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Psicologia em Pediatria
Masturbação na infância
Alfredo Castro Neto
Título de especialista em Psiquiatria da Infância e Adolescência, conferido pela Associação Médica Brasileira e Associação Brasileira de Psiquiatria.

Atualmente, a sexualidade da criança ainda se situa na "Terra dos Dragões". Na verdade, a região genital da criança é encarada com um preconceito muito forte.

Embora a maioria das pessoas acreditem que a masturbação na infância seja uma atividade normal, ainda existe uma tendência a encarar a sexualidade da criança como algo relativamente insignificante se comparada à sexualidade do adulto.

Infelizmente, o nosso conhecimento atual sobre a masturbação e o orgasmo na infância é ainda vago e fragmentado, necessitando uma grande quantidade de investigações científicas.

Com menos de um ano de vida, o menino pode apresentar ereção e a menina lubrificação vaginal. Do primeiro ao terceiro ano de vida pode ocorrer a masturbação. Sabemos, também, que todas as crianças têm fantasias eróticas que, por sinal, aparecem precocemente, provavelmente com três ou quatro anos de idade. Porém, não são todas que fantasiam durante a masturbação.

Kinsey estimou que mais da metade dos meninos podem atingir o orgasmo com a idade de três a quatro anos, e a maior parte deles pode alcançar tal sensação três a cinco anos antes de entrarem na puberdade.

As meninas podem confundir lubrificação vaginal e orgasmo e acreditar que só se atinge o orgasmo durante uma relação sexual. Este conceito errôneo pode persistir até mesmo se a menina atingir o orgasmo durante uma masturbação.

Nos primeiros dois anos de vida parece não haver grandes diferenças entre os dois sexos com respeito aos mecanismos que desencadeiam a masturbação, ao contrário do que ocorre nas fases mais tardias da infância.

A criança inicia a exploração de seu corpo após alcançar um certo grau de coordenação e controle muscular. Algumas crianças, principalmente meninas, utilizam objetos como as traves de armação da cama ou outros que ocasionalmente as tenham levado ao orgasmo.

Após os cinco ou seis anos de idade as diferenças entre os dois sexos no que diz respeito ao desenvolvimento da atividade masturbatória se tornam mais pronunciadas. Para as meninas, o início da masturbação parece continuar sendo um evento que acontece ao explorarem seu corpo sozinhas ou por coincidência, enquanto os meninos geralmente começam a se masturbar num contexto social por imitação, ou seja, em decorrência de aprendizado.

Pode ocorrer que algumas meninas comecem a se masturbar após lerem ou serem informadas a respeito, mas isto parece não ser suficiente para iniciar a masturbação, na maioria dos casos.
Um fato curioso é que pesquisas com meninos, que já se masturbavam antes da puberdade, comprovaram que o início desta fase não parecia ter tido qualquer influência no prazer, nas fantasias ou nos padrões masturbatórios, o mesmo ocorrendo em relação às meninas.

Pensando bem, talvez a puberdade tenha um papel muito menor no desenvolvimento da sexualidade do que se imagina. Alguns meninos começaram a se masturbar com maior regularidade após a sua primeira ejaculação, mas outros já se masturbavam regularmente muito tempo antes. Entretanto, devemos levar em conta que os meninos, na puberdade, devido às pressões sociais, têm maior probabilidade de começar a se masturbar, pois tal atitude já é esperada para esta idade.

Outro fato interessante é que existe nitidamente diversas formas de comportamento, linguagem e organização sexual no que tange à masturbação. Apenas os meninos fazem brincadeiras a respeito; as meninas encaram a masturbação de maneira mais séria.

Pesquisas demonstram que várias crianças parecem ter problemas em aceitar o prazer trazido pelo orgasmo, demonstrando constrangimento pelo prazer que sentiam ao se masturbar.

As atividades masturbatórias de algumas crianças foram reprimidas por suas mães que entravam no quarto à noite, interrompendo à privacidade delas.

Um menino de seis anos de idade, que foi surpreendido por sua mãe quando se masturbava, fez um desenho de um garoto chorando e soltando fumaça pela cabeça. Ele disse que era "fumaça de nervoso". Sua mãe fez graves ameaças de castigos, caso ele voltasse a se masturbar.

Uma menina de três anos de idade, ao ser surpreendida se masturbando por sua mãe, recebeu a seguinte ameaça: "Sua mão vai se encher de sangue se você fizer isto novamente". Na sessão psicoterápica, a menina desenhou sua mão com sangue. Num outro desenho, ela fez as mãos de algumas amiguinhas do colégio junto com a sua mão, que era a única que sangrava.


Figura 1 - Queixa: masturbação excessiva. Sexo feminino - 3 anos de idade. "Esta é a minha mão."


Figura 2 - Queixa: masturbação excessiva. Sexo feminino - 3 anos de idade. "Isto são mãos" (da esquerda para a direita: "mão da amiga P.; essa é a minha mão; mão da amiga L; mão da outra amiga do colégio").


Figura 3 - Queixa: filho se masturba no quarto com a porta trancada. Sexo masculino - 6 anos de idade. "O menino está chorando e saindo fumaça de seu rosto. É fumaça de nervoso".

Acredito que as causas mais comuns dos problemas sexuais da infância e da adolescência sejam a falta de conhecimento e os mal-entendidos.

Hoje em dia, é raro alguém acreditar que a masturbação faça mal à saúde. Ninguém acredita que vai ficar louco ou epilético em decorrência das atividades masturbatórias. No entanto, a maioria dos meninos considera a masturbação não apenas como uma atividade privada, mas também, até certo ponto, nociva e, portanto, indesejada. Alguns também acreditam que se masturbar demais poderá levá-los a se tornarem viciados.

A atividade insegura em relação a sexualidade, encontrada na maioria das crianças, parece representar um papel muito importante na gênese de problemas que elas venham a ter.

Poucas crianças e adolescentes têm uma atitude confiante diante da masturbação, ou seja, livre de sentimentos de culpa e vergonha. Na escola, a educação sexual falhou por ter sido adultomorfa. No lar, os pais geralmente orientam os filhos dizendo: "a masturbação é normal e você não precisa ficar envergonhado". Mas quase nunca fazem afirmações que possam representar um certo apoio permissivo, como, por exemplo: "Na sua idade eu me masturbava e sentia prazer".

Os pais precisam saber, que só se masturba quem pode. Na verdade, a masturbação é um ato fisiológico, só havendo necessidade de cuidados quando, em raros casos, a própria criança sinaliza preocupação com esse ato ou se a masturbação estiver causando entraves à rotina de vida de criança na escola e no ambiente familiar.