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Programa Mais Médicos
Médicos brasileiros não conseguem se inscrever

 
Médicos brasileiros tentam, mas não conseguem ir para cidades do interior do país

Médicos de diversas localidades no Brasil estão enviando relatos para o Conselho Federal de Medicina (CFM) narrando a via crúcis que fizeram para se inscrever no programa Mais Médicos, sem sucesso. Eles respondem a um apelo feito pela entidade para que informassem as dificuldades que estavam enfrentando. Mesmo antes do envio das mensagens, o CFM já suspeitava que os brasileiros estavam sendo prejudicados e encaminhou denúncia ao Ministério Público e à Polícia Federal, solicitando que acompanhassem o processo de inscrição no programa.

De acordo com os relatos, apesar de mostrarem disposição para trabalhar em cidades do interior, consideradas de difícil acesso, os profissionais não tiveram suas inscrições homologadas para essas cidades, tendo sido lotados em capitais, ou regiões metropolitanas.

Um exemplo é o médico baiano Dilvo Bibliazzi Junior, que, inicialmente, solicitou inscrição para a cidade onde já morava, Canavieiras, que tinha carência de médicos e estava classificada no perfil 6, mas foi encaminhado para Itaparica, município vizinho a Salvador e com mais equipamentos urbanos do que a primeira opção do candidato.

Antes de homologar a inscrição, o médico levou a família para conhecer a cidade onde morariam. Em conversa com um profissional da secretaria municipal de saúde, descobriu que não há falta de médicos na região. "Creio que há aqui uma tentativa de diminuir as despesas do município demitindo os médicos que lá trabalham pelos bolsistas do programa Mais Médicos", concluiu, o que o levou a desistir de homologar a inscrição.

O médico ainda se deu ao trabalho de avaliar os dados sanitários do município e descobriu que o número de pessoas atendidas por cada Unidade Básica de Saúde (UBS) não chega a três mil, número este recomendado como ideal pela Política Nacional de Atenção Básica. "Achei bastante estranho o fato de Itaparica ter sido selecionada como prioridade, já que todas as UBS estão em pleno funcionamento, mesmo que em condições que considero inadequadas", avaliou.

"Por favor, não digam na televisão que os médicos não querem trabalhar no interior do país, ou se disserem, digam também que conhecem um médico, cidadão brasileiro, que tentou fazer parte do Mais Médicos, esforçou-se até, mas que infelizmente não conseguiu e continua atendendo em seu horário habitual em uma pequena cidade do interior do país", escreveu indignado o médico Dilvo Bibliazzi, em carta encaminhada ao ministro da Saúde.

Do sertão para o litoral - Quem também mandou um relato indignado foi o médico potiguar Giordano Santos, que havia pedido lotação para a cidade de Florânia, distante 261 quilômetros da capital, Natal, mas foi lotado em Macaíba, que fica a 14km da capital potiguar. "E não era um programa de interiorização dos Médicos? E por que um médico que trabalha na praia na capital ganhará o mesmo que um que vai atuar na aldeia indígena no Amazonas?, questiona. Ele diz que vários amigos também estão enfrentando o mesmo problema: querem ficar no interior, mas estão sendo enviados para a capital.

Há, ainda, relatos de médicos maranhenses, amazonenses, mato-grossenses do sul e paraibanos que não conseguiram concluir a segunda etapa do processo de inscrição. Há, também, o caso de um médico que já trabalhava em um município de perfil 4 e só conseguia efetuar a inscrição para outros de perfil 5, que são os territórios indígenas."A cidade em que trabalho atualmente se cadastrou no programa e tem vagas, mas não posso escolhê-la", reclamou um médico.

"Infelizmente, as histórias contadas por nossos colegas mostram que há uma ação deliberada para dificultar a inscrição dos médicos brasileiros no Mais Médicos", avalia o presidente do CFM, Roberto Luiz d’Ávila.



Jurista Miguel Reale Júnior diz que Mais Médico é demagogia na saúde



O jurista Miguel Reale Júnior criticou o programa Mais Médicos e acusou o governo federal de demagógico. Usando dados do estudo Demografia Médica, o professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) argumenta que o caos na saúde não decorre do número de médicos no país, mas na sua distribuição desigual e, principalmente, "na falta de outros profissionais de saúde, de instalações e equipamentos essenciais ao correto atendimento",afirmou, em artigo publicado no último sábado (3), no Estado de S. Paulo. 

Reale Júnior classifica a proposta de criação do segundo ciclo nos cursos de medicina como chantagem sobre os formandos. Acerca da entrada de estrangeiros sem a devida revalidação dos diplomas, o jurista diz que o governo está entregando a saúde pública, com cegueira deliberada, "a uma aventura". "Estudantes mal-sucedidos em vestibulares no Brasil, formados na Bolívia, na Argentina e em Cuba, em cursos reconhecidamente sofríveis, não precisam do segundo ciclo, nem de comprovar preparo técnico (...) Se livraram do vestibular e agora se livram também de revalidar o diploma", critica.

Na avaliação do jurista, o ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski, que negou a liminar solicitada pela Associação Médica Brasileira (AMB) para sustar a medida provisória 621/13, "torna-se cúmplice da entrada de médicos mal formados, não avaliados, oriundos de cursos insuficientes em países latino-americanos". Ao afirmar que a demagogia não deveria entrar na sensível área da saúde, Reale Júniro defende a criação de uma carreira para médicos e o início de uma ação conjunta com Estados e municípios para dotar de meios a rede pública de saúde."O mais é demagogia".

Conselho Federal de Medicina