Home Busca Avançada Normas de Publicação Assinaturas Fale Conosco
Contact Us
 
 

 

CopyRight
Moreira Jr Editora
Proibida a reprodução sem autorização expressa


 
sêlo de qualidade
Like page on Facebook



Artigo de Revisão
Prof. Adib Domingos Jatene
Prof. Adib Domingos Jatene
Diretor Geral do Hospital do Coração/SP


O ex-ministro da Saúde, Adib Domingos Jatene, em entrevista exclusiva para a revista JOVEM MÉDICO comentou sobre a crise na saúde, a importância da relação médico/paciente, a diagnose pela tecnologia moderna e de aspectos do desenvolvimento da cardiologia brasileira.

A entrevista foi realizada nas dependências do Hospital do Coração, em São Paulo, em uma sala despojada de fetiches oferecendo à visão do observador, apenas quadros enormes emoldurando diplomas que nos remetem à excelência do conhecimento do entrevistado.

O ex-ministro acaba de ser homenageado pelo Instituto Paris, juntamente com 24 outras personalidades de todo o mundo, como pioneiros do desenvolvimento da cirurgia cardíaca. Bem humorado, deixou-nos muito a vontade. Contribuiu com sua participação para brincadeiras, mas não deixou passar em branco a oportunidade para expressar o próprio pensamento crítico.


Jovem Médico - Como o senhor vê a atual crise da Saúde?

Adib Jatene - A crise da Saúde é conseqüência do grande desenvolvimento científico e tecnológico nas áreas de diagnóstico, procedimentos e medicamentos de um lado, e a impossibilidade da garantia de acesso de toda a população a esses recursos.

JM - A que se deve a impossibilidade de acesso de todos?

AJ - Todos esses avanços trazem um aumento de custos que todos os países enfrentam e resultam em modificações na assistência, levando, com a especialização e a sub-especialização, à quebra de dois princípios fundamentais que são os vínculos entre quem presta o atendimento e quem o recebe, e a responsabilidade de quem presta para com quem recebe a assistência em causa.

JM - Poderia desdobrar a afirmação?

AJ - Para a maioria da situações clínicas não há necessidade do uso da tecnologia moderna, pois grande parte dos problemas pode ser resolvida com medidas simples. Como a população tem dificuldade de acesso passa a procurar os hospitais e prontos-socorros, os quais ficam sobrecarregados, aumenta a demanda de pessoas cujos casos não exigem a aplicação de tecnologia avançada. A demanda em questão, por via de conseqüências fica bloqueada. Daí decorrem as filas, as esperas excessivas para cada exame e a sensação de ineficiência.

JM - Durante sua atuação como ministro, que providências adotou o sr. para superar a crise da saúde?

AJ - Desde a promulgação da Constituição, o setor público da saúde vem buscando organizar-se, enfatizando o atendimento primário. Foram criados dois grandes programas: "Agentes Comunitários de Saúde" e o "Saúde da Família", hoje transformados no Departamento de Atenção Básica. Simultaneamente criamos o PAB (Piso de Astenção Básica).

JM - Na prática, como funcionam esses progra-mas?

AJ - Organizam o atendimento nos locais onde moram as pessoas, para evitar o deslocamento delas. Com isso, abre-se a possibilidade de atendimento simples, com ênfase para a prevenção, assistência especializada e hospitalar estratégica como cobertura. Tais programas objetivam realizar serviços especializados, sem contudo, lançar mão, desnecessariamente, de tecnologia avançada indispensável a casos efetivamente complexos. Para tanto, realiza-se a triagem nos locais de moradia de grande parte da população.

JM - Podemos inferir a conclusão que essa política objetiva otimizar o uso de tecnologia avançada para poupar recursos com que atender a população carente?

AJ - Não se trata, como muitos ainda pensam , de combater a tecnologia, mas de fazer com que os gastos sejam distribuídos às duas áreas, para alcançar toda a população. Esse é o grande desafio, pois necessita-se de recursos que ainda hoje não estão disponíveis.

JM - Na verdade, o sr enfatizou o aspecto técnico da solução da crise da saúde...

AJ - A luta política pela vinculação de recursos à área da saúde é antiga. Agora, depende apenas de uma votação no senado. Pretendem-se vincular recursos federais, estaduais e municipais com descentralização municipal e participação da população por intermédio dos Conselhos e Conferências de Saúde.

JM - Que perspectiva concreta existe para a população superar o quadro aflitivo atual?

AJ - Embora difícil, a perspectiva que se delineia é favorável. Já estão trabalhando no país mais de cento e vinte mil agentes comunitários. Eles cuidam de setenta milhões de pessoas. Mais de seis mil equipes de saúde, cada uma integrada por médico, enfermeiro e auxiliar de enfermagem trabalham em tempo integral, nas localidades em que moram as pessoas assistidas. Precisamos de pelo menos vinte e cinco mil dessas equipes, o que exige adequação dos cursos de Medicina e de Enfermagem. Outras profissões da área de saúde, deverão ser progressivamente incorporadas aos programas aqui referidos, sobretudo na área mental e de fisioterapia, isso em segunda etapa.

JM - O sr. não está muito otimista?

AJ - Há razões sim, para otimismo. Especialmente se todos nós nos convencermos, de que o país não é o Governo. Na verdade, o país é nosso. Todos devemos contribuir para a transformação da sociedade, dando a ela um caráter solidário e mais fraterno.

A essa altura o Prof. Jatene permite-se vôos de raciocínio em torno da questão da relação médico-paciente, uma vez que já no início dos anos 70, Jatene já manifestava preocupação com o relacionamento medico/paciente. Propugnava ele, no entanto, cuidados nessa direção dentro de um contexto mais amplo em que revela zelo, mas sem preconceito frente à busca de conhecimento no exterior, mas a partir de uma perspectiva voltada para uma realidade local. A ótica do entrevistado há 27 anos, na entrevista ao JB, já admitia que a visão do especialista no caso,"será mais proveitosa a medida em que o médico recolha do exemplo, lá fora, o maior volume possível de informação técnica e científica sobre os problemas a que se propõe solucionar em seu país e re-elabore a informação obtida com os dados essenciais da realidade local".

Ao falar sobre o SUS, o entrevistado admite a grande importância do Sistema Único de Saúde, reconhecendo que a instituição ancora-se em luta de aproximadamente 20 anos. Admite que em sua gestão no Ministério, desenvolveu esforço para consolidar o SUS: "Nós temos problemas de várias ordens, temos desde malária, dengue, cólera, até transplante cardíaco, de fígado, cirurgias complexas em neonatos. O importante é estabelecer todas essas prioridades para que não se privilegie a parte mais espetacular da profissão, que atrai a mídia, que chama a atenção para os procedimentos novos, para a alta tecnologia".

Ao concluir a entrevista, Jatene insistiu na importância que o setor da Saúde terá na recuperação da sociedade e considera o jovem o elemento de contribuição decisiva para a transformação com o apôio de homens mais maduros, mais lúcidos. Segundo Jatene "o médico precisa ter a consciência do que faz porque ele não cuida das coisas que as pessoas têm: ele cuida das pessoas e daquilo que elas têm de mais precioso que é a própria vida".



Medicina não é comércio,
não é negócio...

"Estudei Medicina com o objetivo de voltar para o Acre . Não estudei para fazer cardiologia. Foi durante o curso que acabei me envolvendo com cirurgia cardíaca, então no seu início. Fui trabalhar na enfermaria do Dr. Zerbini. O Professor me solicitava muito. Acabei por me envolver, e fiquei, na área de cardiocirurgia.

A Medicina é uma carreira com numerosas e diferentes oportunidades que se apresentam ao profissional: desde o trabalho de diagnose, medicina geral, médico de família - opções que permitem ao indivíduo dedicar-se com a área que mais corres-ponde ao seu anseio, excluída, naturalmente a conquista de patrimônio e de posição social. Claro que isso também pode ser alcançado por acréscimo, mas não deve ser a meta perseguida. O médico é treinado como profissional para ajudar as pessoas que sofrem a se sentir melhor. Medicina não é comércio, não é negócio. Medicina é serviço. Portanto, qualquer que seja a especialidade preferida, qualquer que seja a atividade exercida, o médico não pode perder de vista o objetivo da profissão: ajudar as pessoas que sofrem. A Medicina não se criou para o médico se sentir melhor, nem conquistar posição. O médico é um instrumento. Todas essas considerações podem e devem ser vistas como o balizamento humanístico da profissão, desde os seus primórdios. Medicina, tampouco, é simples apostolado.

É por ajudar as pessoas que o médico é respeitado, reconhecido. A conquista do médico não se mede pelo que ele possui. Infelizmente vivemos em uma sociedade que supervaloriza os bens materiais; não empresta legitimidade aos valores espirituais, aos princípios. A idéia do sucesso profissional não se mede pelo patrimônio nem pela posição social. O sucesso profissional, na Medicina, mede-se pelo reconhecimento dos colegas de profissão e pelo respeito que as pessoas dedicam à forma que o médico atua. Assim, torna-se evidente, no meu entender, que o setor da Saúde exerce papel muito importante na melhora da sociedade que não pode se basear nos falsos valores que aí estão".



Adib Domingos Jatene