo permanece na posição sentada e utiliza um clipe nasal para ocluir as narinas. A PImax foi medida ao final de uma manobra de inspiração máxima, partindo do volume residual, e a PEmax ao final de uma manobra de expiração máxima, a partir da capacidade pulmonar total (CPT). Os valores obtidos foram comparados aos respectivos valores previstos, apresentados no Quadro 1, segundo as equações propostas para população brasileira por Neder et al. (1999).

Para avaliação do peak-flow foi utilizado o medidor de fluxo expiratório da marca Airmed. Foi avaliada a variável pico de fluxo expiratório (PFE), segundo os procedimentos descritos pela Sociedade Brasileira de Alergia e Imunopatologia de São Paulo (2000), a qual orienta o indivíduo a inspirar profundamente até a CPT e, em seguida, expirar o mais forte e rápido possível. A paciente foi orientada a inspirar profundamente pela boca e, em seguida, expirar todo o ar dentro do medidor sem deixar que o mesmo escapasse pelos lados da boca. Os valores obtidos foram comparados com os previstos pelo manual do aparelho.

Na avaliação da espirometria foi utilizado o espirômetro da marca Cosmed® Pulmonary Function Equipment. Foram realizadas as provas de capacidade vital forçada (CVF), capacidade vital lenta (CVL) e ventilação voluntária máxima (VVM), segundo os critérios da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (Pereira, 2001). As variáveis avaliadas foram CVF, volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF1) e relação VEF1/CVF e PFE.

Na realização dos procedimentos manuvacuometria, PFE e espirometria, a voluntária permaneceu sentada, em repouso, com as narinas ocluídas por um clipe nasal. Foi orientada verbalmente durante todo o teste e em cada aparelho as medidas foram repetidas três vezes, permitindo repouso durante os esforços e registrando a de maior valor (Black; Hyatt, 1969; Tarantino, 2002).

Após a avaliação foram traçados os objetivos e a conduta fisioterapêutica, baseados nos princípios da fisioterapia, enfocando o paciente de uma maneira global.

Objetivos fisioterapêuticos: melhorar o padrão postural global, a mobilidade diafragmática, o padrão ventilatório, a ventilação perfusão (V/Q); reeducar a respiração, prevenir complicações pulmonares e propiciar uma melhor qualidade em suas atividades diárias.
Conduta fisioterapêutica: i) exercícios respiratórios: padrão ventilatório (PV) diafragmático, PV frenolabial e respiração com inspiração máxima e expiração prolongada; técnicas de RPG associadas com o exercício respiratório PV frenolabial; ii) orientações para a paciente e sua mãe, em relação aos exercícios respiratórios, postura e esclarecimento de dúvidas.

A proposta deste estudo foi realizar atendimento fisioterapêutico três vezes na semana, com duração de 60 minutos cada sessão, por um período de dois meses, totalizando 20 sessões.

As técnicas descritas neste estudo foram baseadas nos princípios do RPG e da terapia manual, segundo Souchard (1996), Bienfait (1999) e Souchard (2005). Os padrões ventilatórios foram realizados segundo Costa (1999) e Azeredo (2002).

Antes de iniciar a primeira sessão de tratamento foram explicados à paciente e sua mãe todos os procedimentos que seriam realizados. Cada sessão foi composta, sequencialmente, das seguintes atividades:

1. Liberação diafragmática;
2. PV diafragmático;
3. Pompage lombar e posição de rã no chão com braços abertos;
4. Manobras miofasciais dos músculos peitoral maior e menor, trapézio, esternocleidomastoideo e escaleno. Essas manobras foram realizadas ainda na posição rã no chão. Nos músculos peitorais foi utilizada a técnica com as mãos cruzadas do terapeuta; no trapézio realizou lateralização da cabeça; para escaleno e esternocleidomastoideo foi realizada rotação da cabeça. Todas as manobras foram realizadas uma vez, bilateralmente e mantido o tensionamento por 60 segundos em cada uma;
5. Respiração em inspiração máxima e expiração prolongada: ainda na posição de rã no chão, foram realizadas três séries de 10 repetições, com cada braço em abdução, totalizando seis séries, permitindo descanso por um minuto entre as mesmas;
6. Manobras miofasciais da fáscia plantar;
7. Alongamento dos músculos da cadeia ântero-interna do ombro (coracobraquial, subescapular);
8. Postura em pé contra a parede: realizada no final, a paciente se manteve na posição com o terapeuta enfatizando a postura correta e a respiração.

Após dois meses de tratamento foi realizada uma reavaliação com as mesmas medidas e testes do protocolo inicial e feita uma pergunta, por escrito, à paciente e sua mãe, em relação à vida diária.

A paciente respondeu à pergunta: “O que o tratamento fisioterapêutico melhorou em sua rotina diária?” A mãe respondeu à pergunta: “O que o tratamento fisioterapêutico melhorou na rotina diária de sua filha?” As duas responderam individualmente, por escrito.

Os achados das variáveis numéricas foram resumidos por meio de gráficos, tabelas, valores absolutos e porcentagem, antes e após o tratamento fisioterapêutico. As variáveis nominais foram resumidas de acordo com o descrito no item dos procedimentos.
O nível clínico de melhora para as variáveis PImax, PEmax, PFE e TC6, após o tratamento, foi obtido por meio da equação:



Resultados / descrição do caso

Apresentou-se a criança com sua mãe na Clínica de Fisioterapia da FAP, no ano de 2007. A paciente tinha 10 anos completos, cor branca, 1,58 m de altura, 50 kg, sexo feminino, com diagnóstico médico de respirador bucal. Queixa principal de dispneia aos pequenos esforços, relatando “falta de ar”.

Na avaliação fisioterapêutica cardiopulmonar foi relatado que a falta de ar estava presente ao dormir (“sono sufocado”), comer e brincar; apresentava dor de ouvido frequente e o nariz sempre “tampado”. Segundo a mãe, o médico constatou rinite alérgica e foi realizado tratamento, houve melhora da mesma e da dor de ouvido, mas apresenta ainda falta de ar ao comer, dormir e brincar.

Não relata história familiar de patologias pulmonares, nem hipertensão arterial e diabetes, não realizou nenhum tipo de cirurgia e realiza atividades físicas duas vezes na semana. Fazia uso de medicamentos: loratadina (10 mg) uma vez à noite e Snif ou soro fisiológico três vezes ao dia, meio conta-gotas em cada narina.
No exame físico os sinais vitais apresentados foram: PA: 110/60 mmHg; FC: 70 bpm; FR: 14 rpm e SpO2 = 97%. O cálculo do IMC foi 20 kg/m2, sendo considerado normal. Encontrava-se em bom estado geral sem uso de oxigenoterapia e não apresentava dispneia.

Na avaliação respiratória apresentou biótipo de tórax brevelíneo, ritmo respiratório eupneico, tipo respiratório costal superior/apical, utilizando musculatura acessória da respiração, bilateral: peitoral maior, escalenos e esternocleidomastoideo. Sem alteração na expansibilidade torácica, ausência de tosse e expectoração. À ausculta pulmonar foi constatado murmúrio vesicular presente, sem a presença de ruídos adventícios.

Alterações posturais
Na avaliação postural inicial, considerando a avaliação morfotipológica (Quadro 2), a paciente apresentou mais alterações em fechamento, ou seja, na cadeia anterior. Devido a isso no tratamento foram realizadas posturas para abertura.
Analisando a vista anterior na avaliação postural, observou-se, após o tratamento fisioterapêutico, melhora da simetria da cabeça, dos ombros e da cintura pélvica.

Na análise da vista lateral, à avaliação postural, observou-se, após o tratamento fisioterapêutico, melhora da anteriorização da cabeça, da protrusão do ombro, da protrusão abdominal – onde foi obtido fortalecimento da musculatura abdominal e reeducação respiratória; leve melhora da hiperlordose lombar, melhora ainda na rotação do ombro, inclinação anterior do tronco e da cifose dorsal.

As alterações posturais encontradas na paciente do presente estudo, como anteriorização da cabeça, protrusão dos ombros, protrusão abdominal e hiperlordose lombar, concordam com Silva; Sampaio; Carrascosa (2006); Oliveira (2001), que descreveram essas mesmas alterações posturais em respiradores bucais. A paciente em estudo provavelmente apresenta encurtamento de diafragma, pois, segundo Souchard (1996), o encurtamento do diafragma acarreta anteriorização da cabeça, dorso encurvado e enrolamento de ombros; devido a isso foram enfatizados no presente tratamento, a liberação e reeducação diafragmática.
Analisando a vista posterior, na avaliação postural, observou-se, após o tratamento fisioterapêutico, melhora do alinhamento da cabeça, da simetria de ombros e da anteriorização, da simetria das escápulas e melhora da adução de membros superiores, principalmente esquerdo.

Carvalho (2005) relatou as alterações músculo-esqueléticas causadas em indivíduos portadores da síndrome do respirador bucal, concordando com as alterações encontradas no presente estudo, como desalinhamento da cabeça, anteriorização dos ombros e escápulas aladas.

Lima (2003), em seu estudo, observou que as principais alterações posturais dos respiradores bucais são aumento da cifose dorsal, lordose cervical e lombar, bem como a presença de escoliose, sendo a lordose lombar a mais encontrada. Pelo fato de respirarem pela boca, tendem a anteriorizar a cabeça para facilitar a entrada de ar e, assim, melhorar a ventilação pulmonar; devido a essa adaptação, o corpo adota posturas compensatórias. Essas descompensações posturais atuam alterando o sistema respiratório, diminuindo a mobilidade torácica, o volume de ar e as trocas gasosas.

Após o levantamento bibliográfico não foram encontrados estudos que comprovassem as melhoras posturais através do RPG e exercícios respiratórios, em pacientes respiradores bucais, porém vários autores, como Barbiero; Vanderlei; Nascimento (2002), Breda (2003), Lima (2003) e a Sociedade Brasileira de Asmáticos (2007), indicam a técnica de RPG para o tratamento destes pacientes. No entanto, o presente estudo demonstra que a utilização do método RPG possibilitou melhora das alterações posturais e da mecânica ventilatória em uma paciente respiradora bucal, concordando com e confirmando a indicação dos autores acima.

Kaneto e Servilha (2006) utilizaram tratamento similar ao presente, com paciente da mesma idade, porém com diagnóstico de asma e também obtiveram melhora das alterações posturais e da mecânica ventilatória.

Segundo a Sociedade Brasileira de Asmáticos (2007), o tratamento fisioterapêutico mais atual para os respiradores bucais é a utilização de técnicas que envolvam a correção postural, visando reeducar a respiração e o corpo. No decorrer do tratamento deve ser ensinada ao paciente a conscientização da respiração e o posicionamento do seu corpo corretamente, proporcionando assim a reestruturação postural global, o que está de acordo com as orientações adotadas para a paciente deste estudo.
Segundo Bienfait (1999), o alongamento muscular associado a uma correta respiração melhora o padrão respiratório, concordando com Souchard (2005), que descreve que a harmonia da reestruturação postural global depende da reeducação do corpo e da respiração.

De acordo com a fisiologia do diafragma, Bienfait (1999) conclui que é o diafragma que se adapta às deformidades do tórax e não o tórax que se adapta ao diafragma. Assim, qualquer patologia torácica irá comprometer o diafragma.



Testes específicos

Pressões respiratórias máximas e peak-flow

Na Tabela 1 estão apresentados os valores do teste de manuvacuômetro e peak-flow, antes e após o tratamento fisioterapêutico e também em relação ao valor previsto na liteliteratura. Observou-se aumento dos valores após o tratamento, principalmente para as variáveis de pressões respiratórias.
Observou-se melhora significativa na PImax, de 71,4%, e na PEmax, de 50,0%, após o tratamento fisioterapêutico, concordando com Teodori et al. (2003), quando relatam que o alongamento da cadeia muscular inspiratória e expiratória, através do método RPG, promove benefícios na performance dos músculos inspiratórios e expiratórios, aumentando assim os valores da PImax e PEmax, como também o uso de exercícios respiratórios que auxiliam no aumento dessas variáveis, concordando com Alves; Coelho; Bruneto (2005).

Na avaliação inicial o PFE se apresentava abaixo do valor esperado para a idade, concordando com Breda (2003), que em seu estudo relatou que de 14 crianças avaliadas com a síndrome do respirador bucal, 13 apresentaram valor de PFE abaixo do esperado e apenas uma apresentou valores normais.
O presente estudo concorda com Kaneto e Servilha (2006), pois relataram melhora dos valores da PImax, PEmax e peak-flow após o tratamento com uso do RPG e exercícios respiratórios. Da mesma forma, Alves; Coelho; Bruneto (2005) também alcançaram melhora dessas variáveis com o uso de exercícios respiratórios e RPG; estudo de Paulin; Favoreto; Vidotto (2001) mostrou melhora do valor do peak-flow após o tratamento com exercícios respiratórios, ambos concordando com os presentes achados.



Prova de função pulmonar / espirometria
Os resultados encontrados na prova de função pulmonar estão descritos no Gráfico 1.

Observa-se que os valores alcançados foram próximos dos previstos, exceto para o PFE, que o previsto era 5,04 L/s. A paciente antes do tratamento alcançou PFE de 2,89 L/s e depois do tratamento de 4,84 L/s, melhora de 1,95 L/s e, consequentemente, melhorou também a ventilação voluntária máxima, de 93,1 para 97,8 L/min; concordando com estudo de Alves; Coelho; Bruneto (2005), os quais relataram que após tratamento enfatizando a reeducação respiratória ocorre melhora das variáveis espirométricas.

Venturelli (2006) mostrou, em seu estudo, a função pulmonar de 17 crianças respiradores bucais; encontrou diminuição das variáveis devido às alterações posturais que as crianças apresentavam, concordando com o presente estudo para a variável PFE.
Acredita-se que esta melhora no PFE, após as 20 sessões, reflita uma reeducação respiratória e que se a duração do tratamento for maior, conseguiremos também melhorar a CVF e o VEF1, pois no estudo de Alves; Coelho; Bruneto (2005) observaram melhora destas variáveis após cinco meses de tratamento, em paciente com doença de Parkinson.


Gráfico 1 - Variáveis da função pulmonar antes e após o tratamento.

Atividades diárias
Ao final do tratamento, quando perguntado em relação à melhora na rotina diária, as respostas tanto da paciente quanto de sua mãe foram semelhantes. Relataram que a mesma não sente mais “falta de ar” na realização das atividades de vida diária, como comer, correr e brincar. Portanto, os exercícios respiratórios contribuíram para a diminuição da dispneia aos esforços, concordando com Kaneto e Servilha (2006), que também observaram melhora na dispneia após o tratamento em paciente asmático. Paulin; Favoreto; Vidoto (2001) constataram, em seu estudo, melhora, além da dispneia, da qualidade de vida em paciente, asmático depois do tratamento. Dessa forma, podemos sugerir que o tratamento fisioterapêutico interferiu positivamente na qualidade de vida dessa paciente.

Conclusões

O tratamento fisioterapêutico proposto, consistindo de RPG e exercícios respiratórios, contribui para melhora global da condição respiratória, do padrão postural e das atividades diárias. Destacando: melhora da força muscular respiratória, com aumento das pressões respiratórias atingindo valores acima do previsto para a idade; melhora do pico de fluxo expiratório; diminuição da dispneia aos esforços; melhora do padrão respiratório, do padrão postural global e na qualidade de vida, principalmente na realização das atividades da vida diária.
Sugere-se a continuidade do tratamento proposto, visando restabelecer totalmente o equilíbrio postural global dessa paciente. Destaca-se a necessidade de mais pesquisas, com maior número de pacientes respiradores bucais e em maior período de tratamento, a fim de que sejam divulgados os benefícios do tratamento fisioterapêutico nesses pacientes.




Bibliografia
1. Alves LA, Coelho AC, Brunetto AF. Fisioterapia respiratória na doença de Parkinson idiopática: relato de caso. Fisioter e Pesq. 2005; 12(3):46-9.
2. Azeredo CAC. Fisioterapia Respiratória Moderna. São Paulo: Manole; 2002.
3. Barbieiro EF, Vanderlei LCM, Nascimento PC. A síndrome do respirador bucal: uma revisão para a fisioterapia. Inic Cient Cesumar. 2002; 4(2):125-130.
4. Bausells SJ. Odontopediatria: procedimentos clínicos. São Paulo: Editorial Premier; 1997.
5. Bienfait M. Fáscias e pompagens: estudo e tratamento do esqueleto fibroso. São Paulo: Summus, 1999.
6. Black LF, Hyatt RE. Maximal respiratory pressures: normal values and relationship to age and sex. Am Rev Respir Dis. 1969; 99:696-702.
7. Breda D. Avaliação postural e da função respiratória em crianças de 5 a 10 anos de idade, com rinite alérgica, hipertrofia de adenoide e síndrome do respirador bucal.Trabalho de Conclusão de Curso (Graduada em Fisioterapia). Curso de Fisioterapia. Cascavel: Universidade Estadual do Oeste do Paraná; 2003.
8. Carvalho FM. Respirador bucal: Uma visão multidisciplinar. São Paulo: Lovise; 2005. O respirador bucal na visão da fisioterapia; p.209-216.
9. Costa D. Fisioterapia Respiratória Básica. São Paulo: Atheneu; 1999.
10. Ferreira FV, Ferreira FV, Tabarelli Z. Amamentação e respiração bucal: abordagem fisioterapêutica e odontológica. Rev Bras Fisioter. 2007; 8(1):4-6.
11. Fornasari CA. Respirador Bucal: Uma visão multidisciplinar. São Paulo: Lovise; 2005. Aspectos posturais de interesse clínico na avaliação do respirador bucal:p. 59-61.
12. Irwin S, Tecklin JS. Fisioterapia Cardiopulmonar. 3 ed. Barueri: Manole; 2003.
13. Kaneto TF, Servilha MR. Tratamento fisioterapêutico em criança asmática - relato de caso. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Fisioterapia) Curso de Fisioterapia. Tupã: Faculdade da Alta Paulista; 2006.
14. Lima JG. Síndrome do Respirador Bucal: Abordagem Fisioterapêutica. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduada em Fisioterapia). Curso fisioterapia. Cascavel:Universidade Estadual do Oeste do Paraná; 2003.
15. Neder JA, Andreoni S, Lerario MC, Nery LE. References values for lung function tests II. Maximal respiratory pressure and voluntary ventilation. Braz J Med Biol Res.1999; 32:719-27.
16. Oliveira TC. Síndrome do respirador bucal: Análise fisiopatológica e uma abordagem fisioterapêutica pneumofuncional. Rev. Lato Sensu. 2001; 2(4):87-9.
17. Paulin E, Favoreto EB, Vidotto CC. Benefícios da fisioterapia respiratória na asma. Relato de um caso. Arq Ciênc Saude Unipar.2001; 5(2)149-154.
18. Regenga MM. Fisioterapia em Cardiologia: da UTI à reabilitação. São Paulo: Roca; 2000.
19. Sampaio MA. Respirador Bucal: Uma visão multidisciplinar. São Paulo: Lovise; 2005. O respirador bucal: 63-78.
20. Santos A. Diagnóstico clínico postural: um guia prático. São Paulo: Summus; 2001.
21. Silva FB, Sampaio LMM, Carrascosa AC. Avaliação fisioterapêutica dos sistemas mastigatório e respiratório de um portador de síndrome otodental: Um estudo de caso. Rev bras Fisioter. 2006; 10(1):133-6.
22. Sociedade Brasileira de Asmáticos. Fisioterapia Respiratória. J SBA; 2005.
23. Sociedade Brasileira de Asmáticos. Fisioterapia Respiratória. J SBA; 2007.
24. Souchard P. O Stretching Global ativo: A reeducação postural global a serviço do esporte. São Paulo: Manole; 1996.
25. Souchard P. RPG® Fundamentos da reeducação postural global: princípios e originalidade. São Paulo: É realizações editora; 2005.
26. Tarantino AB. Doenças Pulmonares, 5 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2002.
27. Teodori RM, Moreno MA, Fiore Júnior JF, Oliveira ACS. Alongamento da musculatura inspiratória por intermédio de reeducação postural global (RPG). Rev bras fisioter. 20037(1):25-30.
28. Torres PFM. Fisioterapia: guia prático para a clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2006.