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Psicologia em Pediatria
Histórias infantis revelam o novo paradigma do século XXI
Sônia Regina Rocha Rodrigues
Médica pediatra pela Faculdade de Ciencias Médicas de Santos - Santos - SP. Escritora.
Endereço para correspondência:
Rua Vahia de Abreu, 150 - apto. 214
CEP 11050-120 - Santos - SP
E-mail: rgrecia@terra.com.br

© Copyright Moreira Jr. Editora.
Todos os direitos reservados.

Numeração de páginas na revista impressa: 327 à 328

Proponho-me a levantar a seguinte questão, partindo da análise dos filmes À Procura de Nemo e Shrek I e II: o mundo mudou; mudaram também os contos de fadas e as histórias infantis que a eles se equiparam.

A jornada do herói já não é, como dizia Campbell, sempre a mesma história que se conta de diferentes maneiras.

Tradicionalmente, o conto de fadas trazia alívio ao sofrimento infantil em face das fortes emoções, através de resgate, escape e consolo, como brilhantemente ilustrou Bettelheim em seu A Psicanálise dos Contos de Fadas. O alívio advinha do evoluir da psique para um estágio mais maduro, porque o conto de fadas elabora de forma simbólica os conflitos entre a criança e o mundo. Tratava-se de evoluir para ser feliz. O sucesso de Nemo e Shrek surpreendeu-me, pois nas últimas décadas tenho observado um nítido desinteresse pelos contos de fadas tradicionais. Há mesmo uma tendência a distorcer e a escarnecer destas histórias, através das conhecidas piadinhas em que, por exemplo, a princesa beija o sapo e se transforma em uma sapinha. Ocorre que as pessoas continuam interessadas em histórias, mas por um novo tipo de histórias, com uma diferente abordagem da psique e do estar no mundo. As histórias de hoje trazem alívio psicológico sobre um diferente enfoque: aceitar-se e acreditar em si para ser feliz.

Durante séculos o bem-estar do indivíduo entrava em oposição ao interesse comum. O que era bom para a sociedade não era necessariamente bom para o indivíduo. Casamentos arranjados, regras profissionais, tratados comerciais e políticos massacravam até mesmo os reis. Por outro lado, o que era bom para o indivíduo não era bom para a sociedade. Liberdade de escolha, criatividade e espontaneidade - privilégio de poucos - ameaçavam a produção, a defesa do solo e a família que, sem o controle de paternidade e sem a autonomia das mulheres, necessitava do arrimo masculino.

De Platão a Comte, os pensadores tradicionais incentivaram os homens a cultivar o melhor em si mesmo, seguindo modelos pré-idealizados que visavam o interesse comum. O Eu era imperfeito e necessitava de autocontrole severo. Quem ousasse discordar das regras estabelecidas sofria desprezo, humilhações, exílio e até a morte.
Na contramão da cultura, pensadores como Nietszche denunciavam o que diziam ser uma técnica de antropometria a escravizar o espírito humano; defendendo o direito à liberdade e à felicidade pessoal. O Eu é perfeito, necessitando apenas florescer, manifestar-se, sendo-lhe impossível tornar-se um Eu diverso ou melhor.

Eis que, nas últimas décadas do século XX, o individual vem ganhando cada vez mais espaço, em detrimento de valores tradicionais. Divórcio, homossexualismo, celibato, tolerância religiosa (ao menos em nosso abençoado Brasil), nada escandaliza a sociedade atual que, através de suas leis, trata de garantir os direitos fundamentais.

Tempos mais felizes aguardam as crianças que são criadas com histórias como À Procura de Nemo e Shrek I e II.
Nessas histórias, a tônica é a manifestação do Eu, a aceitação da individualidade, a que se reconhece o direito de SER em um mundo mutante aberto a infinitas possibilidades.

No conto de fadas tradicional o herói (o príncipe, ou seja, o filho) tem uma missão a cumprir e seu mérito é a vitória. Nas novas histórias o mérito é a persistência. Na história de Nemo, o herói está invertido: não é o filho que parte para salvar o pai, e sim o pai que parte para salvar o filho. Quando este pai não chega a tempo - pensa que fracassou - continua simpático ao expectador e merecedor de todo o apoio de seus aliados (os pelicanos, a peixinha).

O conto de fadas tradicional parece querer moldar o espírito infantil para o sacrifício e a busca de valores preestabelecidos. Seus heróis perdem partes do corpo, renunciam a prazeres, trabalham arduamente, conquistam princesas, animais encantados ou objetos de ouro enclausurados em torres ou palácios, sob a guarda de ferozes dragões, bruxas ou encantamentos.
Já as histórias atuais abandonam esta simbologia para explicitamente valorizar a determinação de atingir sua meta, a coragem de assumir suas peculiaridades e a capacidade de adaptação a um ambiente instável.

A figura do mentor, símbolo da força interior do herói, desaparece e, ao invés de santos disfarçados, gênios ou fadas madrinha, o companheiro do herói é um igual, imperfeito. Em Nemo, a peixinha distraída, em Shrek, o asno solitário.

Os objetos mágicos dão lugar a conselhos práticos: 'continue nadando', 'faça alguma coisa', 'qualquer coisa!', enfim, persista.

Observamos na história de Nemo uma inversão genial - o pai parte para a aventura, o pai se modifica ao final e o pai é o responsável pelos deslizes do filho. Diz a peixinha "que coisa estranha para se desejar a um filho, que nada lhe aconteça, pois, se nada lhe acontecer, sua vida será muito sem graça".

Nemo é uma história para pais superprotetores e ansiosos ante a fragilidade dos filhos que, superprotegidos, tendem a ficar cada vez mais frágeis. Este comportamento é prejudicial à criança, gera nela sentimentos de raiva e estimula a rebeldia. Injustamente acusado pelo pai, Nemo foge para o mar aberto, o que segundos antes nem se atreveria a pensar, é capturado e tem início a saga paterna. O pai vê-se obrigado a confrontar seus medos, a superar suas limitações, a expor-se a novas possibilidades; neste processo se torna autoconfiante. Ao final, o filho é aceito e até estimulado a participar da alegre aventura da vida.

É fácil para a criança identificar-se com Nemo; ela é a parte mais fraca da relação pai-filho, com pouco poder de negociação, e desejosa de ser vista como alegre, bonita e meiga como o peixinho.

Já a identificação com Shrek ocorre pelo lado sofrido da infância. O ogro é criticado, desengonçado, feio, socialmente inadequado, sem controle do próprio corpo: arrota, peida, suja-se todo. Ora, estes desastres a criança conhece bem, principalmente a da cidade, sem direito ao contato saudável com a terra, a lama, o rio, os bichos, a 'sujeira', enfim; obrigada a um precoce treinamento higiênico em creches e pré-escolas. A maior parte de nossas crianças desconhece a agradável manipulação da natureza ou tem acesso a ela em horários rigidamente regulados, como a ida à praia aos domingos pela manhã, mas 'lave bem as mãos' e 'não coloque o dedo sujo de areia na boca, senão...'. Ora, em Shrek, a sujeira não é necessariamente ruim, pode ser divertida e o ogrozinho se enlameia, transforma sapos em bolas de gás, faz caretas etc.

Shrek é o herói que não se encaixa nas expectativas, não é o certinho; é rude, sacode a princesa, recusa o beijo de amor, demonstra sua boa índole através de atitudes bem estranhas, como fazer um churrasco de ratos, brincar de empurrar ou presentear com sapos a sua amada.

Já o príncipe, o certinho (em Shrek II em 3D), é visto com ressalvas, por ser vaidoso, superficial e sem vontade própria. Está obedecendo à vontade da mãe e chega atrasado à torre!

Nessas novas histórias, a princesa, não mais uma figura decorativa, tem a opção de escolher seu destino. É corajosa, luta karatê, questiona seus pretendentes e pode decidir-se entre ser princesa ou ogra, assumindo seu lado individual e criativo.

"O conto infantil moderno
aconselha, de maneira muito simpática:
seja você, sem medo
de ser feliz"


Se no conto tradicional o beijo de amor leva ao plano ideal e quebra o encanto, no conto moderno o beijo de amor leva ao plano real e reafirma o encanto (ogra). Interessante é notar a conotação da expressão 'quebrar o encanto', pois quebrar o encanto deixa tudo sem graça, previsível.

O conto tradicional convida o leitor a renunciar à individualidade em nome de um ideal coletivo. O conto moderno estimula o indivíduo a aceitar-se e a buscar a própria felicidade. Não importa se você é um ogro, em algum lugar haverá uma ogrinha esperando por você.

Se no conto tradicional os valores estão de antemão estabelecidos e consagrados, no moderno os valores apresentados são rejeitados e ousa-se buscar a liberdade, a autenticidade, a criatividade. Em um século em que a informação e a tecnologia evoluem minuto a minuto, as barreiras geográficas desaparecem e a comunicação é praticamente instantânea, esta ousadia é a diferença entre o sucesso e o fracasso.

Resumindo, o conto de fadas tradicional nos diz: siga as regras para ser feliz. O conto infantil moderno aconselha, de maneira muito simpática: seja você, sem medo de ser feliz.