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Câncer de mama
Novo método identifica à partir de raio X
Novo método identifica câncer
de mama à partir de raio X
Radiação espalhada pela mama permite que se diferencie
amostras normais, benignas e malignas
Do USP online
Método desenvolvido na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
de Ribeirão Preto (FFCLRP) propõe uma nova maneira para se
identificar o câncer de mama. O sistema desenvolvido pelo físico
médico André Luiz Coelho Conceição foi construído com base nas
informações de radiação espalhada pela mama quando exposta à
exames de raio X. Anteriormente, esses dados eram tidos como
indesejáveis por reduzir a qualidade da imagem em relação a
mamografia.
Modelo atual apresenta taxa de erro em cerca de 10% a 20% dos
pacientes
Durante a pesquisa, Conceição desenvolveu a combinação das duas
técnicas de tratamento: a observação dos tecidos a partir do
espalhamento dos raios X e a mamografia tradicional.
Foram analisados tecidos normais, malignos e benignos, para que
com os dados obtidos se pudesse desenvolver um modelo baseado
nas diferenças das composições dos tecidos das mamas, de modo a
conseguir diagnosticar o câncer por meio das informações
estruturais obtidas a partir das amostras.
Comportamento inesperado: Com o passar da idade, as
fibras da mama tendem a ser substituídas por células de gordura,
tornando os seios mais flácidos. Desta maneira, quanto mais
jovem for a mama mais fibroso será seu tecido.
O tecido fibroso é constituído principalmente por água. Já a
gordura é basicamente formada por ácidos graxos. Foi essa
diferenciação responsável pelos diferentes resultados no
espalhamento dos raios X em médio ângulo. Entretanto, ela só
ocorreu da maneira esperada nos tecidos normais. Os tecidos com
tumores malignos e benignos apresentaram comportamentos
diferentes.
As mamas com tumores passaram a ter um maior componente de água
em sua estrutura, comportamento inverso ao considerado
natural.Vale lembrar que a mama tende a perder água e ganhar
ácidos graxos com o passar do tempo. “A hipótese é que o tumor
precisa de um aumento da vascularização da mama para se
desenvolver, isso implica também no aumento da porcentagem de
moléculas de água”, aponta Conceição.
Outros grupos trabalham metodologias semelhantes para analisar a
mama e têm alcançado resultados similares, contudo a conclusão
que esta pesquisa traz é inovadora. “A diferença desse estudo
foi na combinação de técnicas de espalhamento em baixo e médio
ângulo e na interpretação dos dados, que foram utilizados para a
criação de um modelo para diagnosticar as amostras de tecidos
mamários em “normais”, “benignas” ou “malignas”. Nossa conclusão
é mais propositiva nesse sentido”, garante o físico.
Na região de baixo ângulo, as diferenças se deram com relação às
fibras de colágeno. Em amostras “malignas”, essas fibras
apresentaram uma diferença quando comparadas com as amostras
“normais”: elas estavam muito mais espaçadas, com maior variação
na periodicidade de sua estrutura, “mais frouxas”, popularmente
falando. Segundo Conceição, uma explicação possível é a de que a
invasão do câncer naquele espaço causa a ruptura dessas fibras
de colágeno.
Para reparar esses danos, o organismo tenta reconstruir essa
ligação. “A reconstrução de uma ligação nunca fica tão perfeita
quanto a original. Isso fica visível no espalhamento dos raios,
que acontecem com um baixo ângulo”. É esta reconstrução
imperfeita que pode ser identificada no espalhamento dos raios.
Construção de um modelo para o diagnóstico: Vários
modelos para a determinação de um diagnóstico preciso do câncer
de mama foram testados por Conceição. O que apresentou melhor
resultado foi o que se baseou em um método estatístico chamado
“análise multivariada”. A novidade deste modelo consiste na
variável usada para o agrupamento de amostras: o momento
transferido.
O espalhamento é avaliado como uma função de grandeza chamada
“momento transferido”. Em um paralelo simples, seria como uma
medida de força. A força é a relação entre massa e aceleração, o
momento transferido é a relação entre o ângulo do espalhamento e
a energia dos raios X. “Na prática, o espalhamento nada mais é
que uma contagem da radiação espalhada, que contamos por fótons,
em função do ângulo de espalhamento e da sua energia da radiação
espalhada”.
“Esse método de estatística multivariada permite identificar os
valores de momento transferido que fornecem as informações mais
relevantes para a construção do modelo. Assim, posso separar as
amostras normais, malignas e benignas com o menor número de
variáveis e ainda ser muito preciso. É a combinação ideal: menor
número de variáveis e melhor separação”, avalia.
Conceição explica como o modelo simplifica o diagnóstico: por
meio de um software específico para análise estatística, é
arquivado o número de fótons espalhados por cada amostra em cada
um dos valores de momento transferido. O momento transferido é
fixo, portanto, valores anormais são facilmente identificados
quando comparados com a tabela com os valores-padrão construída
pelo software.
“O nosso modelo conseguiu identificar corretamente 100% das
amostras. Elas foram classificadas como normais, malignas ou
benignas”, conclui.
Junção de métodos: Conceição sugere que, para maior
eficácia na identificação do câncer de mama, o método atual e o
novo modelo proposto em sua pesquisa se complementem.
A utilização da informação proveniente da radiação espalhada
fornece meios complementares à informação da mamografia
convencional, que é baseada simplesmente na radiação que é
transmitida pela mama.
O modelo atual apresenta uma taxa de erro (falsos negativos e
falsos positivos) em cerca de 10% a 20% dos pacientes. “Esse é
um erro muito grave, que pode ser evitado com a combinação dos
dois métodos”.
Conceição diz não defender a substituição de uma análise pela
outra porque o novo modelo só foi aplicado em pequenas amostras,
nunca na mama inteira. O processo de avaliação de toda a mama
está em fase de estudo e aprimoramento, mas até lá é importante
que a mamografia tradicional seja utilizada como uma das
ferramentes para o diagnóstico.
Não é possível se fazer uma previsão de quando isso será
aplicado em clinicas e hospitais públicos do Brasil. Tudo
depende do desenvolvimento de novos detectores, mas já existem
estudos nesse sentido em diversos grupos do mundo.
Em seu pós-doutorado, Conceição está trabalhando no
desenvolvimento de novos mecanismos para fazer imagens do
espalhamento da radiação por meio de mecanismos mais sensíveis
e, portanto, mais precisos e abrangentes. Sua pesquisa está
sendo feita no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, em
Campinas.
Palavras chave: análise multivariada, câncer de mama, FFLCRP,
momento transferido, raio X |