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Revisão
Métodos de determinação da gordura corporal
Assessment methods of the body fat


Mauri Schwanck Behenck
Médico. Coordenador do Departamento Médico do Laboratório de Fisiologia do Exercício e Performance Humana (LAFEPH) - Centro de Educação Física e Desportos (CEFD) da Universidade Federal de Santa Maria/RS (UFSM/RS).
Silvana Corrêa Matheus
José Luciano Tavares da Silva
Professores de Educação Física. Mestres em Fisiologia do Exercício pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência do Movimento Humano - CEFD - UFSM/RS.
Luiz Osório Cruz Portela
Professor adjunto do CEFD-UFSM/RS. Doutor em Ciências do Esporte pela Universidade de Hannover/Alemanha. Coordenador do LAFEPH-CEFD-UFSM/RS.
Trabalho realizado na Universidade Federal de Santa Maria/ RS - Centro de Educação Física e Desportos - Laboratório de Fisiologia do Exercício e Performance Humana (LAFEPH).


Endereço para correspondência:
Dr. Mauri Schwanck Behenck
Av. João Machado Soares, 1240
Bloco B# - Apto. 313
Bairro Camobi
CEP 97110-000 - Santa Maria - RS.

Recebido para publicação em 03/2003.
Aprovado em 10/2003.

© Copyright Moreira Jr. Editora.
Todos os direitos reservados.

Unitermos: obesidade, métodos de avaliação, composição corporal.
Unterms: obesity, assessment methods, body composition.

Numeração de páginas na revista impressa: 650 à 654

RESUMO


A obesidade constitui um capítulo a parte no binômio saúde/doença. A sua associação com outras patologias como o diabetes mellitus (DM), a hipertensão arterial sistêmica (HAS), a doença arterial coronariana, entre outras, está bem estabelecida na literatura. Muito se fala a respeito da fisiopatologia da obesidade, porém pouco se discute a respeito dos métodos de avaliação da gordura corpórea. Neste artigo os autores fazem ampla revisão a respeito dos métodos de avaliação da gordura corporal, detalhando as técnicas e alguns aspectos relevantes de cada procedimento.

INTRODUÇÃO

A obesidade, que era considerada sinônimo de fartura e saúde no final do século XIX, passou a ser vista como um importante fator de risco para inúmeras doenças como o diabetes mellitus, a aterosclerose, a hipertensão arterial, entre outras. O excesso de gordura corporal (principalmente a gordura visceral(1,2)) foi sendo associado ao aumento da mortalidade na medida em que houve um crescimento nos índices de prevalência da obesidade.

Dados nacionais de prevalência de sobrepeso e de obesidade, em crianças de 12 a 59 meses de idade, foram apresentados por Martorell et al.(3). A amostra foi composta por 3.165 crianças e, destas, 14,7% se apresentaram com sobrepeso e 4,1%, com obesidade. Esses resultados, tanto em relação ao sobrepeso quanto em relação a obesidade, colocam o Brasil como o quarto país de maior prevalência quando comparado com outros 12 países da América Latina e com os dados de crianças mexicanas que residem nos Estados Unidos da América do Norte.

Em adultos (faixa etária de 20-69 anos) os dados nacionais sobre obesidade demonstraram uma prevalência de 15,3% entre os homens e 23,2% no grupo de mulheres(4). Evidencia-se uma associação positiva entre a obesidade e o sexo feminino, a idade avançada e o baixo nível de escolaridade(5). Estes relatos estão de acordo com o estudo de Framingham(6) que ressalta o fato de que mulheres, diferentemente dos homens, apresentam um aumento da prevalência da obesidade em decorrência do aumento da idade.

No ano de 1956, Vague(2) distinguiu, segundo a distribuição da gordura, dois tipos distintos de obesidade: andróide, com predominância de tecido adiposo na região superior do tronco (levando a um acúmulo maior na região visceral ou intra-abdominal), e ginóide, tendo a gordura uma localização predominante na região inferior do tronco. Verificou também que o padrão andróide se associava relevantemente aos fatores que predispunham ao risco de ser obeso (aterosclerose, hiperuricemia e diabetes mellitus); a gordura localizada essencialmente na região glútea e femoral pode ser considerada principalmente como um problema estético (em quantidades moderadas), não apresentando a necessidade de urgência em seu tratamento(7).

Determinar a obesidade é, em última análise, estabelecer o excesso de gordura corporal. Existem inúmeros métodos de mensuração da quantidade de tecido adiposo corporal; alguns, como o Índice de Massa Corporal (IMC), de fácil aplicação e praticidade nos fornece uma estimativa do tecido adiposo; outros, como a ressonância nuclear magnética (RNM), são extremamente precisos, mas o alto custo dificulta a sua utilização no processo de rastreamento da obesidade. Classificamos os vários métodos em três grupos principais: antropométricos, por imagem e outros (Quadro 1).

Métodos antropométricos

1. Tabelas de massa corporal x estatura
A mensuração da massa corporal e da estatura pode nos fornecer uma estimativa do tecido adiposo do indivíduo avaliado, utilizando-se, para tal fim, tabelas padronizadas relacionadas com a idade. O método, apesar de prático, pode levar a erros diagnósticos naqueles indivíduos com tecido muscular desenvolvido que podem ser erroneamente classificados como obesos(8).



2. Índice de massa corporal (IMC)
Como o método anterior, o IMC é calculado a partir da massa corporal e da estatura do indivíduo, através da seguinte relação:

IMC = Massa corporal (kg)
Estatura2 (m)

Este método tem grande valor nos processos de rastreamento de indivíduos com massa corporal elevada. É tido como o método mais apropriado e facilmente disponível para rastrear a obesidade na infância, afinal, ele se correlaciona muito bem com as complicações da obesidade infantil, como a hipercolesterolemia, a hipertensão e o desenvolvimento de doenças cardiovasculares a longo prazo(9).

No entanto, da mesma forma que o procedimento anterior, seu maior problema é a especificidade, visto que a massa corporal (numerador) pode ser influenciada, além da gordura, por vários componentes como os músculos, órgãos, esqueleto. Assim, um indivíduo que apresenta uma grande massa muscular em relação à estatura é classificado como obeso erroneamente. Por outro lado, indivíduos com pequena estrutura esquelética ou com pequena massa músculo-esquelética em relação a sua estatura podem apresentar uma subestimação do seu percentual de gordura.

Sendo assim, torna-se clara a necessidade da associação de outras técnicas de medida da composição corporal a do IMC, evitando-se, assim, incorrer em classificações inadequadas.

3. Dobras cutâneas
A mensuração das dobras cutâneas é uma das técnicas mais práticas para a avaliação da composição corporal. Uma vez que 50% a 70% da gordura corporal está localizada subcutaneamente, dobras cutâneas selecionadas têm sido utilizadas para relatar o seu excesso.
Os locais mais utilizados são as pregas cutâneas do bíceps, tríceps, subescapular e supra-ilíaca(11), no entanto, os que apresentam melhor relação com a quantidade real de tecido adiposo são as pregas cutâneas subescapular e tricipital(8). A medida deve ser feita em duplicatas e, se entre as medidas houver uma diferença maior do que 5%, uma terceira aferição deve ser realizada, fazendo-se a seguir a média dos dois valores mais próximos(12). Este procedimento deve ser realizado em pelo menos dois dos locais citados anteriormente.

Em relação às crianças e adolescentes, são utilizadas equações específicas para a estimativa da gordura subcutânea, pois as equações utilizadas para adultos superestimam o conteúdo de gordura desses indivíduos. O uso da mensuração da prega cutânea tricipital seria o método mais apropriado para avaliar a gordura corporal durante o estirão da puberdade, visto que o IMC e a massa corporal/idade durante este período já não se correlacionam tão bem com a gordura corporal(9). No caso de pessoas idosas é emergente a necessidade de desenvolver-se equações mais específicas para a avaliação desta população(10).

Este método apresenta algumas limitações, as quais serão descritas a seguir:

a) A técnica: a própria técnica é um fator limitante, visto que é extremamente dependente do examinador, ou seja, diferentes examinadores apresentam valores não equiparados de medição em um mesmo indivíduo(8,11);
b) A pressão exercida pelos dedos: este fator está intrínseco no anterior, porém merece destaque. O fato de exercer diferentes pressões no momento de se fazer a prega cutânea para a medição, produz valores bem diferenciados de uma mensuração para outra(8,11);
c) O local escolhido: a determinação do local a ser medido tem de ser observada rigorosamente, pois pequenas variações produzem valores de mensuração com grandes oscilações(11).

Apesar de tudo o que foi exposto, convém salientar que este método, quando realizado por um mesmo examinador e com bastante experiência na técnica, torna-se útil, fornecendo dados valiosos sobre a avaliação do indivíduo e/ou acompanhamento da redução ponderal(11).

A utilização desta técnica parece eficiente em indivíduos que possuem percentual de gordura entre 10% e 40%; acima destes valores pode haver uma subestimação da gordura subcutânea(10).
No Quadro 2 se encontram os valores utilizados para a classificação de sobrepeso e obesidade de acordo com o percentual de gordura e o IMC. Os valores referentes ao percentual de gordura se referem tanto a adolescentes como a adultos.

Salienta-se ainda o fato da World Hypertension League(13) não fazer distinção entre os sexos na sua classificação de acordo com o IMC.


* Silva et al.(14); Rocchini(15); ** Williamson(16); *** World Hypertension League(13).

4. Medidas de circunferência
A medição de circunferências proporciona uma outra forma indireta de avaliação da gordura corporal. Uma fita métrica esticada é aplicada levemente à superfície da pele, sem comprimi-la, o que poderia produzir subestimações do percentual de gordura. As medidas são realizadas em duplicata, utilizando-se sua média aritmética. Para a avaliação da gordura corporal, as circunferências utilizadas são as do abdome, nádegas, coxa e panturrilha direitas, braço e antebraço direitos, sendo os valores obtidos utilizados em equações para a estimativa da gordura(17).

Além de estimar a gordura corporal total, as medidas de circunferência são também muito utilizadas para a verificação da distribuição da gordura, mais precisamente, para a estimativa da gordura abdominal, sendo para este fim utilizadas as medidas da circunferência da cintura ou a relação entre as medidas da circunferência da cintura e do quadril.

a. Relação circunferência cintura/quadril
A circunferência da cintura é considerada como sendo a mínima circunferência medida sobre o umbigo e a circunferência do quadril como sendo a mais larga circunferência medida no quadril e nádegas, podendo tal relação variar de 0,58 (obesidade predominantemente glúteo-femoral) até 1,02 (obesidade predominantemente abdominal)(18). Considera-se como um risco elevado para disfunções degenerativas quando esta relação se eleva acima de 0,95 para homens e 0,8 para mulheres(7,17,19).

b. Circunferência da cintura
Juntamente com a gordura corporal total, a circunferência da cintura se mostrou um indicador independente de níveis de insulina em jejum em indivíduos saudáveis de ambos os sexos, sendo provável que tal circunferência reflita a acumulação de gordura intra-abdominal (ou visceral)(20), possuindo, inclusive, índices elevados de correlação com a tomografia computadorizada(21).

No entanto, observam-se diversas limitações na utilização de medidas antropométricas de circunferência para a estimativa da distribuição da gordura em pesquisas científicas, podendo-se lançar mão da tomografia computadorizada, da ressonância nuclear magnética(22), além da absorciometria com raios X de dupla energia (DEXA)(23) para sua mensuração.

Métodos de imagem

Apesar de também poderem ser utilizados para a estimativa da gordura corporal total, os métodos de imagem descritos a seguir são mais aplicados, sob o ponto de vista clínico, para a determinação da gordura visceral, uma vez que permitem a sua avaliação de uma forma mais exata (principalmente a tomografia computadorizada e a ressonância nuclear magnética).

1. Tomografia computadorizada (TC)
Na TC os raios X emitidos, ao passarem através dos tecidos, sofrem diferentes alterações resultantes da dispersão, absorção fotoelétrica, entre outras(24); com o auxílio de um software a imagem é então formada, levando em conta estas atenuações, o que propicia a delineação do tecido muscular, adiposo e ósseo, com isso, pode-se proceder uma estimativa das quantidades de cada tecido(25).

A análise da distribuição de gordura dentro do abdome por intermédio da medição da área de gordura total, intra-abdominal e subcutânea, com o centro localizado no plano médio da quarta vértebra lombar, é o suficiente para associar o nível de obesidade visceral com os fatores de risco relacionados(26). A desvantagem da TC reside em seu custo e, independente disso, da radiação produzida, limitando o número de exames a que o paciente possa ser submetido.

Segundo Busetto et al.(27), a TC é considerada o método mais confiável para a mensuração de depósitos de gordura tanto visceral quanto subcutânea.

2. Ressonância nuclear magnética (RNM)
Este método não utiliza radiação ionizante, sendo, portanto, a sua utilização bastante segura em gestantes e crianças.

Na RNM a radiação eletromagnética, na presença de um forte campo magnético, é utilizada para a excitação do núcleo de hidrogênio das moléculas de água e gordura, levando à emissão de um sinal detectável, o qual pode ser então reajustado, sob o controle do computador, para proporcionar uma representação visual dos tecidos corporais(17).

Assim como a TC, a RNM permite uma separação concisa da gordura dos tecidos adjacentes, podendo, também, ser útil para estimar o tecido adiposo corporal total e visceral(28). Todavia, da mesma maneira que a TC, sua utilização é limitada pelo seu alto custo(25).

3. Absorciometria com raios X de dupla energia (DEXA)
Apesar de ser proposta para a mensuração do conteúdo mineral ósseo, a DEXA pode ser utilizada para a estimativa dos tecidos corporais moles(29), envolvendo radiações desprezíveis(30) e oferecendo custos mais razoáveis que a TC ou a RNM. O princípio da absorciometria se baseia na atenuação exponencial dos raios X por intermédio de duas energias quando este passa através dos tecidos corporais. A absorciometria de fóton duplo (DPA) vem sendo utilizada por mais de uma década, utilizando uma fonte radionucléica, usualmente o 153Gd, para a geração de raios gama. Nas máquinas DEXA mais modernas, a fonte radionucléica é colocada em um tubo com baixa corrente de raios X, oferecendo um aumento de resolução, precisão, tempo de exame reduzido e menor manutenção(23).

Mesmo a DEXA tendo demonstrado ser um método preciso para a mensuração da composição corporal, permanecem dúvidas sobre a exatidão destas medidas. O fator que contribui para a incerteza com relação a validade deste equipamento é a variabilidade existente entre os fabricantes no que diz respeito aos métodos de calibração, aquisição e análise de dados(29). No entanto, sua combinação com a pesagem hidrostática, parece oferecer um novo caminho para a avaliação de diferenças na composição corporal com relação à gordura corporal e à massa magra(31).

Outros métodos

1. Pesagem hidrostática
A pesagem hidrostática tem sido aceita como método de escolha, visando à medida da composição corporal em mulheres(32), sendo possível conhecer o percentual de gordura através dos valores obtidos de densidade da gordura, da densidade da massa corporal magra e do volume corporal(11).

É uma técnica de fácil execução, possuindo um alto nível em termos de precisão de resultados. No entanto, apesar de simples, faz-se necessário a utilização de equipamentos específicos, pouco comuns a estudos de campo, bem como cuidados na aplicação, restringindo seu uso a ambientes laboratoriais(33).

Inicialmente, é realizada a pesagem do indivíduo fora da água. Após uma expiração forçada, é submerso completamente na água, sendo novamente realizada a medida da sua massa corporal. O volume corporal é a diferença entre as duas medidas da massa corporal dividida pela densidade da água. O volume pulmonar residual é variável entre os indivíduos, devendo ser aferido(34). Segundo Guedes(33), os fatores que mais influenciam esta técnica são:

a) A fórmula utilizada para a medida do volume pulmonar residual: é o ponto que apresenta maior controvérsia, existindo três recursos diferentes que podem ser adotados, a saber: utilização de valores calculados diretamente, utilização de valores determinados a partir de equações preditivas ou, ainda, utilização de valores estimados através da média populacional, considerando sexo e faixa etária;
b) O volume dos gases presentes no aparelho gastrointestinal e o volume da urina e fezes: a interferência destes volumes pode ser minimizada pela orientação para evacuação ou, ainda, pela adoção de um longo período de jejum;
c) A temperatura da água: na faixa de 15oC a 37oC não ocorrem alterações significativas no resultado da densidade corporal; a temperatura mais indicada é entre 27oC e 32oC;
d) Densidade da água: esta, necessariamente, deve ser controlada, visto que densidades diferentes podem exercer uma grande influência sobre a flutuabilidade do corpo.

Referindo-se especificamente ao volume residual, deve-se ressaltar que o exercício físico promove alterações (aumento) nesta variável, não sendo aconselhado que se realize a mensuração após a realização de atividade física(35).

Em relação aos procedimentos, estes devem ser repetidos de 8 a 12 vezes, tendo em vista a ocorrência de variação entre as medições, bem como, devido ao fato de que, com a proximidade das medidas finais, o indivíduo fica cada vez mais tranqüilo e familiarizado com a técnica, colaborando para que o resultado apresente uma margem de erro menor, em virtude do volume residual(33,34).

2. Água corporal total ou hidrometria
A utilização desta técnica se baseia na hipótese de que a quantidade de água corporal se apresenta de forma razoavelmente constante na massa magra(36). Depois de obtido o valor da massa corporal magra, torna-se fácil calcular a massa de tecido adiposo(8,37).

Essa mensuração é feita através da administração, via oral ou endovenosa, de determinadas substâncias como a antipirina e seus derivados e o óxido de deutério; estas substâncias se difundem e se misturam com a água corporal. O marcador mais fácil de ser utilizado é o óxido de deutério, por misturar-se mais facilmente com a água, alcançando o equilíbrio no organismo em poucas horas(38).

As informações acerca da quantidade total de água no organismo é obtida através da análise de amostras de sangue ou urina verificando o total de substância administrada(37). A partir de cálculos matemáticos se obtêm a quantidade de massa magra, sendo possível calcular, a partir destes valores, a gordura corporal.

Esta técnica apresenta alguns problemas se for considerada a sua aplicação na população em geral. Indivíduos que não sejam já maturados podem ter sua mensuração de gordura corporal subestimada e de massa magra superestimada, ocorrendo o inverso com os idosos(33). Isso se deve ao fato desse modelo de medida ter como base valores de água corporal em relação a massa magra encontrados em pessoas adultas, não considerando as alterações sofridas em virtude das diferentes fases da vida (infância, adolescência e senilidade)(39).

Não é difícil de prever que uma das limitações associada a esta técnica de medida é o tempo gasto para a obtenção dos resultados, sendo exigido em média de duas a três horas só para que ocorra a combinação das substâncias marcadoras, devendo-se posteriormente realizar a coleta do material e as análises, as quais envolvem materiais especiais e de alto custo(33).

3. Captação de potássio radioativo (K40) ou espectrometria
A composição corporal é obtida com base na suposição de que a massa magra apresenta um conteúdo de potássio constante e conhecido(40).

Esta técnica, no entanto, requer equipamentos caros, sofisticados e extremamente sensíveis, não sendo raro apresentar erros de calibração e, conseqüentemente, instabilidade nos resultados(41).

4. Impedância bioelétrica ou bioimpedância (BIA)
A bioimpedância consiste na aplicação de quatro eletrodos no corpo, distribuídos no tornozelo, pé, punho e dorso da mão. Uma corrente imperceptível é passada através dos eletrodos distais (mão e pé). O eletrodo proximal (punho e tornozelo) recebe o fluxo da corrente. A condutibilidade elétrica através dos tecidos entre os eletrodos dependerá da água e distribuição de eletrólitos naquele tecido. Tendo em vista que a massa corporal magra contém quase toda a água corporal e eletrólitos, a condutibilidade será muito maior nesta do que no tecido adiposo. Portanto, a quantidade de fluxo de corrente através dos tecidos refletirá a quantidade relativa de gordura neles contida(19). O valor da impedância é então convertida para densidade corporal (adicionando massa corporal, estatura e, algumas vezes, diversas medidas de circunferências para uma equação), sendo por sua vez convertida para percentual de gordura corporal por intermédio de equações específicas. Um fator que afeta a acuidade da BIA é o fato do avaliado ter que manter um nível de hidratação normal, porque tanto a desidratação como a super-hidratação afetam a concentração de eletrólitos, de forma independente das mudanças reais na gordura corporal. Mais especificamente falando, a perda de água corporal diminuirá a medição de impedância traduzida por um percentual de gordura menor, ao passo que uma super-hidratação proporcionará o efeito oposto(17).

5. Interactância por infravermelho próximo (NIR)
A técnica de medida de composição corporal por NIR é um procedimento baseado nos princípios de absorção e reflexão de luz, utilizando-se da espectroscopia por infravermelho próximo, existindo modelos que utilizam apenas um local do corpo para a mensuração (bíceps). A medição é realizada através de uma sonda, a qual emite radiação magnética por intermédio de um feixe de fibras óticas, sendo colocada na pele acima do local a ser medido. As fibras óticas, localizadas na periferia desta sonda, absorvem a energia refletida dos tecidos e, então, passam-na por um espectrofotômetro para a medição. A quantidade de energia refletida permitirá a estimação da composição do tecido diretamente sob a sonda para uma espessura de diversas polegadas(19).

Em estudos visando a comparar esta técnica de medição de composição corporal com o IMC, relação cintura/quadril e circunferência de cintura, observou-se uma boa reprodutibilidade, com baixa variação intra e interavaliadores. Contudo, a NIR apresentou pouca vantagem com relação à confiabilidade sobre medidas convencionais de adiposidade como a relação cintura/quadril ou IMC, requerendo a entrada adicional de dados de massa corporal, estatura, compleição física, nível de atividade física, idade e sexo para o cálculo do percentual de gordura(42).




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