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Artigo Original
Avaliação da qualidade de vida de um grupo de idosos portadores de doenças crônicas não transmissíveis vinculados a um programa de promoção da saúde
Quality-of-life evaluation of a group of elderly patients with chronic diseases linked to health promotion program


Maria Elisa Gonzalez Manso
Mestre em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Ruth Gelehrter da Costa Lopes
Doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo. Professora associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Vice-coordenadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia.
Correspondência:
Maria Elisa Gonzalez Manso
Rua Celso de Azevedo Marques, 740, compl. 1101
Mooca - CEP 03122-010 - São Paulo - SP
E-mail: maria.manso@unimeds.com.br

Recebido para publicação em 02/2010.
Aceito em 08/2010.

RBM Especial Clínica Geral - V 67 Out/10

Indexado LILACS: S0034-72642010005600002

Unitermos: idosos, qualidade de vida, promoção da saúde, planos de saúde.
Unterms: elders, quality-of-life, health improvement, health insurance.

Numeração de páginas na revista impressa: 12 à 19

Resumo


O sistema de saúde suplementar brasileiro em virtude de obrigação normativa e com vistas tanto à busca de um novo modelo de atenção à saúde, mais cuidador, quanto à redução de custos vem implantando programas de promoção da saúde e prevenção de doenças e riscos. Estes programas são apoiados em dados demográficos e epidemiológicos que demonstram que as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) estão diretamente relacionadas à mortalidade e morbidade da população idosa e ao aumento da utilização de serviços de saúde por este segmento populacional. O objetivo destes programas se relaciona à melhora esperada da qualidade de vida dos participantes. Esta pesquisa pretende apreender a interpretação que os idosos participantes de um destes programas dão ao conceito qualidade de vida, verificar se estes idosos avaliam que as DCNT que os acometem interferem nesta e como veem a contribuição do programa que frequentam para esta última. A metodologia, qualitativa, realizou-se mediante entrevistas semiestruturadas. Participaram do estudo 13 idosos vinculados a um programa de promoção da saúde realizado por uma operadora de planos de saúde localizada na cidade de São Paulo, no ano de 2009. Constatou-se que o grupo avalia sua qualidade de vida como boa e muito boa, relacionando-a principalmente com bem-estar e convívio social, destacando que as doenças crônicas afetam por imporem restrições à suas atividades, que são, porém, superáveis. A participação no programa é avaliada como proporcionando bem-estar, oportunidade de convívio social e aprendizado. Acredita-se que a pesquisa atingiu os objetivos propostos, existindo, entretanto, pontos que necessitam de maior aprofundamento.

Introdução

A Constituição Brasileira de 1998 destaca que a saúde é um direito de todos e dever do Estado, sendo o Sistema Único de Saúde (SUS) a forma como o Poder Público cumpre seu dever. A Carta Magna explicita o direito da coletividade à promoção e à proteção da saúde e admite a participação da iniciativa privada como suplementar ao sistema.

Santos, Ugá e Porto(1) ressalvam que a Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OECD) classifica um sistema de saúde como suplementar quando a oferta de serviços na área ocorre de forma duplicada: há um sistema público cujo acesso é universal e de adesão compulsória e um sistema privado com a mesma cobertura, porém de acessibilidade restrita diretamente relacionada à renda.

A Lei 9656, de 1998, define plano privado de assistência à saúde como a prestação continuada ou cobertura de custos assistenciais com preço pré ou pós-estabelecido e por prazo indeterminado com a finalidade de garantir ao consumidor a assistência à saúde, na área médica, hospitalar ou odontológica. Sobre o conceito de operadora de planos de saúde (OPS), a lei destaca ser pessoa jurídica constituída sob a modalidade de sociedade civil ou comercial, cooperativa ou entidade de autogestão que opere produto, serviço ou contrato de plano privado de assistência à saúde.

O mercado de saúde suplementar brasileiro é regulado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), criada pela Lei 9.961 de 2000, cuja finalidade é a de promover a defesa do interesse público na assistência suplementar à saúde, regulando as operadoras, inclusive quanto às suas relações com prestadores de serviços e consumidores(2).

A agência, desde o ano de 2005, vem estimulando a mudança do modelo assistencial das OPS, fomentando a implantação de ações de promoção da saúde e prevenção de doenças e riscos. Estas ações fazem parte do Programa de Qualificação de Saúde Suplementar, mediante o qual a ANS pretende que as operadoras sejam gestoras do cuidado em todas as fases de atenção, articulando assim todos os atores envolvidos no processo de atendimento aos beneficiários por estas empresas.

A reflexão sobre a mudança do modelo de assistência à saúde que a agência propõe se baseia não só no perfil de morbimortalidade da população, mas na transição demográfica, epidemiológica e nutricional por que passa a população brasileira no aumento dos custos na assistência à saúde e no potencial impacto das ações de promoção e prevenção. A ANS busca ao regulamentar o tema não só a melhoria da gestão do sistema de saúde suplementar brasileiro, mas, como destaca a melhoria da qualidade de vida dos consumidores dos planos de saúde(3).

Em dezembro de 2008, segundo dados da ANS, 40,9 milhões de pessoas eram beneficiários de planos de saúde no Brasil. Destes, 4.513.429 tinham acima de 59 anos, sendo em sua maioria mulheres.

Veras e Parahyba(4), analisando os dados da PNAD de 1998 e de 2003, destacam que em torno de 5 milhões de idosos brasileiros têm planos de saúde vinculados ao sistema de saúde suplementar, sendo que este número vem aumentando. A maior cobertura é observada nas faixas etárias de 70 a 79 anos (26,7%) e 80 anos e mais (30,2%) e está diretamente relacionada ao incremento da renda.

Os autores destacam que em torno de 30% da população, em 2003, declarou ter pelo menos uma doença crônica. A proporção destas doenças aumenta com a idade: 75,5% entre os idosos em contraste com 9,3% na faixa etária de 0 a 14 anos. Os idosos também apresentam um número maior de doenças associadas.

Esta pesquisa também evidenciou que nos extremos de idade se ampliam as necessidades de consultas, medicamentos, exames complementares e hospitalização, assumindo estas um padrão de distribuição em J, isto é, tanto no início quanto no final da vida as pessoas apresentam mais problemas de saúde. Na infância há predomínio das doenças agudas e na velhice de doenças crônicas.

Concluem os autores ressalvando a necessidade do setor privado ter modelos assistenciais mais modernos, mais resolutivos e com custo mais adequado voltados para os idosos, já que a maioria destes não se encontra fragilizada. Os modelos deveriam privilegiar a manutenção da capacidade funcional, programas de prevenção e monitoramento de doenças crônicas, sistema médico personalizado, entre outros.

Hoje em dia a maioria das OPS no Brasil já trabalha com programas voltados para a educação em saúde, promoção da saúde e/ou prevenção de doenças, principalmente com ênfase para as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). Este fato é atribuível não só a regulamentação do setor realizada pela ANS, como ao custo elevado causado por estas últimas entidades nosológicas.

Em uma OPS localizada na cidade de São Paulo há um ano vem sendo desenvolvido um programa de promoção à saúde para idosos portadores de DCNT. Este programa se volta para o segmento populacional citado posto este representar 25% do total de beneficiários da operadora. O programa parte da premissa que as ações de promoção da saúde buscam não só atender exigências normativas e redução dos custos assistenciais, mas a melhora da qualidade de vida dos idosos que delas participam.

A implantação deste programa teve como pressuposto que a melhora da qualidade de vida dos participantes decorre da sua inserção social, do respeito à diversidade e autonomia, bem como das especificidades da velhice enquanto fase do processo de envelhecimento.
Entretanto, algumas indagações surgiram, nascendo assim esta pesquisa que tem como objetivos apreender a interpretação que os idosos participantes dão ao conceito qualidade de vida, verificar se estes idosos avaliam que as DCNT que os acometem interferem nesta e como veem a contribuição do programa que frequentam para esta última.

Metodologia

A pesquisa se desenvolve em uma OPS modalidade cooperativa de trabalho médico, Federação das UNIMED’s do Estado de São Paulo (FESP).

A OPS FESP tinha, em março de 2009, 350.000 beneficiários em sua carteira de clientes. Destes, 86.809 (24, 80%) têm acima de 60 anos, sendo que 32.485 (37,42%) são do sexo masculino e 54.324 (62,58%) do sexo feminino.

Como já mencionado, esta OPS vem desenvolvendo desde junho de 2008 atividades de promoção da saúde e prevenção de riscos e doenças em sua sede situada na cidade de São Paulo. Trata-se de um programa voltado para idosos, desenvolvido por uma equipe multidisciplinar composta por médicos, assistentes sociais, psicólogos, nutricionistas, enfermeiros e educador físico. O programa tem como objetivo a melhoria da qualidade de vida dos idosos participantes, a reinserção social dos mesmos e a racionalização dos custos com a assistência a saúde.

Trata-se de pesquisa exploratória, prospectiva, realizada durante os meses de abril a maio de 2009. Foram selecionados 13 idosos, assim definidos pelo critério cronológico constante do Estatuto do Idoso (acima de 60 anos), participantes assíduos das atividades do referido programa desde seu início e que possuíam capacidade de comunicação preservada.

A pesquisa obteve aprovação da Comissão de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP, Campus Monte Alegre, em reunião ordinária de 27/04/2009 sob o número 034/2009. Os entrevistados foram caracterizados pelas iniciais de seus nomes, a fim de garantir a confidencialidade e anonimato.

Para realização da pesquisa qualitativa se optou pela utilização de entrevista semiestruturada apoiada por um roteiro previamente estabelecido. Minayo(5) destaca que a entrevista é a estratégia mais utilizada no trabalho de campo e que permite a construção de informações sobre o objeto a ser pesquisado. Por entrevista semiestruturada a autora entende aquela que combina perguntas fechadas e abertas, baseada em roteiro que serve de apoio ao entrevistador.

Ressalva ainda a autora que o pesquisador que utiliza abordagem qualitativa não estuda apenas um somatório de depoimentos, mas sim se utiliza de uma práxis compreensiva, o que torna o número de entrevistas irrelevante, já que os significados podem ser apreendidos de apenas um ou poucos interlocutores.

As entrevistas foram realizadas durante as atividades do programa, gravadas e transcritas. Após a transcrição, o conteúdo foi analisado, partindo-se da abordagem de Geertz de que há influência dos universos social e cultural sobre os conceitos analisados e que a cultura é um universo de símbolos e significados que permite aos indivíduos de um grupo interpretar suas experiências e guiar suas ações(6).

Do ponto de vista antropológico, a doença não é apenas a dimensão biológica, daí a existência de um conjunto de símbolos que são base para sua interpretação. Estes símbolos intervêm na construção do significado da doença.

Esta abordagem fundamenta a diferenciação interpretativa entre doença-experiência, ilness, e doença-processo, disease. A primeira se refere à experiência subjetiva do malestar vivido pelo doente, incluindo elementos psíquicos, culturais e sociais da doença, enquanto a segunda é ordem biomédica, relacionada às anormalidades do funcionamento do organismo. Nesta perspectiva se considera que a doença conjuga uma série de normas, valores e expectativas individuais e coletivas que se expressam em formas específicas de agir e pensar(7).

Resultados e discussão

Dos 13 idosos entrevistados, a maioria pertence ao sexo feminino, 67% dos participantes, seguindo-se a distribuição por sexo encontrada entre a população de idosos brasileira, em que 55% destes são mulheres(8).

Veras e cols.(9) destacam que, em análise das características demográficas dos idosos vinculados ao sistema de saúde suplementar brasileiro, as maiores coberturas pelos planos de saúde se concentram entre o sexo feminino, principalmente na região Sudeste.

As idades dos participantes variaram entre 60 e 88 anos, com média de 73 anos. Ao ser comparada a distribuição por faixa etária encontrada para o grupo de idosos em relação à obtida para a região metropolitana de São Paulo em 2005, chama a atenção a maior porcentagem de participantes do grupo acima dos 70 anos de idade, principalmente acima dos 75 anos(10). Foi utilizada como comparação a região metropolitana citada por ser o local de moradia de todos os participantes da pesquisa.

A literatura destaca que entre os usuários de planos de saúde as maiores coberturas se encontram nas faixas etárias acima de 70 anos, principalmente, e 80 e mais anos(4,9). Estes dados corroboram os encontrados nesta pesquisa.

A maior parte dos idosos do grupo é casada ou viúva, predominando no sexo feminino o estado civil viúvo e solteiro, enquanto que entre os homens a maioria é casada ou se encontra em outra situação conjugal, destacando-se o número de idosos em união estável(8).

Os idosos deste grupo apresentam elevado grau de instrução, tendo a maioria ensino superior e médio completos. Nos dados obtidos pela PNAD 2005 destaca-se que a porcentagem de idosos acima de 60 anos que cursaram mais de 9 anos de estudo para a região metropolitana de São Paulo não ultrapassa 18% da população pesquisada, porcentagem esta ainda menor, 13,5%, quando observada para o Brasil como um todo(10).

Destaca-se que o elevado grau de escolaridade apresentado pelo grupo, em que 75% dos idosos apresentam ensino médio e superior completos, pode ser imputado à característica da própria amostra, posto que se trata de indivíduos vinculados a planos de saúde que são oferecidos a associações de classe e sindicatos.

No que tange à situação ocupacional, a grande maioria dos idosos que participa do grupo é aposentada e, quanto maior a faixa de idade, maior o número destes. Estes dados não diferem da situação encontrada para estes grupos etários na literatura(8,10).

As DCNT representam atualmente a maior causa de morbidade mundial, sendo que quanto maior a idade, maior sua prevalência(11). Em estudo realizado com idosos em Campinas, Garcia e cols. encontraram como doenças mais prevalentes entre estes a hipertensão arterial e suas complicações, as artroses, algias, diabetes, as doenças do trato digestório e as cardiopatias(12).

Lebrão e Duarte(13), em pesquisa realizada com idosos moradores nas grandes capitais brasileiras, ressaltam que 81% destes têm alguma DCNT, sendo as mais citadas a hipertensão arterial e o diabetes.

Brandão e cols.(14) mencionam ser a hipertensão arterial altamente prevalente em idosos, estando diretamente relacionada com a mortalidade por doenças cardíacas, acidente vascular encefálico (AVE), insuficiência renal e insuficiência cardíaca.

Das DCNT referidas pelos idosos do grupo de promoção à saúde da OPS, a hipertensão arterial é a doença mais citada, acompanhando os dados encontrados na literatura. A seguir surgem a osteoporose, as doenças da tireoide e o diabetes, referidas por idosos do grupo de ambos os sexos.

A osteoporose é a doença esquelética sistêmica associada à maior incidência de quedas em idosos, já sendo considerada um problema de saúde pública, principalmente associada a fraturas. Ressalta-se, que as quedas em idosos aparecem entre as causas externas de mortalidade neste segmento populacional, além de poderem levar a incapacidades e dependência(15).

Em relação às doenças da tiroide, estas vem sendo diagnosticadas com maior frequência devido à melhoria de sensibilidade e acessibilidade aos testes laboratoriais requeridos para sua detecção(16).

Liberman(17) ressalta que as doenças da tireoide apresentam elevada incidência entre a população idosa relacionadas ao envelhecimento do sistema endócrino, principalmente no que se refere ao hipotireoidismo.

Brito e Litvoc(18) ressaltam que quanto maior a idade do indivíduo, maior a incidência de comorbidades, como já destacado. Portanto, não causa estranheza que a maioria, 62,5%, dos idosos do grupo apresente mais de uma DCNT. Destes, aproximadamente metade dos hipertensos apresenta concomitantemente doenças da tireoide ou osteoporose. É frequente ainda a comorbidade entre diabetes e doenças da tireoide e entre osteoporose e dor crônica.

Sobre esta última associação referida pelos idosos do grupo, Pereira e Mendonça(19) destacam que apesar da osteoporose ser a doença óssea de maior prevalência entre a população geriátrica, é geralmente assintomática. Portanto, é doença que, por si só, não se caracteriza como em causadora de dor crônica, como encontrado nesta pesquisa.

No que tange às internações, em torno de metade dos idosos do grupo já esteve internada, sendo que a maioria das internações ocorreu no último ano ocasionadas por motivos cirúrgicos ou por descompensações da DCNT de base. Das internações atribuídas às descompensações das DCNT, destaca-se que a maioria ocorreu nos idosos do sexo masculino com maior número de comorbidades e de mais idade.

Ressalta-se que Nunes(20), em estudo sobre o envelhecimento populacional e as despesas do SUS, destaca que tanto a frequência quanto os custos de internações entre os idosos são mais elevados no sexo masculino, o que pode indicar um processo de envelhecimento de qualidade inferior ao apresentado pelas idosas.

Os depoimentos destes idosos foram classificados segundo as perguntas norteadoras nas seguintes categorias gerais: Qualidade de Vida, Saúde, Influência das DCNT na Qualidade de Vida e Influência da Participação no Grupo de Promoção da Saúde na Qualidade de Vida.

Analisando-se as falas dos idosos do grupo quanto à categoria Qualidade de Vida, observa-se que estes a associam, de maneira geral, ao bem-estar. Este bem-estar surge como aquilo que dá prazer, como estar bem consigo mesmo, ter prazer no que faz, mas, ao mesmo tempo em que os idosos o citam, o complementam.

Este complemento é traduzido como limites, tais como condições de saúde, situação financeira, restrições à alimentação e atividades. A estes limites, os idosos, em suas palavras, se adaptam.

Resende e Neri(21), analisando qualidade de vida em idosos portadores de deficiência física, destacam que os indivíduos idosos selecionam os domínios comportamentais nos quais detêm melhor nível de funcionamento e, mediante estratégias de compensação, aperfeiçoam este funcionamento. Este modelo, inicialmente proposto por Baltes e Baltes e denominado otimização seletiva com compensação, SOC, é definido como a maximização de habilidades desejáveis e minimização ou eliminação dos resultados negativos ou indesejáveis.

Assim, as pessoas ao longo da vida encontram certas oportunidades, como as decorrentes da educação, e também limitações, como as ocasionadas por doenças crônicas, e administram a ambas selecionando domínios em que mantêm funcionalidades, otimizando-os e compensando as perdas havidas em outros. O quanto os idosos conseguem manejar os domínios em que detém maestria, aperfeiçoá-los e compensar as perdas determinará sua maior ou menor adaptação ao processo de envelhecer(22).

Guedea e col.(23) destacam que a percepção que o idoso tem de seu bem-estar está diretamente relacionada com sua qualidade de vida. O bem-estar subjetivo é um indicador de saúde mental, sinônimo de felicidade, ajuste e integração social, associando-se negativamente à depressão e DCNT. Trata-se de importante indicador de adaptação na terceira idade, composto pelos componentes afetivo e cognitivo.

O componente afetivo se caracteriza pelo equilíbrio dos afetos positivos e negativos. O componente cognitivo é tido como um processo de julgamento e avaliação geral da própria vida(22-24).
Guedea e col., já citadas, seguem ressaltando que as estratégias de enfretamento têm contribuição significativa para o bem-estar subjetivo dos idosos, funcionando como amortecedores para efeitos adversos, tendo tanto um componente individual quanto social. Estudando 123 idosos do município de João Pessoa, Paraíba, sem grandes perdas funcionais, analisaram as estratégias de enfrentamento por estes utilizadas e concluíram que a rede de apoio social tem importância no bem-estar destes idosos.

Neri(22) ressalta que os recursos da personalidade tais como conhecimento e valorização de si, capacidade de enfrentamento e autoavaliação determinam o bem-estar subjetivo, destacando, entretanto, a necessidade de ser considerada a multidimensionalidade, a contextualização.

Dentro do contexto das estratégias de enfrentamento se destaca o conceito de resiliência, enquanto capacidade do indivíduo construir-se positivamente em face das adversidades. Este conceito tem sido utilizado na área de promoção à saúde desde os anos 1970, buscando identificar os fatores de risco e proteção que contribuem para a adaptação das pessoas, a fim de que possam servir de subsídios para políticas públicas e programas nesta área(25).

Aqui, quando se fala em fatores de risco e proteção, não se trata do aspecto biológico ou epidemiológico apenas, mas também de questões sociais, culturais, psíquicas que influenciam a qualidade de vida e a saúde, ou seja, dos determinantes já discutidos anteriormente. A maioria dos estudos que tratam da resiliência está voltada para adolescentes, crianças ou outros grupos em situação de vulnerabilidade, como as mulheres(26).

Estes mecanismos adaptativos podem explicar o encontrado nesta pesquisa, na qual o grupo de idosos, apesar de ciente de suas limitações e vendo restrições em seus hábitos e estilo de vida decorrentes das DCNT, avalia sua qualidade de vida como boa e está satisfeito com sua saúde.

Além da associação com bem-estar, o grupo também vê a qualidade de vida como convívio social, entendido como relacionamento de amizade, companhia, companheirismo. As entrevistas destacam a relação entre qualidade de vida e aprendizado, sendo este último visto como espaço de trocas entre os próprios idosos do grupo e entre a equipe de profissionais do programa. Foram ainda citadas diversão, distração e viagens, atividades vinculadas tanto à oportunidade de convívio social quanto ao bem-estar e o convívio familiar.

Chachamovich e col.(24), em revisão da literatura sobre qualidade de vida em idosos, destacam a associação desta com convívio social, atividades de lazer, comunicação, alegria, convívio familiar, relacionamento, amizades, autoestima, saúde, segurança e renda.
Nota-se que as falas do grupo de idosos coincidem com as pesquisas citadas. O grupo também relacionou qualidade de vida com saúde, alimentação e prática de atividade física. Como o mesmo se encontra vinculado a um programa de promoção à saúde de uma OPS, anteriormente caracterizado, pode-se depreender que tanto a referência ao aprendizado quanto à alimentação e atividade física possas estar relacionadas a estas atividades.

Destaca-se que existe uma superposição entre o que o grupo entende por qualidade de vida e por saúde, sendo que as duas são relacionadas praticamente com os mesmos significados: bem-estar, convívio social, alimentação, prática de atividade física, autonomia e independência.

A saúde foi relacionada à ausência de doenças, sendo estas descritas como dor, sofrimento, restrições a atividades. Também foi associada ao uso correto de medicação e ao atendimento médico. Há referências, entretanto, à automedicação.

Firmo e col.(27) destacam, em pesquisa sobre hipertensão, ser frequente a mudança da forma de tomar a medicação ou associar outro medicamento não prescrito entre hipertensos, apesar dos mesmos afirmarem a importância do uso correto dos remédios.

Quanto à alimentação, esta foi citada tanto como sendo parte integrante do conceito de qualidade de vida quanto ao de saúde, tendo sido citada como importante restrição decorrente do acometimento pelas DCNT, principalmente nas entrevistas dos idosos do grupo que são portadores de diabetes, hipertensão arterial e hipercolesterolemia.
Vários autores destacam que, do ponto de vista antropológico, a alimentação é tida pelos portadores de DCNT como causa das mesmas, principalmente no que tange à hipertensão arterial e ao diabetes. Os portadores destas últimas sabem que os cuidados com a alimentação são importantes, mas apontam uma série de dificuldades para seguir as restrições dietéticas impostas, como dificuldades financeiras, visitas a parentes, festas, entre outras(7,27).

Barsaglini(28) em estudo sobre diabetes ressalva que os portadores desta doença incorporam o discurso biomédico na sua fala ao atribuírem à alimentação a causalidade de sua doença. Destaca ainda que o alimento é tido como fonte de sustentação para o corpo e saúde, daí observar-se com frequência a incompatibilidade entre as prescrições sobre o que comer e o mundo da vida, não sendo a situação financeira suficiente para explicar a relação do diabético com a alimentação, já que os hábitos alimentares são construídos culturalmente.

Canesqui(7), pesquisando a hipertensão do ponto de vista dos adoecidos, observa que é frequente a crença que associa o volume e densidade do sangue ao alimento ingerido. Assim, o que comer influência no ter ou não a doença, no comportamento desta e no seu controle.

Francioni e Silva(29), em pesquisa realizada com diabéticos participantes de um grupo, ressaltam a importância da alimentação para estas pessoas e para seus familiares, pois uma vez feito o diagnóstico da doença, faz-se necessário mudanças em todo o entorno familiar.

Para os idosos do grupo, a alimentação parece assumir um papel destacado na interferência em sua qualidade de vida relacionada às DCNT, por afetar principalmente sua capacidade de fazer escolhas, sendo que esta situação também pode ser observada nas falas relacionadas à obrigatoriedade do uso da medicação. Assim, ter de comer ou não determinado alimento de determinada forma ou ter que tomar medicamentos em horários preestabelecidos são vistos pelos idosos do grupo como uma forma de restrição à sua autonomia.

Por outro lado, tanto a alimentação quanto a prática de atividade física e a utilização de medicamentos são vistos pelo grupo de idosos como responsáveis pelo controle da DCNT que os acomete, evitando, portanto, que as doenças interfiram em sua qualidade de vida.
As DCNT são ainda vistas como interferentes na qualidade de vida relacionadas às internações frequentes, as quais são mencionadas como afetando tanto a saúde quanto a qualidade de vida destes idosos.

Dos idosos do grupo que negam influência das DCNT em sua qualidade de vida, estes referem ter suas doenças controladas, sendo este fato atribuído tanto ao atendimento médico, ao diagnóstico preciso quanto ao uso correto da medicação.

No que tange à influência que a participação no grupo de idosos exerce sobre a qualidade de vida destes idosos, destacada como positiva em todas as falas, ressaltam Garcia e col.(12) que a atenção à saúde em grupos pode funcionar como rede de apoio ao facilitar e complementar a troca de informações, estimular a autodeterminação e a independência e melhorar a autoestima, o senso de humor e a autonomia, fatores estes essenciais para ampliar a resiliência e diminuir a vulnerabilidade.

Seguem os autores destacando que os grupos, principalmente quando compostos por idosos, propiciam a formação de vínculos e a inclusão social. Ao agregar pessoas com dificuldades semelhantes possibilitam o convívio, fato de importância para amenizar a solidão, queixa frequente no grupo etário estudado por esta pesquisa.

Francioni e Silva(29) corroboram o acima exposto, ressaltando que a convivência em grupos de pessoas com problemas semelhantes proporciona experiências de valor terapêutico, proporcionando às pessoas que participam melhoria na convivência com a doença.

Nota-se nas falas do grupo que a participação nas atividades estimulou o convívio social, contribuindo para afastar a sensação de isolamento. Observou-se que os idosos destacam como muito importante não estar só. O grupo foi ainda associado à felicidade, motivação e aprendizado, todos significados atribuídos igualmente à qualidade de vida e saúde.

Santos e col.(30) destacam que a metodologia dos grupos de promoção da saúde em idosos, enquanto estrutura de intervenção coletiva e interdisciplinar, leva à transformação contínua do nível de saúde e condições de vida dos participantes, contribuindo assim para a superação do modelo biomédico de atenção à saúde.

Conclusão

A pesquisa qualitativa mostrou que o grupo considera qualidade de vida como bem-estar, convívio social e familiar, lazer, distrações, oportunidade de aprendizagem. Estes significados aparecerem em contextos relacionados à convivência grupal.

Ainda as falas demonstraram que os idosos sentem que têm limitações e restrições a seus hábitos impostas pelas DCNT, mas que conseguem estabelecer estratégias de adaptação. Assim, pode-se depreender que estas estratégias adaptativas estejam relacionadas ao fato de que, mesmo com limitações, o grupo de idosos avalia sua qualidade de vida como boa e está satisfeito com sua saúde.

O convívio social foi associado à amizade, companheirismo e aprendizado. Foram ainda citadas diversão, distração e viagens associadas ao convívio social e bem-estar.

O conceito de saúde para o grupo não difere essencialmente do conceito de qualidade de vida, sendo relacionados aos mesmos significados na maior parte das falas, sendo a diferença relacionada à citação de ausência de doenças enquanto dor, sofrimento, restrições a atividades e à necessidade do uso correto de medicação e ao atendimento médico.

Como em outras pesquisas, os idosos fazem referência à automedicação e ao uso incorreto de medicamentos, mesmo dando ênfase à necessidade destes para o controle de sua doença.

Destaca-se a relação do grupo com a alimentação, vista como causadora de doenças, como restrição e diretamente relacionada com o conceito de qualidade de vidae saúde. Tanto a medicação quanto os hábitos alimentares são vistos como limitadores à autonomia do grupo.

Quanto à influência que a participação no programa de promoção tem sobre a qualidade de vida destes idosos, observa-se que há uma visão positiva, relacionada tanto ao convívio social quanto à interação e aprendizagem.

Acredita-se que esta pesquisa atingiu os objetivos propostos, existindo, porém, pontos que merecem maior aprofundamento. Destaca-se por fim que a busca pelo saber em saúde é um contínuo, assim como a construção do próprio ser humano.




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