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Sistema de saúde
Muitos médicos, pouca qualidade
Parece haver hoje em nosso país uma política deliberada de
desqualificação da Medicina e dos médicos. A despeito de ainda
ser centro de excelência e referência mundial em variadas
especialidades, o Brasil coloca seu sistema de saúde em xeque
dia a dia por equívocos e/ou falta de visão de parte dos
gestores.
Atualmente, um grande vilão da desconstrução de nossa Medicina é
o aparelho formador. A abertura de escolas médicas não foi
enfrentada com a devida seriedade e os resultados são nefastos.
Recente avaliação do Conselho Regional de Medicina do Estado de
São Paulo com estudantes do sexto ano atestou que quase 50%
deles não sabe interpretar radiografia ou fazer diagnóstico após
receber informações dos pacientes. Também cerca de metade
administraria tratamento impreciso para infecção na garganta,
meningite e sífilis. Ainda não seria capaz de identificar febre
alta como fator que eleva o risco de infecção grave em bebê.
O baixo percentual de acertos em campos essenciais da Medicina,
como Saúde Pública (49% de acertos), Obstetrícia (54,1%),
Clínica Médica (56,5%) e Pediatria (59,3%) é alarmante. Aliás,
os índices de reprovação desde que a avaliação foi criada, em
2007, mostram que muitos novos médicos não estão preparados para
exercer a profissão.
De certa forma, a responsabilidade não é só deles, que pagam
mensalidades caríssimas convictos de que receberão conhecimento
suficiente para bem servir ao próximo. É fruto da
mercantilização do ensino. Faz tempo que escolas médicas são
abertas com qualidade absolutamente contestável. A maioria é
autorizada a funcionar sem hospital escola, com corpo docente de
capacitação discutível, falhas na grade pedagógica, entre outros
problemas.
Dessas faculdades mambembes saem, todos os anos, profissionais
de formação falha. Não dá para fechar os olhos: isso é um risco
à saúde e à vida dos cidadãos.
Para agravar a situação, o perigo não mora só aqui. Também vem
de fora. Nos últimos dias, por exemplo, foi noticiado amplamente
que o governo federal adotará nova estratégia para facilitar a
revalidação de diploma de médicos brasileiros formados na Escola
Latino-Americana de Medicina (ELAM) de Cuba. Com recursos de
nossos impostos, eles terão estágio em hospitais públicos,
recebendo bolsa, enquanto fazem cursinho de reforço para se
preparar para uma prova de revalidação de diploma.
Ressalto que a validação desses diplomas de médicos
estrangeiros, e principalmente de brasileiros formados em outros
países, é um processo democrático e republicano. Contudo, são
necessárias regras rígidas para não expor os cidadãos à
incompetência profissional oriunda de modelos de formação
inadequados ou insuficientes.
Tenta-se, na atual conjuntura, mais um arremedo para esconder a
incompetência em se conceber políticas consistentes para
garantir a universalidade e integralidade do Sistema Único de
Saúde (SUS). Busca-se mão de obra barata, para atender em
regiões de fronteira, de difícil acesso. Enfim, parece que se
planeja oferecer Medicina de segunda categoria para os carentes
e desassistidos. Não podemos compactuar de forma alguma com
isso.
Antonio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de
Clínica Médica |
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